Era Uma Vez Uma Acta dos Anjos dos Céus…

 

 

 

 

 Aos vinte e nove de Janeiro de 2010, perante Nós, os Anjos dos Céus, compareceu publicamente: Mara Fortuna, brasileira, alegre e solta, mulher doce, sorridente e maravilhosa, e por nossa interpelação declarou: que nada parece mais morto que a clematite no Inverno e que, contudo, quando os ventos da Primavera acariciam os jardins, irrompem longos dedos verdes dos galhos quebradiços, buscando um qualquer sítio onde possa renascer para a vida; que já durante a sua passagem pelo planeta Terra, preferia os locais quentes e iluminados, abençoados por Deus e pela Natureza; que os ciclos naturais de declínio e ressurgimento, de treva e de luz, de morte e de vida, são iguais às esperanças dos servos de se libertarem da servidão, como os pacientes da doença, como os oprimidos da opressão, como os pobres da pobreza, como os tristes da tristeza; que não receia a justiça derradeira e que, ao contrário, sente o desejo, a ânsia e aspira por ela; que, mesmo no último momento, não se escondeu nem se esquivou da morte porque sempre pressentiu que Nós, os Anjos dos Céus, a esperávamos para tê-la connosco no nosso reino, que a acolheríamos no nosso seio e que lhe daríamos eternamente o nosso amor. E, Nós, os Anjos dos Céus, abrimos-lhe as portas, e pronunciamos em nome de Deus que Mara Fortuna, brasileira, leve e solta, mulher doce, sorridente e maravilhosa, é a partir de hoje uma de Nós, um Anjo dos Céus, por isso que lavramos a presente acta que Deus assinou beijando Mara Fortuna na fronte com o Seu amor eterno, após o que a levou abraçada a Ele para lhe entregar a luz verdadeira com que Ela, como a clematite na Primavera, renascerá para a vida.  

Era Uma Vez Os Conselhos do Pior H. do Mundo…

Logo pela manhã Mr. Almost solicitou-me a autorização para realizar no Priorado uma festinha dedicada às gurias. Eu autorizei-o, com a condição de que a festa seja lusa e elegante.

A entrada é livre, mas deixo alguns conselhos às gurias: escolham as vossas melhores roupinhas e uma lingerie a condizer com o evento: com Mr. Almost a organizar uma festa lusa e elegante, uma festa lusa e elegante pode facilmente descambar na maior das putarias, com o bacalhau português a ser substituído por hot-dogs americanos; pelo sim, pelo não, façam a depilação e tomem um banhito antes de vir; previnam-se com pílulas, porque sucede com alguma frequência não haver tempo suficiente para colocar camisinhas; deitem muita comida ao gato antes de sair de casa já que a festa pode ser longa; e abram as vossas mentes, para que elas depois não fiquem em contradição com os sensíveis buraquitos dos vossos lindos corpinhos.

Estão todas convidadas, mas se alguma de vocês não desejar participar pode manifestá-lo na secção dos comentários.

Providenciei que fossem tomadas medidas para os guris poderem vir também: elas sem eles têm tendência a conversar em compras, em modas, em cabeleireiros, em decoração, em maridos, filhos e sobrinhos, e tornam-se entediantes.

Muito obrigado pela vossa atenção.

Agora, desculpem-me: preciso ir ali ao lado espreitar na câmara de vigilância os ensaios de Mr. Almost, a quem já ouço cantar com a libido fervilhando entusiasta e numa efusividade suspeita…

Era Uma Vez Uma Ficha Técnica…

Era Uma Vez Um Teatro Mágico – Ficha Técnica 

ESTRELAS PRINCIPAIS:

Luna - 0

 

A Chapeuzinho Vermelho… Starring by … Luna Sanchez !

( http://palavrasdeluna.blogspot.com )

Mr. Almost

 

O Lobo Mau … Starring by …  Mr. Almost! 

( http://onceatime.wordpress.com )

Eliana Mara

 

A Vovozinha… Starring by … Eliana Mara!

( http://inscricoessempreabertas.blogspot.com )

Mr. Pain

 

Mr. Charles Pain… Starring by … Himself! 

( domiciliado em: http://onceatime.wordpress.com )

ARTISTAS CONVIDADOS:

RM

 

R.M. … perfomed by … Roney de cor rosinha… Rsss!

http://erreeme.blogspot.com )

  MR

 M.R. … performed by … Decanão Marcos Rocha

( http://planogeral-marcosrocha.blogspot.com )

Mitti

 

Mitti … performed by… Mitti Biquinho!

( http://blogdamitti.blogspot.com )

.Amélie

Amèlie … performed by … A Conotativa da Hospedaria

( http://by-lostintranslation.blogspot.com )

YaYa

Yaya… perfomed by … Yasmin!

(domiciliada at: http://by-lostintranslation.blogspot.com )

Andreinha

 

Déia / Andrea … performed by … A guria do grandão!

(http://depoisdodiva.blogspot.com )

Ava

 

Ava(ssaladora) … performed by … Herself!

( http://avassaladora-minhasvidas.blogspot.com )

Cibelle

 

Cibelle … performed by… Cibelle!

( http://cibelleborilo.blogspot.com )

DoceEssência

 

Doce Essência … perfomed by … Doce, Essencialmente!

( http://docessencia.blogspot.com )

Erika Ferro

 

Erika Ferro… performed by … Erika!

( http://ericaferro.blogspot.com )

.Félix

Félix… perfomed by … Yuri Félix Araújo!

(http://poesiadofelix.blogspot.com )

 

MUP

 

Miss Universo Próprio… performed by… MISS…UP!

( http://missuniversoproprio.blogspot.com )

Sílvia Gonçalves

 

Sílvia Gonçalves … performed by … Sílvia Gonçalves!

( http://pensamentosdasil.blogspot.com )

UDI

 

Udi … performed by … Madame Udi Tarora!

( http://prozacafe.blogspot.com )

Silvania

 

Silvania… performed by … herself, Silvania!

( http://relatosdeumaquasenoiva.blogspot.com )

 

O Pior Homem do Mundo, em nome do Priorado agradece a contribuição de todos os actores e a sua brilhante participação e profissionalismo exemplar. Obrigado! Um destes dias, que não sei qual é, enviarei os vossos “cachets”,  ok?… Rsss…

Era Uma Vez Um Teatro Mágico (II)

Luna

ACTO III

(Na sala os espectadores aguardam a subida do pano negro no qual há uma tarja que diz “… Uma Semana Depois…”. Quando o pano sobe descobrem o palco envolto em trevas, quase em absoluta obscuridade. Ainda assim, há uma luz ténue em forma de lua deixando perceptível que o cenário foi mudado: em vez de um bosque há agora um restaurante temático, evocativo de histórias infantis. Percebe-se também que há diversas figuras em palco, completamente estáticas.

Os feixes de um projector colocado do lado oposto ao do palco esbarram numa tela existente no fundo do cenário, descobrindo fumos brancos emergindo do chão do palco que, criando uma névoa, esbatem os figurantes estáticos: mas já se percebe que os figurantes que estão de pé são conhecidas personagens dos contos infantis: entre outros, vê-se o príncipe encantado e a bela adormecida, o Shrek e a Fiona, a Branca de Neve e os sete anões, a Cinderela e a Madrasta; há duas mesas ocupadas: numa delas estão sentados Mr. Almost e a Chapeuzinho Vermelho e na outra encontra-se a Vovozinha. Na tela é passado um filme musical e os tons da película espelham-se nos rostos dos actores e dos espectadores.

À medida que o filme vai passando os espectadores franzem os sobrolhos e interrogam-se com olhares que reflectem o paradoxo que sentem: o que se lhes afigura no palco é ininteligível, incompreensível – as figuras de contos infantis estranhamente inertes, petrificadas, de semblantes inexpressivos, hipnotizadas pela música e pelas palavras carregadas de um drama que contradiz a essência infantil dos personagens.

Assim que o filme termina, as luzes do palco acendem-se lentamente e só então os personagens ganham vida: os sete anões, representados por crianças, colocam nas mesas pratos de framboesas com chantilly, o Shrek faz de barman limpando copos com um toalhete branco, a Fiona e a Madrasta colocam um biombo de bambu no lado direito do restaurante, a Bela Adormecida apresenta o menu à Chapeuzinho Vermelho, o Príncipe Encantado serve vinhos e águas, a Branca de Neve, enfarinhada, dispõe bolos e frutas sobre uma mesa de sobremesas.  O cenário ganha vida e cor. Mr. Almost e a Chapeuzinho Vermelho olham-se, sorriem, tocam-se nas mãos, e, ocasionalmente, beijam-se apaixonadamente…

(Na plateia…)

RM:- Bravo!

RM: – Este é o velho portuga quando não tem piripaques.

Andrea: – Que loucura! Rsssssss… Fantástico!

Miss Universo Próprio: – Luna! Nooooooooooossa!!! Ótimo ótimo, estou seguindo, viu?

(No palco…)

Vovozinha: (sentada sozinha na mesa): – Ohohoh! Ohohoh! Ohohoh!

Chapeuzinho (olhando-a ao longe e falando com Mr. Almost): Vovozinha está nos espiando!

Vovozinha: (mordendo três framboesas): – Ohohoh! Ohohoh! Ohohoh! Delíciaaaa!

Mr. Almost: – Chapeuzinho, sua vovozinha está bem? Me parece esquisita…

Chapeuzinho: – Vovozinha está fingindo que parou aqui casualmente para jantar! E está sendo irónica comigo porque eu fugi com você e não lhe levei os bolinhos. Tá me xingando!

Vovozinha (com uma colher de chantilly na boca): – Ohohoh! Ohohoh! Ohohoh! Que maravilha!

Mr. Almost: – Entendo…

Mr. Pain comendo o caldinho

(Mr. Pain sai debaixo da mesa da Vovozinha com o bigode todo lambuzado. Do  palco e da plateia, todos olham-no com surpresa…)

Todos (em uníssono): – Mr. Pain!

Mr. Pain: – Boa noite meus senhores e minhas senhoras! Não é o que vos possa parecer…

Vovozinha: – Volta para debaixo da mesa, palhaço!

Mr. Pain: – Na verdade, eu posso explicar…

Vovozinha: – Quer me entregar, seu Charlot de meia tigela? Explica coisa nenhuma!

Mr. Pain: – Mas… Vovozinha…

Vovozinha: – Mas nada!…  Volta  de novo para debaixo da mesa!

Mr. Pain: – Só mais um bocadinho, tá Vovozinha?

Todos (em uníssono): – Mr. Pain!

Mr. Pain: – Damas e cavalheiros, agora não posso me explicar! Tenho de me esconder de novo! As minhas sinceras desculpas…

Vovozinha: – Deixa de conversa fiada e vem… Seu lenhador gostoso, vem de novo para debaixo da mesa! Agora!

Mr. Almost: – Mr. Pain é o lenhador?!

Chapeuzinho: – Ahahahahaha! Essa minha vovozinha! Mr. Pain virou freguês!

(Mr. Pain esconde-se debaixo da mesa e momentos depois Vovozinha suspira de satisfação…)

Vovozinha: – Ohhhhhhhh! Que restaurante bom! Estas framboesas… Ohhhhhhhhh!…

(Na Plateia…)

RM: – (gritando para o palco): – Portuga, você é amigo daquele com bigodón à Hitler? tsc tsc…

Andrea: – Fui lendo a expressão da Vovozinha e imaginando rsrsrsrsrs.

Miss Universo Próprio: – Consegui visualizar toda a cena! kkkkk

RM: - Putz, a Luna não exagerou quando falou que as coisas estavam esquentando por aqui…

(No palco…)

Luna framboesas

Chapeuzinho Vermelho (afastando a taça das framboesas na mesa): – Prefiro comer chocolate com menta. Me acompanha?

Mr. Almost: – Sim, uma porção e dois talheres… Mas, sabe Chapeuzinho, tenho a impressão que todo este público que veio hoje ao Teatro não veio para ficar nos observando a comer chocolate…

Chapeuzinho Vermelho: – Não?!…

Mr. Almost: – Claro que não. Estes xereteiros querem nos ver, well, como dizer… Slupar.

Chapeuzinho Vermelho: – Ahahahahaha! Continue a sua ideia, tô gostando… 

Mr. Almost: – Tá vendo aquele biombo ali do lado direito?… Você se levanta e sai da mesa como se fosse ao banheiro, mas se esconde atrás do biombo. Depois eu vou lá ter contigo…

Chapeuzinho Vermelho: – Vamos slupar lá? Obaaa!…

Mr. Almost: – A fingir, é claro! Vamos enganar o público, criar a ilusão que estamos slupando… Combinado?

Chapeuzinho Vermelho: – Ahahahaha! Que bela ilusão da vida! Gostei disso!

(Chapeuzinho levanta-se e caminha em direcção ao banheiro; a meio do caminho, esgueira-se para trás do biombo; Mr. Almost imita-a quase logo de seguida. Momentos depois, escutam-se sons vindos de detrás do biombo:)

Mr. Almost: – Slup! Slup! Slup! Slup!

Chapeuzinho Vermelho: – Aiiiiii! Aiiiiii! Me slupa toda seu Lobo Mau! Aiiii!…

Mr. Almost: – Vou te slupar e morder! Slup slup slup! Cráu, cráu, cráu!

Chapeuzinho Vermelho: – Me morde, me morde! Não pára! Aiiiiiiiiiiiii!… Malvado!

Mr. Almost: – Vou te slupar, morder e comer! Slup, slup, slup! Cráu, craú! Chloc! Chloc! Chloc!

Chapeuzinho Vermelho: – Uia, você está me comendo de verdade! Aiiiii! Aiiii! Aiiii! Isso, se esfrega em mim! Aiiii! Aiiiiii!…

Mr. Almost: – É para a cena parecer mais realista, honey! Chloc, chloc, chloc, chloc…

Chapeuzinho Vermelho: -  Ahhhhh! Está esquentando, está esquentando! Continua querido lobinho! Você está me torrando em manteiga! Aiiiiiiiii!… Aiiiii!…

Mr. Almost: – É normal acontecer assim, não se preocupe… Chloc, slup, chloc, slup, chloc…

Chapeuzinho Vermelho: – Aiiiiiii, nunca gozei assim! Faz mais, faz mais! Uiaaaaaaaa!… Tá funcionando…  sim, sim… funcionando! Parece pirotécnia! Huuuummmmm!

Mr. Almost: – Chloc, chloc, cholc… Aaaaauuuuuuu! Aaaaaauuuuuu! Aaaaauuuuuuuuu!

Chapeuzinho Vermelho: - Pack up; I’m straight; Enough;

Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say

Será que a sorte virá num realejo?
Trazendo o pão da manhã
A faca e o queijo
Ou talvez… um beijo teu
Que me empreste a alegria… que me faça juntar
Todo resto do dia… meu café, meu jantar
Meu mundo inteiro…
que é tão fácil de enxergar… E chegar
Nenhum medo que possa enfrentar
Nem segredo que possa contar…

 Wait, they don’t love you like I love you; wait, they don’t love you like I love you;

Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim , me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Ma-a-a-a-a-a-a-a-a-aps;
Wait! They don’t love you like I love you…..
Cielo por tu luz
Por esa caricia
Yo sería capaz de rendir mi ser
Ya no tiene caso
Mirar hacia otro lado
Todo lo que espero lo encuentro en ti
El cielo en tu mirada
Cada madrugada
Es adonde pierdo mi confusion
Y cuando estas ausente
Te abrazo a mi mente
Cielo para sobrevivir
Mr. Almost: - Honey, você está confundindo as músicas!
Chapeuzinho Vermelho: Tô?… Adorei! Aiiiii! Que bom, que bom! 
 
(Momentos depois…)

Chapeuzinho Vermelho: – Será que eles vão descobrir que fizemos como os rouxinóis e os urubus fazem?

Mr. Almost: – Não sei… Coloca uma mão fora do biombo e espeta o dedo médio para o público… Vão pensar que é gozação…

Chapéuzinho Vermelho (com o dedo espetado para o público por cima do biombo): – Ahahahaha! É gozação, gente boa e linda!

(Na plateia:)

RM (acotovelando MR) – O Portuga!

Marcos Rocha: – Não disse que ia parar de xeretar, mineirim? Rs rs rs…

RM: – “Agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz”…

Avassaladora: – Um bicho feroz! Nunca se sabe quem está atrás do biombo!

Amèlie (gritando para a Yaya) : – O sacaninha!

Yaya: – O canastrão!

Miss Universo Próprio: – Minha amiga Luna é atriz e eu nem sabia! Que surpresa boa que tive!

Andrea: – Adorrreeiiiii!

(As luzes sobre o palco apagam-se lentamente e o pano começa a descer. Uns espectadores aplaudem, outros assobiam. Quando o pano fecha completamente o palco, vê-se que tem uma tela onde é projectado um clip musical com o restaurante vazio e as cadeiras empilhadas:)

(Todos abandonaram ordeiramente a sala do teatro e a música já terminou. Agora, só há escuridão e um silêncio quebrado por uma voz:)

Mr. Pain:- Vovozinha, já posso sair debaixo da mesa?

Vovozinha: – Nem pensar! Continua o que estava fazendo! Ohohoh! Ohohoh! Deixa de ser criança, faz-te um homem, monsieur!

Mr. Pain:- O teatro ainda não acabou?!

Vovozinha: – Você é que ainda não acabou! Toma mais caldinho, toma! Faz-te crescer!

Mr. Pain:- Quando acabar o teatro me avisa, tá?…

Vovozinha:- Está bem! Ohoho! Ohoho! Ohoho!… Esta juventude não sabe ser recatada, faz tudo às claras e a plena luz do dia…

Mr. Pain:- Vovozinha, posso fazer uma paradinha?

Vovozinha: – Não Senhor! Não pode deixar arrefecer o caldinho! Continua!

(… Fora do Teatro, o ambiente era apoteótico:)

FIM!

Era Uma Vez Um Teatro Mágico…

Mr Almost e Luna

ACTO I

[O tecto da sala de espectáculos do Teatro é uma magnífica abóbada de cruzaria sexpartida que permite uma disposição da plateia, dos balcões, das frisas e dos camarotes com excelente perspectiva do palco. A sala, deslumbrante em talhas e cornucópias de ouro,  está repleta de espectadores acomodando-se, envoltos num rumor de cumprimentos que logo se dispersa na troca de sorrisos e de olhares perscrutadores. As pancadas que homenageiam Moliere anunciam o subir do pano negro que escondia até então o palco: no centro, em diagonal e ligeiramente curvilínea há uma estrada em terra castanha ladeada por vegetação densa que se perde no fundo do cenário, representando um bosque; no lado direito há uma árvore centenária cujos ramos, fazendo arcádia sobre a estrada, servem de travessia aos esquilos e de poiso aos mochos; junto ao tronco da árvore, três crianças vestidas de bailarinas - coelhinhos brancos brincam despreocupadamente.   

A Chapeuzinho Vermelho surge caminhando para a casa da vovozinha e leva no regaço um cestinho de doces. A tarde estava bonita e a temperatura era amena, do jeito que mais a agradava. Ela parecia caminhar displicentemente, mas, no fundo, estava atenta a todos os movimentos. Porém, só encontrou alguns esquilos entre as folhas e, desolada, resolveu sentar-se à sombra de uma árvore e comer uma das guloseimas, já que trazia, também no cestinho, muitos e muitos guardanapos, que a impediriam de ficar lambuzada de chantilly. Afinal, não havia, a princípio, motivo algum que justificasse tal lambuzo. (Ou havia?)]

(Na plateia…)

Mitti: – Olhem gente, é a Luna!

Silvania: – Menina, quanta coisa nessa cachola, hein?

Cibelle (acenando para o palco): – Ei, Luna, estou aqui! Tem lá um selinho no meu blog! Admiro você!

Mitti (acenando também): – Menina, faz uma doação de neurónio pra minha pessoa?

Félix: – É… E a Luna também faz blogs mágicos assim com textos encantados.

Doce Essência: – Miga! Tô de volta no msn… Rs

Erica Ferro: – Luna, tu és fantástica!

Miss Univérsio Próprio: – Você é demais, menina! Adoro, sabia?

Silvia Gonçalves: – As mulheres independentes estão na moda… e a homarada odeia!!. Rs…

Dani: – Luninha, quero que tu saibas: tenho maior orgulho de ter tua amizade, viu?

RM: – Ei Luna, não posso revelar a fonte, mas uma conhecida blogueira me falou, em off…

Udi: – E sabe de quem eu mais gosto? Da Chapeuzinho!..

Chapeuzinho vermelho (do palco para a plateia): - Shiuuu, migos, assistam calados! Rs…

Shiuu

[Uma melodia (Ouça aqui) se fez ouvir com o som de guitarras electricas que se misturam logo com o das baterias… As crianças bailarinas deram as mãos entre si e fazem agora, animadamente, rodinha de carrocel. Chapeuzinho Vermelho saboreou o doce de-mo-ra-da-men-te, demonstrando satisfação em devorá-lo, não só através dos olhos, que chegaram a fechar, mas também pelo “Hummmmmmmmmm”  que soltou. Após isso, foi procurar o Lobo Mau por detrás dos arbustos da floresta, enquanto cantava:

Pack up;
I’m straight;
Enough;

Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say

Wait, they don’t love you like I love you; wait, they don’t love you like I love you;
Ma-a-a-a-a-a-a-a-a-aps;
Wait! They don’t love you like I love you.....

(Logo que a música terminou ouviu-se o roncar do motor de um veículo que se aproximava; Chapeuzinho Vermelho ainda lambia os dedos quando o motoboy parou ao lado dela...)

Motoboy: - Olá, honey só! Como te chamas, hein, baby?

Luna: - Cai fora, seu motoboy! Tenho um encontro com o Lobo Mau, não vem estorvar!.. Shôooo!

Motoboy:- Ué, não vais me dizeres nem o teu nome, nininha?

Luna:- Chamo-me Chapeuzinho Vermelho.

Motoboy: - Que nome mais lindo!... Mas tens a ponta do nariz lambuzada de chantilly, estiveste a comer guloseimas, honey?

Chapeuzinho Vermelho (limpando o nariz com as costas das mãos): - Estive. Que é que você tem a ver com isso, hein?

Motoboy: - Eu?... Well,  “com isso” o quê, com o chantily?...  Auuuuuuuu!

Chapeuzinho Vermelho (abrindo muito os olhos de surpresa e com interesse): - Que é que você falou?! “Auuuuuuuu!”?! Como você se chama, hein?

Motoboy: - Chamo-me Mr. Almost. E não falei “Auuuuuuuu!”, falei inglês: “Ah, you!"; você está escutando muito mal Chapeuzinho…

Chapeuzinho Vermelho: - Tô? Você acha, Mr. Almost?

Mr. Almost: - Tenho a certeza! Chegue aqui, preciso de observar as suas orelhinhas.

...Na plateia:

RM (acotovelando MR):- É o Portuga!

Marcos Rocha: - Grande Mr. Almost! Rs rs rs…

Avassaladora: - O bicho mau! O rato!

Amèlie (segredando para a Yaya): - O sacaninha!

Yaya: - Sim, qual deles, o dos puns-puns?

 (Entretanto no palco, Mr. Almost examinava as orelhas da Chapeuzinho Vermelho…)

Mr. Almost: - Txiiii! É mais grave do que inicialmente eu supunha… Este problema pode causar surdez aguda!

Chapeuzinho Vermelho: - Quê?! Que têm as minhas orelhas?

Mr. Almost:- Estão muito secas por dentro. Você odeia o calor e o Verão, não é?

Chapeuzinho Vermelho:- Ai Jesus! Sim, odeio…

Mr. Almost:- Esse ódio é um instinto, uma reacção natural, um espírito de sobrevivência, Chapeuzinho! A situação é crítica, você precisa de humidade nas orelhas imediatamente.

Chapeuzinho Vermelho:- Você pode me ajudar, Mr. Almost? Me ajude!

Mr. Almost:- Está bem! Com a minha  língua húmida vou banhar suas orelhas… Slup, slup, slup

Chapeuzinho Vermelho:- Estou sentindo calor nas faces e sensação de frio nas costas e na barriga…

Mr. Almost:- É normal, minha linda: você está com o pescoço muito tenso. Não se preocupe, vou relaxar também o seu pescoço com a minha língua… Slup, slup, slup

Chapeuzinho vermelho:-  Ai, não está resultando. E se você me desse umas dentadinhas, Mr. Almost?

Mr. Almost:- Boa ideia, Chapeuzinho! Cráu, cráu, cráu!

Chapeuzinho Vermelho:- Uia! Tô perdendo as forças, me pegue ao seu colo, calmeirão!

Mr. Almost (pegando a Chapauzinho no colo):- Vou te deitar ali no bosque à sombra!

Chapeuzinho Vermelho:- Leve-me, sim! E deite-me num local bem escondidinho, Mr. Almost! Ai, aiiiiii… Depressa, por favor, o meu coração está ficando acelerado e tenho tremuras e ardências! E muita falta de ar!

Mr. Almost (embrenhando-se no bosque):- Txiiii! Respira fundo, respira fundo!...  Você está precisando de respiração boca a boca!.. Ai, como você fica linda assim, com falta de ar...

Chapeuzinho Vermelho: - Desaperte a minha blusa, motoboy! Tô sufocando...

Mr. Almost (desapertando-lhe a blusa): - Grrrr! Caraca! Que lindos pulmões! E muito inchados do calor! Vou apertar e lamber para eles não incharem mais, tá?... Slup slup Slup!...  

Chapeuzinho Vermelho: - Leva-me para um lugar refrescante! E vamos de moto para chegarmos mais rápido!

Mr. Almost (voltando para trás com a Chapeuzinho ao colo): - Sim, boa ideia! Vamos!  Agarre-se em mim, com muita força para não cair.

Chapeuzinho Vermelho:- Yeah! Vambora, rápido! Aii...

Mr. Almost: - Não se preocupe, Chapeuzinho: haja o que houver você está comigo!

(A música dos Madredeus (veja e oiça aqui) ecoa no Teatro e o pano cai… Os espectadores apupam veementemente o acto I, fervilhando irados e horrorizados pelo desfecho.)

ACTO II

Mr. Pain e Vovozinha

[O pano sobe lentamente… O cenário mantém-se, mas as crianças bailarinas sumiram;  a luz é mais difusa do que antes, indicando que a noite está caindo. Vovozinha vinha caminhando pesarosa pela estrada em busca da Chapeuzinho Vermelho… Pensou que seria bom descansar ali, por alguns minutos e sentou-se na berma da estrada. Uma melodia (Oiça aqui)ecoa na sala do teatro… Mr. Pain aparece ao fundo, também caminhando pela estrada, e encontra a Vovozinha muito triste sentada na berma da estrada…]

Mr. Pain (levantando o chapéu):- Boa noite, minha senhora!

Vovozinha: – Boa noite,  senhor.

Mr. Pain:- Sucedeu alguma coisa?

Vovozinha:- A minha neta Chapeuzinho Vermelho não me trouxe os bolinhos e desapareceu no bosque…

Mr. Pain: – Ah, você sabe como é a juventude de agora…  despreocupada, mas os guris acabam sempre por se virar…

Vovozinha:- Sim, mas eu estou preocupada… Muito preocupada. Li num blog que ela tinha um encontro com o Lobo Mau.

Mr. Pain:- Com o Lobo Mau?!  Ah, sim, entendo a sua preocupação…

Vovozinha:- Coitado do Lobo Mau. A chapeuzinho Vermelho é muito gulosa: ela vai comer o Lobo Mau até ele ficar tísico como um pau de virar tripas…

Mr. Pain:- Ah, sim? Surpreendente! E como ela conseguiria isso, han?

Vovozinha:- Bom… Ela costuma colocar chantilly na ponta do nariz para o Lobo Mau a localizar pelo cheiro doce; depois finge que escuta muito mal e pede-lhe ajuda. Quando o Lobo Mau a ajuda sente os cheiros de fêmea que ela tem em quantidades soberbas e, então,  ela faz com que o Lobo Mau a leve ao colo para o meio do bosque… E aí… Cráu! Estupra-o, estropia-o, faz-lhe trinta por uma linha e ele vira um boneco articulado, um peluche nas mãos dela!

Mr. Pain:- Nossa Senhora! Que Deus tenha piedade de Mr. Almost, quero dizer, do Lobo Mau!

Vovozinha: – Não sei a quem aquela garota sai… No meu tempo eu não era assim. Comia um Lobo Mau, é claro, mas não no meio dos bosques. Era mais recatada… 

Mr. Pain:- Estou certo que sim, madame.

Vovozinha:- Como é que você disse que se chamava mesmo?

Mr. Pain:- As minhas desculpas, madame, ainda não me apresentei: Monsieur Pain, um servo ao seu dispor.

Vovozinha:- Você me parece um sujeito muito respeitador. E é servil, um gentleman, como eu gosto. Ajuda-me a levantar?

Mr. Pain:- Com todo o prazer, madame!

(Mr. Pain ajuda a Vovozinha a levantar-se)

Vovozinha:- Acompanha-me a casa, cavalheiro?

Mr. Pain:- Com certeza! Tenho muito gosto em…

Vovozinha:- Por falar em gosto, tenho lá em casa um caldinho muito bom… Quer provar? Apesar da idade ainda faço uns caldinhos muito gostosos…

Mr. Pain:- Absolutamente! Sou um grande apreciador de caldinhos. E não duvido que panela usada apura muito os sabores…

Vovozinha:- Então me dê o braço, monsieur.

Mr. Pain:- E…  E a Chapeuzinho Vermelho?

Vovozinha: – Deixe pra lá, esta juventude se vira sempre.

Mr. Pain: – Com certeza… É precisamente a minha ideia.

Vovozinha:- Gosto de cavalheiros com ideias; até porque eu também tenho as minhas…

Mr. Pain:- As experiências da vida, aquilo a que os romanos chamavam o “facere”, tornam as pessoas mais sábias, mais preparadas.

Vovozinha:- Reparo que temos muito em comum, monsieur. Façamos… Como os Romanos?… Hum… Que interessante! Você acha que sexo virtual é traição?

Mr. Pain:- Nunca pensei nisso a sério… Penso que as pessoas, se puderem, devem fazer o que mais lhes agrada. O sentimento de trair liga-se à consciência de cada um e é conforme à sua identidade moral. O sexo virtual pode, em certos casos, resultar em virtuosidade para o real, se for essa a expectativa dos praticantes: sentirem-se mais sedutores, mais desejados, mais admirados, e com isso, sentirem-se melhor consigo mesmos, realizados…

Vovozinha: – Muito bem. Como diria a minha neta, faremos uma paradinha e depois prosseguiremos… até casa…

(Mr. Pain e Vovozinha caminham juntos pela estrada, conversando até desaparecerem no fundo do cenário; o pano cai ao som de uma música dos tempos idos (Oiça aqui) . Os espectadores apupam e criticam a peça:

RM: – Rssss… Eu não disse que Mr. Pain era chegado numa balzaca?

Mitti: – Indecente esse Mr. Pain!

Déia: – Sim, aquela teoria do sexo virtual é absurda! É anti-psicológica! O meu grandão não faz!

MR (segredando à Avassaladora): – E, você… Faz um caldinho pra mim também? Rs rs rs…

(TO BE CONTINUED) 

As Moscas

Este é um espaço dedicado às moscas. Não tem nada a ver com a Lenda de Orestes, nem com a peça de Sartre. Tem apenas a ver com moscas.

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