(Mr. Pain)
(Mr. Pain está sentado numa cadeira no centro da sala de visitas do Priorado. Os Inspectores Intendentes Ricardo Soares e Chorik estão diante dele, também sentados, e tomam notas nos respectivos cadernos…)
Chorik: – Nome completo?
Mr. Pain: – Charlie Dolorousos Pain.
Chorik: - Dolorousos Pain?! Rsss…
Mr. Pain: (gritando) – Qual é o seu problema?! Não gosta?! A minha mãe gostava e …
Chorik: – Calma, não se enerve, gostos são gostos.… Profissão?
Mr. Pain: - Actual?… Mordomo do Priorado.
Chorik: – Que outras profissões teve?
Mr. Pain: – Chauffeur, militar, ladrão, artista de circo e muitas outras coisas mais… Até fui torturador-mor.
Ricardo: – Chauffeur e até o quê?!…
Mr. Pain: – Torturador-mor. Era eu o cérebro que imaginava os incentivos que deviam ser aplicados aos que se portavam mal.
Ricardo: – Torturador como aqueles gringos em Guantánamo?
Mr. Pain: – Sim, claro. Pensou que eu fazia tortas, como a D. Tetê?…
Ricardo: – Afogou algum detido?
Mr. Pain: – Não, nunca. Na maior parte das vezes apenas puxava orelhas e apertava os narizes aos bandidos… Era suficiente. Claro, fiz umas simulações experimentais com água, muito inocentes… Afogá-los a sério era tarefa dos carrascos. E nas electrocussões eu nem me aproximava dos botões… Assistia e mais nada.
Chorik: - Não tem remorsos do que fazia?
Mr. Pain: – Remorsos?… Não entendi, que é isso?
Chorik: – Uma espécie de reprovação da consciência por um acto praticado…
Mr. Pain: – Graças a Deus, que não sofro disso! Mas tenho colesterol, e queda de cabelo, sabiam?… E ando aqui com uma dorzita num queixal há cerca de dois dias…
Chorik: – Não somos médicos Mr. Pain, somos polícias!
Mr. Pain: – Que casualidade! Tive um tio polícia! Era um tipo porreiro, barrigudo e tão corrupto que só visto! Uma vez ele…
Ricardo: – Não queremos saber do seu tio polícia, Mr. Pain! Qual a sua idade?
Mr. Pain: – Quarenta e quatro anos, nove meses e…
Ricardo: – Chega. Não precisa de contar até aos minutos…
Mr. Pain: – Desculpe Sr. Intendente. Só quis ser objectivo e colaborante.
Ricardo: – É o que pretendemos de si, Mr. Pain. Por falar em ser colaborante, quer fazer alguma declaração, digamos, de livre vontade?
Mr. Pain: – Claro que sim! Em primeiro lugar, através de mim o Priorado exprime o seu incomensurável orgulho em ter cá a polícia, na pessoa de vossas excelências. Na verdade, sempre fomos admiradores da polícia em geral e da vossa intendência em particular. Pela vossa presença no Priorado experimentamos um sentimento de segurança, sentindo-nos seguros e a salvo dessa gatunagem que anda por aí fora à solta a roubar e a matar enquanto dezenas de polícias têm a nobre preocupação de guardar o Priorado com o brio e a competência que lhe é reconhecida. Naturalmente, o Priorado agradecerá os vossos preciosos préstimos condignamente, mas faz questão que os senhores se considerem verdadeiros hóspedes desde o primeiro instante. Se quiserem trazer as famílias e os cachorros, o Priorado estará ao vosso dispor para acomodar todos… de forma caprichada. Em segundo lugar…
Ricardo: – Páre com isso Mr. Pain! Estamos aqui numa missão de investigação, não estamos de férias!
Mr. Pain: – Que pena! Iam com certeza gostar de…
Chorik: – Vamos ao que interessa. Onde se encontra o Pior Homem do Mundo?
Mr. Pain: – Quem?… Importa-se de repetir?… Esta cera nos ouvidos…
Chorik: – Temos a certeza que ele está aqui!
Mr. Pain: – Ele quem?
Chorik: – O Pior Homem do Mundo!
Mr. Pain: – Verifico que a polícia sabe, o que é natural, mais do que eu. Já agora, também eu gostaria de saber quem é esse Homem do Mundo Pior…
Chorik: – Pior Homem do Mundo, é assim que é conhecido.
Mr. Pain: – Se têm conhecimento que ele se encontra aqui, qual é o vosso problema?
Chorik: – Não conseguimos encontrá-lo, esse é que é o problema!
Mr. Pain: – Que chatice! Sabem que ele se encontra aqui e não o encontram. Um dilema caracteristicamente policial, de facto. Se eu puder fazer alguma coisa para vos ajudar, é só pedirem-me…
Ricardo: – Deixe de ser cínico, Mr. Pain! Você esteve presente no Sarau?
Mr. Pain: - Sim, sim, fui eu o apresentador! Adorei! Nunca tinha feito nada assim, tive de improvisar…
Ricardo: – Esteve, portanto, no palco – um lugar privilegiado para observar a sala… Notou algo de estranho em algum convidado?
Mr. Pain: – Deixe-me pensar… Hum… O RM!
Ricardo: – O RM? Que observou no RM?
Mr. Pain: – Estava muito nervoso. E ria-se assim: “Rssss. Ou melhor: Quaquaqua!”
Ricardo: – Na sua experiente opinião a que se devia esse nervosismo?
Mr. Pain: – Ele estava a ser literalmente avassalado!
Chorik: – Pelo Pior Homem do Mundo?
Mr. Pain: (levantando-se indignado) – Justos céus! Isto é uma casa séria, vejam lá o que insinuam, hein? Se quiserem que eu colabore sejam educados! Pensam que isto é a da Joana ou quê?… Exigo respeito, muito respeitinho, senão temos o caldo entornado!
Chorik: – Calma, calma, não tivemos intenção…
Mr. Pain: – Não me interessa a intenção, mas o que pretendiam que ficasse subentendido na infame insinuação que fizeram. Já me estão a irritar! E não fiquem a olhar-me com ar de parvalhões, porque não gosto! Se tornarem a ser mal-educados, já sabem, sujeitam-se às consequências. Ide ser malcriados na vossa terra!
Ricardo: Mr. Pain, creio que nos interpretou mal e…
Mr. Pain: Eu o quê?! Interpretei mal o quê, hein? Querem dizer que sou burro, que interpreto mal o que ouço? É preciso ter lata! Ouçam bem, seus polícias de meia tijela…
Chorik: – Calma, Mr. Pain… Há aqui um mal entendido…
Mr. Pain: – Mal entendido era o seu primo, seu imbecil! Mal entendido como, hã?.. Quer dizer que eu entendo mal e que…
Chorik: – Só quis dizer que…
Mr. Pain: – … Bem sei o que quis dizer ou pensa que sou alguma anta epistemológica?
Ricardo: – Calma, calma, por favor! Estávamos a falar do RM e da Avassaladora… e Mr. Pain referiu que o RM estava a ser avassalado.
Mr. Pain: – Literalmente!
Ricardo: – Que quer dizer com isso?
Mr. Pain: - Que a Ava dirigia ao RM luxuriosos olhares convidativos, sorrisos insinuantes e bombardeava-o com beijos avassaladores!
Ricardo: – E ele, o RM, amarelou?
Mr. Pain: – Não, senhor, pior do que isso! Azulou! Ficou com a cara toda azul turquesa!
Ricardo: – Não me diga!
Mr. Pain: – Não digo?.. Que polícia é você?… Então não foi você quem perguntou?
Ricardo: – Sim, sim, era uma força de expressão… Como explica essa alteração na coloração da pele facial no RM?
Mr. Pain: – Na minha modesta explicação, tal reacção devia-se à presença de outra convidada. O Senhor RM, sentia-se incomodado, como que no meio de dois exércitos de um campo de batalha…
Chorik: - Pode nos informar quem era essa convidada?
Mr. Pain: - Obviamente! Era a canhoteira.
Ricardo: – Quem diabo é a canhoteira?
Mr. Pain: – “Quem diabo”?… “Quem diabo”?!… Se pensa que pode ofender os convidados do Priorado, está muito enganado, Intendente! Diabo é o Ciro Gomes! Ou pelo menos, é caloteiro! Muito diferente de canhoteiro!…
Ricardo: – Desculpe! Só pretendia conhecer o nome da canhoteira.
Mr. Pain: – É uma dama muito culta e muito inteligente. Chama-se Cora. Ainda há dias, e digo-o com vaidade, ofereceu-me um vídeo do Youtube chamado “I Try”. Querem ouvir?…
Ricardo: - Em outra altura teremos todo o gosto de ouvir! Que mais observou de estranho na noite do sarau?
Mr. Pain: – O MR tinha um ar longínquo, como se estivesse a pensar apaixonadamente em algo muito distante…
Chorik: – Muito distante? Longínquo?… Em que é que ele estaria a pensar, no seu entendimento Mr. Pain?
Mr. Pain: - Não tenho a certeza, claro! Embora ele falasse muito no México e em mexicanos, creio que os seus pensamentos estavam na Áustria!
Chorik: – Na Áustria? Porquê na Áustria?
Mr. Pain: – Descobriram lá uma vagina, perdão, uma escultura com xoxota datada de há 26 mil anos atrás!
Ricardo: – Realmente eram pensamentos longínquos! E o senhor MR gosta dessas coisas tão antigas?
Mr. Pain: No que respeita a esse assunto o senhor MR gosta de todas, incluindo as de vinte e seis anos. É um eminente xoxotólogo, reconhecido internacionalmente!
Chorik: – Não havia na sala um homem que falava num caderno com um número estranho?
Mr. Pain: – O Geraldo! Não se metam com o Geraldo, hein?..
Chorik: – Por que não?
Mr. Pain: – Porque eu não quero e ponto final!
Ricardo: – Pretende condicionar a acção policial, Mr. Pain?
Mr. Pain: – Só pretendo avisar-vos e quem vos avisa vosso amigo é! Tenho a certeza que o senhor Geraldo não vos quer ver nem pintados, portanto…
Ricardo: – Deixemos o senhor Geraldo! Que mais de estranho observou no sarau?
Mr. Pain: – Bem, achei na globalidade as conversas algo desconexas, algumas pessoas até pareciam não ter sentido naquilo que diziam…
Ricardo: – Como se as pessoas estivessem embriagadas ou drogadas?…
Mr. Pain: – Exactamente! Pareciam que falavam de coisas diferentes e, contudo, entendiam-se.
Chorik: – Concentremo-nos em Mr. Almost…
Mr. Pain: – Quer que feche os olhos para me concentrar melhor?
Ricardo: – Não seja impertinente, Mr. Pain. Como se comportou Mr. Almost durante o sarau?…
Mr. Pain: – Prometem que aquilo que eu disser fica entre nós?
Ricardo e Chorik: Prometemos!
Mr. Pain: – Juram pela alma dos vossos antepassados?
Ricardo e Chorik: – Juramos!
Mr. Pain: – Então batam com a mão direita aberta um no outro e digam cinco!
Ricardo e Chorik (batendo as mãos): – Cinco!
Mr. Pain: – Mr. Almost passou a noite com um olho no peixe e outro no gato!
Ricardo e Chorik: – Não entendemos!
Mr. Pain: – Que tansos que vocês me saíram! Mr. Almost passou a noite com um olho numa convidada e outro olho em outra!
Chorik: – Mr. Almost é vesgo?
Mr. Pain: – Quando é preciso!
Ricardo: – E que convidadas eram essas?
Mr. Pain: – Lamento, mas não posso depor sobre assuntos do foro privado de cada um. O Priorado sempre primou pela sua discrição…
Ricardo: – A polícia também, Mr. Pain. Temos até um código de conduta que garante sigilo absoluto…
Mr. Pain: – Não insista, Intendente. Serei uma múmia a esse respeito.
Chorik: – Lembramos que o senhor está a ser interrogado, Mr. Pain!
Mr. Pain: – E daí? Vão torturar-me, vão? Ahahahaha!…
Chorik: – Podemos detê-lo e conduzi-lo à prisão.
Mr. Pain: – Perdão! Há aqui um equívoco!
Ricardo: – Um equívoco?… Que equívoco?
Mr. Pain: – Vocês ainda não perceberam que são reféns do Priorado?
Ricardo: – Reféns?
Mr. Pain: – Sim, sim, reféns! Se tentarem sair serão eliminados!
Chorik: – Ai a minha rica mulher! Ai os meus ricos filhos!
Ricardo (Ligando o celular): Está a falar a sério? Alô Central… Alô Posto 2? Alô?!!!…
Mr. Pain: – Dois e dois?
Ricardo: – Quatro! Ninguém responde, fomos isolados!
Mr. Pain: – Os nossos homens já anularam o perímetro policial. Todos os policiais estão sob nosso controlo.
Ricardo: – Todos?
Mr. Pain: – Todos!
Chorik: – Ricardo, acho que ele está a falar sério.
Mr. Pain: Mr. Almost pretende interrogar os senhores Intendentes.
Ricardo e Chorik: Nós vamos ser interrogados?
Mr. Pain: – Sim, por Mr. Almost.
Ricardo: – Essa é boa!
Chorik: – A polícia a ser interrogada? Que vem a ser isto?!!
Mr. Pain: – É simples: a caça voltou-se contra o caçador.
Ricardo: - Isto não pode estar a acontecer! Ainda não acredito…
Mr. Pain: – Acredite se quiser. E advirto-os que o Pior Homem do Mundo esteve todo este tempo a escutar-vos. Temos microfones espalhados estrategicamente na sala.
Chorik: – O Pior Homem do Mundo?! Afinal ele sempre está aqui.
Ricardo: – E escutou tudo!
Mr. Pain: – Claro! E não está muito satisfeito com a vossa atitude…
Chorik: – É verdade que ele é verde?
Mr. Pain: É um marciano… E um bocadito maquiavélico… Enquanto Mr. Almost não chega, tive a lembrança de proporcionar-vos um filme, através do qual poderão conhecer-me melhor e aproveitar o tempo de espera. Tomem apontamentos e se cuidem!