Era Uma Vez Uma Ficha Técnica…

Era Uma Vez Um Teatro Mágico – Ficha Técnica 

ESTRELAS PRINCIPAIS:

Luna - 0

 

A Chapeuzinho Vermelho… Starring by … Luna Sanchez !

( http://palavrasdeluna.blogspot.com )

Mr. Almost

 

O Lobo Mau … Starring by …  Mr. Almost! 

( http://onceatime.wordpress.com )

Eliana Mara

 

A Vovozinha… Starring by … Eliana Mara!

( http://inscricoessempreabertas.blogspot.com )

Mr. Pain

 

Mr. Charles Pain… Starring by … Himself! 

( domiciliado em: http://onceatime.wordpress.com )

ARTISTAS CONVIDADOS:

RM

 

R.M. … perfomed by … Roney de cor rosinha… Rsss!

http://erreeme.blogspot.com )

  MR

 M.R. … performed by … Decanão Marcos Rocha

( http://planogeral-marcosrocha.blogspot.com )

Mitti

 

Mitti … performed by… Mitti Biquinho!

( http://blogdamitti.blogspot.com )

.Amélie

Amèlie … performed by … A Conotativa da Hospedaria

( http://by-lostintranslation.blogspot.com )

YaYa

Yaya… perfomed by … Yasmin!

(domiciliada at: http://by-lostintranslation.blogspot.com )

Andreinha

 

Déia / Andrea … performed by … A guria do grandão!

(http://depoisdodiva.blogspot.com )

Ava

 

Ava(ssaladora) … performed by … Herself!

( http://avassaladora-minhasvidas.blogspot.com )

Cibelle

 

Cibelle … performed by… Cibelle!

( http://cibelleborilo.blogspot.com )

DoceEssência

 

Doce Essência … perfomed by … Doce, Essencialmente!

( http://docessencia.blogspot.com )

Erika Ferro

 

Erika Ferro… performed by … Erika!

( http://ericaferro.blogspot.com )

.Félix

Félix… perfomed by … Yuri Félix Araújo!

(http://poesiadofelix.blogspot.com )

 

MUP

 

Miss Universo Próprio… performed by… MISS…UP!

( http://missuniversoproprio.blogspot.com )

Sílvia Gonçalves

 

Sílvia Gonçalves … performed by … Sílvia Gonçalves!

( http://pensamentosdasil.blogspot.com )

UDI

 

Udi … performed by … Madame Udi Tarora!

( http://prozacafe.blogspot.com )

Silvania

 

Silvania… performed by … herself, Silvania!

( http://relatosdeumaquasenoiva.blogspot.com )

 

O Pior Homem do Mundo, em nome do Priorado agradece a contribuição de todos os actores e a sua brilhante participação e profissionalismo exemplar. Obrigado! Um destes dias, que não sei qual é, enviarei os vossos “cachets”,  ok?… Rsss…

Era Uma Vez Um Teatro Mágico (II)

Luna

ACTO III

(Na sala os espectadores aguardam a subida do pano negro no qual há uma tarja que diz “… Uma Semana Depois…”. Quando o pano sobe descobrem o palco envolto em trevas, quase em absoluta obscuridade. Ainda assim, há uma luz ténue em forma de lua deixando perceptível que o cenário foi mudado: em vez de um bosque há agora um restaurante temático, evocativo de histórias infantis. Percebe-se também que há diversas figuras em palco, completamente estáticas.

Os feixes de um projector colocado do lado oposto ao do palco esbarram numa tela existente no fundo do cenário, descobrindo fumos brancos emergindo do chão do palco que, criando uma névoa, esbatem os figurantes estáticos: mas já se percebe que os figurantes que estão de pé são conhecidas personagens dos contos infantis: entre outros, vê-se o príncipe encantado e a bela adormecida, o Shrek e a Fiona, a Branca de Neve e os sete anões, a Cinderela e a Madrasta; há duas mesas ocupadas: numa delas estão sentados Mr. Almost e a Chapeuzinho Vermelho e na outra encontra-se a Vovozinha. Na tela é passado um filme musical e os tons da película espelham-se nos rostos dos actores e dos espectadores.

À medida que o filme vai passando os espectadores franzem os sobrolhos e interrogam-se com olhares que reflectem o paradoxo que sentem: o que se lhes afigura no palco é ininteligível, incompreensível – as figuras de contos infantis estranhamente inertes, petrificadas, de semblantes inexpressivos, hipnotizadas pela música e pelas palavras carregadas de um drama que contradiz a essência infantil dos personagens.

Assim que o filme termina, as luzes do palco acendem-se lentamente e só então os personagens ganham vida: os sete anões, representados por crianças, colocam nas mesas pratos de framboesas com chantilly, o Shrek faz de barman limpando copos com um toalhete branco, a Fiona e a Madrasta colocam um biombo de bambu no lado direito do restaurante, a Bela Adormecida apresenta o menu à Chapeuzinho Vermelho, o Príncipe Encantado serve vinhos e águas, a Branca de Neve, enfarinhada, dispõe bolos e frutas sobre uma mesa de sobremesas.  O cenário ganha vida e cor. Mr. Almost e a Chapeuzinho Vermelho olham-se, sorriem, tocam-se nas mãos, e, ocasionalmente, beijam-se apaixonadamente…

(Na plateia…)

RM:- Bravo!

RM: – Este é o velho portuga quando não tem piripaques.

Andrea: – Que loucura! Rsssssss… Fantástico!

Miss Universo Próprio: – Luna! Nooooooooooossa!!! Ótimo ótimo, estou seguindo, viu?

(No palco…)

Vovozinha: (sentada sozinha na mesa): – Ohohoh! Ohohoh! Ohohoh!

Chapeuzinho (olhando-a ao longe e falando com Mr. Almost): Vovozinha está nos espiando!

Vovozinha: (mordendo três framboesas): – Ohohoh! Ohohoh! Ohohoh! Delíciaaaa!

Mr. Almost: – Chapeuzinho, sua vovozinha está bem? Me parece esquisita…

Chapeuzinho: – Vovozinha está fingindo que parou aqui casualmente para jantar! E está sendo irónica comigo porque eu fugi com você e não lhe levei os bolinhos. Tá me xingando!

Vovozinha (com uma colher de chantilly na boca): – Ohohoh! Ohohoh! Ohohoh! Que maravilha!

Mr. Almost: – Entendo…

Mr. Pain comendo o caldinho

(Mr. Pain sai debaixo da mesa da Vovozinha com o bigode todo lambuzado. Do  palco e da plateia, todos olham-no com surpresa…)

Todos (em uníssono): – Mr. Pain!

Mr. Pain: – Boa noite meus senhores e minhas senhoras! Não é o que vos possa parecer…

Vovozinha: – Volta para debaixo da mesa, palhaço!

Mr. Pain: – Na verdade, eu posso explicar…

Vovozinha: – Quer me entregar, seu Charlot de meia tigela? Explica coisa nenhuma!

Mr. Pain: – Mas… Vovozinha…

Vovozinha: – Mas nada!…  Volta  de novo para debaixo da mesa!

Mr. Pain: – Só mais um bocadinho, tá Vovozinha?

Todos (em uníssono): – Mr. Pain!

Mr. Pain: – Damas e cavalheiros, agora não posso me explicar! Tenho de me esconder de novo! As minhas sinceras desculpas…

Vovozinha: – Deixa de conversa fiada e vem… Seu lenhador gostoso, vem de novo para debaixo da mesa! Agora!

Mr. Almost: – Mr. Pain é o lenhador?!

Chapeuzinho: – Ahahahahaha! Essa minha vovozinha! Mr. Pain virou freguês!

(Mr. Pain esconde-se debaixo da mesa e momentos depois Vovozinha suspira de satisfação…)

Vovozinha: – Ohhhhhhhh! Que restaurante bom! Estas framboesas… Ohhhhhhhhh!…

(Na Plateia…)

RM: – (gritando para o palco): – Portuga, você é amigo daquele com bigodón à Hitler? tsc tsc…

Andrea: – Fui lendo a expressão da Vovozinha e imaginando rsrsrsrsrs.

Miss Universo Próprio: – Consegui visualizar toda a cena! kkkkk

RM: - Putz, a Luna não exagerou quando falou que as coisas estavam esquentando por aqui…

(No palco…)

Luna framboesas

Chapeuzinho Vermelho (afastando a taça das framboesas na mesa): – Prefiro comer chocolate com menta. Me acompanha?

Mr. Almost: – Sim, uma porção e dois talheres… Mas, sabe Chapeuzinho, tenho a impressão que todo este público que veio hoje ao Teatro não veio para ficar nos observando a comer chocolate…

Chapeuzinho Vermelho: – Não?!…

Mr. Almost: – Claro que não. Estes xereteiros querem nos ver, well, como dizer… Slupar.

Chapeuzinho Vermelho: – Ahahahahaha! Continue a sua ideia, tô gostando… 

Mr. Almost: – Tá vendo aquele biombo ali do lado direito?… Você se levanta e sai da mesa como se fosse ao banheiro, mas se esconde atrás do biombo. Depois eu vou lá ter contigo…

Chapeuzinho Vermelho: – Vamos slupar lá? Obaaa!…

Mr. Almost: – A fingir, é claro! Vamos enganar o público, criar a ilusão que estamos slupando… Combinado?

Chapeuzinho Vermelho: – Ahahahaha! Que bela ilusão da vida! Gostei disso!

(Chapeuzinho levanta-se e caminha em direcção ao banheiro; a meio do caminho, esgueira-se para trás do biombo; Mr. Almost imita-a quase logo de seguida. Momentos depois, escutam-se sons vindos de detrás do biombo:)

Mr. Almost: – Slup! Slup! Slup! Slup!

Chapeuzinho Vermelho: – Aiiiiii! Aiiiiii! Me slupa toda seu Lobo Mau! Aiiii!…

Mr. Almost: – Vou te slupar e morder! Slup slup slup! Cráu, cráu, cráu!

Chapeuzinho Vermelho: – Me morde, me morde! Não pára! Aiiiiiiiiiiiii!… Malvado!

Mr. Almost: – Vou te slupar, morder e comer! Slup, slup, slup! Cráu, craú! Chloc! Chloc! Chloc!

Chapeuzinho Vermelho: – Uia, você está me comendo de verdade! Aiiiii! Aiiii! Aiiii! Isso, se esfrega em mim! Aiiii! Aiiiiii!…

Mr. Almost: – É para a cena parecer mais realista, honey! Chloc, chloc, chloc, chloc…

Chapeuzinho Vermelho: -  Ahhhhh! Está esquentando, está esquentando! Continua querido lobinho! Você está me torrando em manteiga! Aiiiiiiiii!… Aiiiii!…

Mr. Almost: – É normal acontecer assim, não se preocupe… Chloc, slup, chloc, slup, chloc…

Chapeuzinho Vermelho: – Aiiiiiii, nunca gozei assim! Faz mais, faz mais! Uiaaaaaaaa!… Tá funcionando…  sim, sim… funcionando! Parece pirotécnia! Huuuummmmm!

Mr. Almost: – Chloc, chloc, cholc… Aaaaauuuuuuu! Aaaaaauuuuuu! Aaaaauuuuuuuuu!

Chapeuzinho Vermelho: - Pack up; I’m straight; Enough;

Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say

Será que a sorte virá num realejo?
Trazendo o pão da manhã
A faca e o queijo
Ou talvez… um beijo teu
Que me empreste a alegria… que me faça juntar
Todo resto do dia… meu café, meu jantar
Meu mundo inteiro…
que é tão fácil de enxergar… E chegar
Nenhum medo que possa enfrentar
Nem segredo que possa contar…

 Wait, they don’t love you like I love you; wait, they don’t love you like I love you;

Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim , me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Ma-a-a-a-a-a-a-a-a-aps;
Wait! They don’t love you like I love you…..
Cielo por tu luz
Por esa caricia
Yo sería capaz de rendir mi ser
Ya no tiene caso
Mirar hacia otro lado
Todo lo que espero lo encuentro en ti
El cielo en tu mirada
Cada madrugada
Es adonde pierdo mi confusion
Y cuando estas ausente
Te abrazo a mi mente
Cielo para sobrevivir
Mr. Almost: - Honey, você está confundindo as músicas!
Chapeuzinho Vermelho: Tô?… Adorei! Aiiiii! Que bom, que bom! 
 
(Momentos depois…)

Chapeuzinho Vermelho: – Será que eles vão descobrir que fizemos como os rouxinóis e os urubus fazem?

Mr. Almost: – Não sei… Coloca uma mão fora do biombo e espeta o dedo médio para o público… Vão pensar que é gozação…

Chapéuzinho Vermelho (com o dedo espetado para o público por cima do biombo): – Ahahahaha! É gozação, gente boa e linda!

(Na plateia:)

RM (acotovelando MR) – O Portuga!

Marcos Rocha: – Não disse que ia parar de xeretar, mineirim? Rs rs rs…

RM: – “Agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz”…

Avassaladora: – Um bicho feroz! Nunca se sabe quem está atrás do biombo!

Amèlie (gritando para a Yaya) : – O sacaninha!

Yaya: – O canastrão!

Miss Universo Próprio: – Minha amiga Luna é atriz e eu nem sabia! Que surpresa boa que tive!

Andrea: – Adorrreeiiiii!

(As luzes sobre o palco apagam-se lentamente e o pano começa a descer. Uns espectadores aplaudem, outros assobiam. Quando o pano fecha completamente o palco, vê-se que tem uma tela onde é projectado um clip musical com o restaurante vazio e as cadeiras empilhadas:)

(Todos abandonaram ordeiramente a sala do teatro e a música já terminou. Agora, só há escuridão e um silêncio quebrado por uma voz:)

Mr. Pain:- Vovozinha, já posso sair debaixo da mesa?

Vovozinha: – Nem pensar! Continua o que estava fazendo! Ohohoh! Ohohoh! Deixa de ser criança, faz-te um homem, monsieur!

Mr. Pain:- O teatro ainda não acabou?!

Vovozinha: – Você é que ainda não acabou! Toma mais caldinho, toma! Faz-te crescer!

Mr. Pain:- Quando acabar o teatro me avisa, tá?…

Vovozinha:- Está bem! Ohoho! Ohoho! Ohoho!… Esta juventude não sabe ser recatada, faz tudo às claras e a plena luz do dia…

Mr. Pain:- Vovozinha, posso fazer uma paradinha?

Vovozinha: – Não Senhor! Não pode deixar arrefecer o caldinho! Continua!

(… Fora do Teatro, o ambiente era apoteótico:)

FIM!

Era Uma Vez Um Teatro Mágico…

Mr Almost e Luna

ACTO I

[O tecto da sala de espectáculos do Teatro é uma magnífica abóbada de cruzaria sexpartida que permite uma disposição da plateia, dos balcões, das frisas e dos camarotes com excelente perspectiva do palco. A sala, deslumbrante em talhas e cornucópias de ouro,  está repleta de espectadores acomodando-se, envoltos num rumor de cumprimentos que logo se dispersa na troca de sorrisos e de olhares perscrutadores. As pancadas que homenageiam Moliere anunciam o subir do pano negro que escondia até então o palco: no centro, em diagonal e ligeiramente curvilínea há uma estrada em terra castanha ladeada por vegetação densa que se perde no fundo do cenário, representando um bosque; no lado direito há uma árvore centenária cujos ramos, fazendo arcádia sobre a estrada, servem de travessia aos esquilos e de poiso aos mochos; junto ao tronco da árvore, três crianças vestidas de bailarinas - coelhinhos brancos brincam despreocupadamente.   

A Chapeuzinho Vermelho surge caminhando para a casa da vovozinha e leva no regaço um cestinho de doces. A tarde estava bonita e a temperatura era amena, do jeito que mais a agradava. Ela parecia caminhar displicentemente, mas, no fundo, estava atenta a todos os movimentos. Porém, só encontrou alguns esquilos entre as folhas e, desolada, resolveu sentar-se à sombra de uma árvore e comer uma das guloseimas, já que trazia, também no cestinho, muitos e muitos guardanapos, que a impediriam de ficar lambuzada de chantilly. Afinal, não havia, a princípio, motivo algum que justificasse tal lambuzo. (Ou havia?)]

(Na plateia…)

Mitti: – Olhem gente, é a Luna!

Silvania: – Menina, quanta coisa nessa cachola, hein?

Cibelle (acenando para o palco): – Ei, Luna, estou aqui! Tem lá um selinho no meu blog! Admiro você!

Mitti (acenando também): – Menina, faz uma doação de neurónio pra minha pessoa?

Félix: – É… E a Luna também faz blogs mágicos assim com textos encantados.

Doce Essência: – Miga! Tô de volta no msn… Rs

Erica Ferro: – Luna, tu és fantástica!

Miss Univérsio Próprio: – Você é demais, menina! Adoro, sabia?

Silvia Gonçalves: – As mulheres independentes estão na moda… e a homarada odeia!!. Rs…

Dani: – Luninha, quero que tu saibas: tenho maior orgulho de ter tua amizade, viu?

RM: – Ei Luna, não posso revelar a fonte, mas uma conhecida blogueira me falou, em off…

Udi: – E sabe de quem eu mais gosto? Da Chapeuzinho!..

Chapeuzinho vermelho (do palco para a plateia): - Shiuuu, migos, assistam calados! Rs…

Shiuu

[Uma melodia (Ouça aqui) se fez ouvir com o som de guitarras electricas que se misturam logo com o das baterias… As crianças bailarinas deram as mãos entre si e fazem agora, animadamente, rodinha de carrocel. Chapeuzinho Vermelho saboreou o doce de-mo-ra-da-men-te, demonstrando satisfação em devorá-lo, não só através dos olhos, que chegaram a fechar, mas também pelo “Hummmmmmmmmm”  que soltou. Após isso, foi procurar o Lobo Mau por detrás dos arbustos da floresta, enquanto cantava:

Pack up;
I’m straight;
Enough;

Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say

Wait, they don’t love you like I love you; wait, they don’t love you like I love you;
Ma-a-a-a-a-a-a-a-a-aps;
Wait! They don’t love you like I love you.....

(Logo que a música terminou ouviu-se o roncar do motor de um veículo que se aproximava; Chapeuzinho Vermelho ainda lambia os dedos quando o motoboy parou ao lado dela...)

Motoboy: - Olá, honey só! Como te chamas, hein, baby?

Luna: - Cai fora, seu motoboy! Tenho um encontro com o Lobo Mau, não vem estorvar!.. Shôooo!

Motoboy:- Ué, não vais me dizeres nem o teu nome, nininha?

Luna:- Chamo-me Chapeuzinho Vermelho.

Motoboy: - Que nome mais lindo!... Mas tens a ponta do nariz lambuzada de chantilly, estiveste a comer guloseimas, honey?

Chapeuzinho Vermelho (limpando o nariz com as costas das mãos): - Estive. Que é que você tem a ver com isso, hein?

Motoboy: - Eu?... Well,  “com isso” o quê, com o chantily?...  Auuuuuuuu!

Chapeuzinho Vermelho (abrindo muito os olhos de surpresa e com interesse): - Que é que você falou?! “Auuuuuuuu!”?! Como você se chama, hein?

Motoboy: - Chamo-me Mr. Almost. E não falei “Auuuuuuuu!”, falei inglês: “Ah, you!"; você está escutando muito mal Chapeuzinho…

Chapeuzinho Vermelho: - Tô? Você acha, Mr. Almost?

Mr. Almost: - Tenho a certeza! Chegue aqui, preciso de observar as suas orelhinhas.

...Na plateia:

RM (acotovelando MR):- É o Portuga!

Marcos Rocha: - Grande Mr. Almost! Rs rs rs…

Avassaladora: - O bicho mau! O rato!

Amèlie (segredando para a Yaya): - O sacaninha!

Yaya: - Sim, qual deles, o dos puns-puns?

 (Entretanto no palco, Mr. Almost examinava as orelhas da Chapeuzinho Vermelho…)

Mr. Almost: - Txiiii! É mais grave do que inicialmente eu supunha… Este problema pode causar surdez aguda!

Chapeuzinho Vermelho: - Quê?! Que têm as minhas orelhas?

Mr. Almost:- Estão muito secas por dentro. Você odeia o calor e o Verão, não é?

Chapeuzinho Vermelho:- Ai Jesus! Sim, odeio…

Mr. Almost:- Esse ódio é um instinto, uma reacção natural, um espírito de sobrevivência, Chapeuzinho! A situação é crítica, você precisa de humidade nas orelhas imediatamente.

Chapeuzinho Vermelho:- Você pode me ajudar, Mr. Almost? Me ajude!

Mr. Almost:- Está bem! Com a minha  língua húmida vou banhar suas orelhas… Slup, slup, slup

Chapeuzinho Vermelho:- Estou sentindo calor nas faces e sensação de frio nas costas e na barriga…

Mr. Almost:- É normal, minha linda: você está com o pescoço muito tenso. Não se preocupe, vou relaxar também o seu pescoço com a minha língua… Slup, slup, slup

Chapeuzinho vermelho:-  Ai, não está resultando. E se você me desse umas dentadinhas, Mr. Almost?

Mr. Almost:- Boa ideia, Chapeuzinho! Cráu, cráu, cráu!

Chapeuzinho Vermelho:- Uia! Tô perdendo as forças, me pegue ao seu colo, calmeirão!

Mr. Almost (pegando a Chapauzinho no colo):- Vou te deitar ali no bosque à sombra!

Chapeuzinho Vermelho:- Leve-me, sim! E deite-me num local bem escondidinho, Mr. Almost! Ai, aiiiiii… Depressa, por favor, o meu coração está ficando acelerado e tenho tremuras e ardências! E muita falta de ar!

Mr. Almost (embrenhando-se no bosque):- Txiiii! Respira fundo, respira fundo!...  Você está precisando de respiração boca a boca!.. Ai, como você fica linda assim, com falta de ar...

Chapeuzinho Vermelho: - Desaperte a minha blusa, motoboy! Tô sufocando...

Mr. Almost (desapertando-lhe a blusa): - Grrrr! Caraca! Que lindos pulmões! E muito inchados do calor! Vou apertar e lamber para eles não incharem mais, tá?... Slup slup Slup!...  

Chapeuzinho Vermelho: - Leva-me para um lugar refrescante! E vamos de moto para chegarmos mais rápido!

Mr. Almost (voltando para trás com a Chapeuzinho ao colo): - Sim, boa ideia! Vamos!  Agarre-se em mim, com muita força para não cair.

Chapeuzinho Vermelho:- Yeah! Vambora, rápido! Aii...

Mr. Almost: - Não se preocupe, Chapeuzinho: haja o que houver você está comigo!

(A música dos Madredeus (veja e oiça aqui) ecoa no Teatro e o pano cai… Os espectadores apupam veementemente o acto I, fervilhando irados e horrorizados pelo desfecho.)

ACTO II

Mr. Pain e Vovozinha

[O pano sobe lentamente… O cenário mantém-se, mas as crianças bailarinas sumiram;  a luz é mais difusa do que antes, indicando que a noite está caindo. Vovozinha vinha caminhando pesarosa pela estrada em busca da Chapeuzinho Vermelho… Pensou que seria bom descansar ali, por alguns minutos e sentou-se na berma da estrada. Uma melodia (Oiça aqui) ecoa na sala do teatro… Mr. Pain aparece ao fundo, também caminhando pela estrada, e encontra a Vovozinha muito triste sentada na berma da estrada…]

Mr. Pain (levantando o chapéu):- Boa noite, minha senhora!

Vovozinha: – Boa noite,  senhor.

Mr. Pain:- Sucedeu alguma coisa?

Vovozinha:- A minha neta Chapeuzinho Vermelho não me trouxe os bolinhos e desapareceu no bosque…

Mr. Pain: – Ah, você sabe como é a juventude de agora…  despreocupada, mas os guris acabam sempre por se virar…

Vovozinha:- Sim, mas eu estou preocupada… Muito preocupada. Li num blog que ela tinha um encontro com o Lobo Mau.

Mr. Pain:- Com o Lobo Mau?!  Ah, sim, entendo a sua preocupação…

Vovozinha:- Coitado do Lobo Mau. A chapeuzinho Vermelho é muito gulosa: ela vai comer o Lobo Mau até ele ficar tísico como um pau de virar tripas…

Mr. Pain:- Ah, sim? Surpreendente! E como ela conseguiria isso, han?

Vovozinha:- Bom… Ela costuma colocar chantilly na ponta do nariz para o Lobo Mau a localizar pelo cheiro doce; depois finge que escuta muito mal e pede-lhe ajuda. Quando o Lobo Mau a ajuda sente os cheiros de fêmea que ela tem em quantidades soberbas e, então,  ela faz com que o Lobo Mau a leve ao colo para o meio do bosque… E aí… Cráu! Estupra-o, estropia-o, faz-lhe trinta por uma linha e ele vira um boneco articulado, um peluche nas mãos dela!

Mr. Pain:- Nossa Senhora! Que Deus tenha piedade de Mr. Almost, quero dizer, do Lobo Mau!

Vovozinha: – Não sei a quem aquela garota sai… No meu tempo eu não era assim. Comia um Lobo Mau, é claro, mas não no meio dos bosques. Era mais recatada… 

Mr. Pain:- Estou certo que sim, madame.

Vovozinha:- Como é que você disse que se chamava mesmo?

Mr. Pain:- As minhas desculpas, madame, ainda não me apresentei: Monsieur Pain, um servo ao seu dispor.

Vovozinha:- Você me parece um sujeito muito respeitador. E é servil, um gentleman, como eu gosto. Ajuda-me a levantar?

Mr. Pain:- Com todo o prazer, madame!

(Mr. Pain ajuda a Vovozinha a levantar-se)

Vovozinha:- Acompanha-me a casa, cavalheiro?

Mr. Pain:- Com certeza! Tenho muito gosto em…

Vovozinha:- Por falar em gosto, tenho lá em casa um caldinho muito bom… Quer provar? Apesar da idade ainda faço uns caldinhos muito gostosos…

Mr. Pain:- Absolutamente! Sou um grande apreciador de caldinhos. E não duvido que panela usada apura muito os sabores…

Vovozinha:- Então me dê o braço, monsieur.

Mr. Pain:- E…  E a Chapeuzinho Vermelho?

Vovozinha: – Deixe pra lá, esta juventude se vira sempre.

Mr. Pain: – Com certeza… É precisamente a minha ideia.

Vovozinha:- Gosto de cavalheiros com ideias; até porque eu também tenho as minhas…

Mr. Pain:- As experiências da vida, aquilo a que os romanos chamavam o “facere”, tornam as pessoas mais sábias, mais preparadas.

Vovozinha:- Reparo que temos muito em comum, monsieur. Façamos… Como os Romanos?… Hum… Que interessante! Você acha que sexo virtual é traição?

Mr. Pain:- Nunca pensei nisso a sério… Penso que as pessoas, se puderem, devem fazer o que mais lhes agrada. O sentimento de trair liga-se à consciência de cada um e é conforme à sua identidade moral. O sexo virtual pode, em certos casos, resultar em virtuosidade para o real, se for essa a expectativa dos praticantes: sentirem-se mais sedutores, mais desejados, mais admirados, e com isso, sentirem-se melhor consigo mesmos, realizados…

Vovozinha: – Muito bem. Como diria a minha neta, faremos uma paradinha e depois prosseguiremos… até casa…

(Mr. Pain e Vovozinha caminham juntos pela estrada, conversando até desaparecerem no fundo do cenário; o pano cai ao som de uma música dos tempos idos (Oiça aqui) . Os espectadores apupam e criticam a peça:

RM: – Rssss… Eu não disse que Mr. Pain era chegado numa balzaca?

Mitti: – Indecente esse Mr. Pain!

Déia: – Sim, aquela teoria do sexo virtual é absurda! É anti-psicológica! O meu grandão não faz!

MR (segredando à Avassaladora): – E, você… Faz um caldinho pra mim também? Rs rs rs…

(TO BE CONTINUED) 

Era Uma Vez Uma Vida Nova…

Pior Homem: – Estamos curados. Não foi fácil ter de espiar alguns dos nossos próprios pecados; os tratamentos que nos foram infligidos e que incluíram lavagens ao nossos cérebros foram muito duros, amigos, mas valeu a pena. Estamos curados, nascemos para uma nova vida! De hoje em diante viveremos para o bem e para a dádiva, para a cortesia e para a graça, para a beleza da existência e para a simpatia, para o indivíduo e para a civilidade.

Mr. Almost: – Que Deus nos abençoe, Pior.

Mr. Pain: – Amém.

Pior Homem: – No futuro pugnaremos pela justiça, pela fraternidade, pela igualdade, teremos boas maneiras e seremos delicados, tolerantes, compreensivos. Auxiliaremos os mais carentes, estaremos ao lado dos desprotegidos, rezaremos pelos doentes…

Mr. Almost: – Que Deus os abençoe.

Mr. Pain: – Amém.

Pior Homem: – Sim amigos, oremos: Que Deus traga homens cavalheiros à Denise do Egito e umas luzes de regras de bom português à Avinha Avassaladora…

Mr. Almost: – Senhor, abençoai as nossas irmãs e dai-lhes o Céu, nobres cavalheiros e luzes resplandecentes.

Mr. Pain: – Amém.

Pior Homem: – Que Deus envie umas loiras para o Verbo do Roney Maurício e que o Peter Hegre fotografe belas gurias em grande plano para o Marcos Rocha apreciar…

Mr. Almost: – Senhor, abençoai os nossos irmãos e dai-lhes o Céu, loiras verborreicas e gurias peladas.

Mr. Pain: – Amém.

Pior Homem: – Que Deus dê a visão completa dos acontecimentos à peixinha zarolha e que a senhorita Ka perca cinco quilos na bunda…

Mr. Almost: – Senhor, abençoai as nossas irmãs e dai-lhes o Céu, visão periférica e bundas com menos sete ou oito quilates.

Mr. Pain: – Amém.

Pior Homem: – Que Deus inspire poesia à Capitu, um bom professor de francês à Udi e um belo professor de francês à Luna Sanchez…

Mr. Almost: – Senhor, abençoai as nossas irmãs e dai-lhes o Céu, poetai-as com versos  e dois professores de francês, bons, belos e franceses.

Mr. Pain: – Amém.

Pior Homem: – Que Deus faça chegar bons livros e garrafas de uísque ao Geraldo Iglésias e força nas pernas ao Nicolau durante as maratonas.

Mr. Almost: – Senhor, abençoai os nossos irmãos e dai-lhes o Céu, livros de autores irreconhecíveis, uísque malte de doze anos e força nas pernas.

Mr. Pain: – Amém.

Pior Homem: – Que Deus traga a chileninha de regresso à hospedaria e que a cachorrinha da Cora receba um presente…

Mr. Almost: – Senhor, abençoai as nossas irmãs, trazei as cachorrinhas de volta e dai-lhes presentes.

Mr. Pain: – Ossinhos?… Amém.  

Pior Homem: – Que Deus descubra o jipe do Ricardo Soares…

Mr. Almost: – Senhor, abençoai os nossos irmãos e…

Mr. Pain: – E dai-lhes o Céu, amém!

Pior Homem: – Que Deus nos perdoe por interromper as orações, mas hoje está um dia demasiado lindo para as continuarmos…

Mr. Almost: – Pior, a fim de deixarmos uma melhor impressão final coloque aí o vídeo de quando você ajudou o mendigo…

Pior Homem: – Boa ideia!.. O original ou o fraudulento?   

Mr. Almost: – O fraudulento é melhor, não é?

Pior Homem: – Claro, claro. Vamos colocar o fraudulento.

Mr. Pain: – Amém!

Pior Homem: -Vamos lá, vamos fazer bem, amigos! E amanhã lembrem-me de orar pela Eliana, pela Marocas, pelo Flávio, pela Capitu, pela Ka, pela Celine, pela Renata, pela senhorita Rosa…

Mr. Almost: –  Hoje já oramos pela Ka e pela Capitu, Pior…

Pior Homem: – Nunca é demais orar pelos nossos amigos… Oraremos de novo!

Mr. Pain: – Eu bem que poetaria a Capitu, até porque Deus não pode fazer tudo sozinho. Também temos o dever de ajudá-lO!

Mr. Almost: – E eu faria uns exercícios na bunda da senhorita Ka, sacrificando-me para fazer o bem.

Pior Homem: – Vê-se que vocês estão curados, amigos. Louvado seja Deus!

Mr. Pain e Mr. Almost: – Amém!  

Era Uma vez o Fim da Guerra…

Lanzarote

Acabou a guerra na ilha e voltamos ao Priorado. A nossa actual condição física é muito pior do que imaginávamos à chegada. A bem dizer, estamos todos partidinhos, todos partidinhos, todos partidinhos e temos o cérebro gazeado, como se o tivessemos envolvido por uma atmosfera repleta de nuvens venenosas de cor cinzenta. Queremos falar, mas os músculos da língua não se mexem; os nervos ópticos movem-se tão lentamente que vemos o mundo em replay; mesmo os sussurros e os murmúrios são como ecos de sinos que perfuram os ouvidos de estridência; passamos a terça-feira na cama porque as pernas não caminham; temos as horas do dia trocadas pelas da noite em resultado das caçadas nocturnas e os costados, inflamados das garras das feras que não cortam convenientemente as unhas, fazem-nos sentir inveja dos camelos que conseguem andar e correr com aqueles papos nas costas; supomos que as nossas reservas militares de sémen se encontram esgotadas como flores a quem um enxame de abelhas em fúria houvesse levado o pólen; os nossos raciocínios continuam primários e instintivos, não obstante; os nossos ímpetos continuam a injectar sangue nos locais precisos, todavia;  os nossos desejos continuam refinados, contudo: umas lambidelas de cachorra nas nossas feridas é que vinham a calhar…

À distância, reparamos agora que se não tivéssemos feito aquela pausa cultural na Fundação César Manrique, um espaço completo em arte e arquitectura, provavelmente teríamos sucumbido numa porção de lua vulcânica rodeada de água por todos os lados. Foi Deus quem nos guiou até lá e daqui agradecemos, com a humildade servil que nos é natural, à providência divina. Ainda assim, vimo-nos gregos para nos salvar. Antigamente, as manadas mais jovens tinham de regressar aos redutos no máximo às duas da manhã; hoje em dia têm liberdade para se ausentarem durante toda a santa noite, o que dificulta a acção dos caçadores: aumentou-se o período da caça para o dobro, sete dias por semana. Não está certo, digo-vos! Essa medida, de tão exagerada, extenua os perseguidores e retira as faculdades persuasivas dos ataques subtis. A caçada, em vez de ser uma dança que se aprende a par e a passo (Vêem?.. O mundo em replay?..) que  tem como conclusão um final inesperado e surpreendentemente fatal, torna-se num jogo de paciência a que não se vê o fim; perde aquela beleza que a pegada, que o assalto com um desfecho repentino tem; e faz-nos sentir mais velhos e mais antas, desafinados. Porém, não nos podemos queixar da sorte: o saldo final é positivo, capitalizamos todos os investimentos com aquela ideia decisiva de colocar muros de pedra nas pradarias, assim baixinhos e dissimulados por plantações: as presas, lançadas em corrida desnorteada, tropeçavam muito e acabavam caídas, à espera do golpe de misericórdia, das anestesias administradas de modo paulatino. Sim, sim, somos contra qualquer tipo de sofrimento desnecessário e adeptos da eutanásia dos sentidos, ou não fossemos nós humanos, demasiado humanos, como diria Shopenhauer. Tanto que é a nossa humanidade, temente do juízo final, que nos obriga a um retiro espiritual para espiar os pecados da carne; queremos ser purificados para podermos ser amados. Sim,  queremos ser amados, não desistiremos… E se não o formos agora que até nos convinha porque estamos na cama,  que o sejamos, ao menos, sobre a relva do paraíso assim que morrermos para as caçadas.

Era uma vez “We Are Going On Holidays”…

antevisão

Esqueçamos o post anterior, um magnífico e longo presente à nossa amiga peixinha de olho zarolho. Oxalá lhe tenha feito bem à saúde ficar quinze dias na ribalta…

Porém, o que na verdade explica a nossa ausência é que Me, Mr. Almost, Mr. Pain e o Pior Homem do Mundo, aqueles humanos e este marciano que vos escrevem de modo sempre tão familiar e tão carinhosamente, por uma coincidência rara como se quatro neurónios da peixinha ficassem subitamente de acordo, fizemos aniversário no preciso e mesmo dia, e daí, estivemos todos de parabéns e comemorando todo este tempo, e vocês não,  ah ah!..  Well done! De terceiros, os únicos presentes que recebemos foram os do RM (felicidades e trivialidades) , da Cora (Uaauuu, Cora, “mil”?!!) e da Chileninha (dois vídeos e coisas que não digo!)

As comemorações dos nossos aniversários prolongar-se-ão durantes as férias. Sim, porque “We” e o Priorado merecem férias, rigtht?..

Reparem na imagem acima, que é uma  simples antevisão:

Yes, iremos para um lugar onde a caça é abundante: “Tatanka, tatanka, tatanka!!; E as cachorras loiras não podem vir connosco porque quando vamos à praia não levamos areia nos bolsos.


* PS. Neste momento estamos sem cheiro, para não atrair “as” animais. Qualquer assunto urgente, please, contact: Hotel Princesa Yaiza, Lanzarote, Spain. 

Era Uma Vez Uma Dedicatória à Peixa-Zarolha…

Sereia

“Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente”.

     (Padre António Vieira, extracto, Sermão de Santo António Aos Peixes, 1654)

Tenho a perfeita noção de que uma boa parte dos visitantes do Priorado não tem grande ideia de mim: na generalidade consideram-me um ser insensível, libidinoso, lascivo, desavergonhado, obsceno, intemperado, pirado e cruel, e acham que possuo uma personalidade repleta de malignidade e maquiavelismo.  

Estão todos errados e sobretudo a peixa-zarolha. Eu sou um ser bondoso e generoso. E sou tão doce! Sim, sim, sou açucarado como o mel e se me esquartejassem veriam que por dentro sou uma espécie de colmeia. Não obstante, tenho um problema: muita dificuldade em expressar-me docemente, pois como tenho o mel nos favos, toda a doçura tem de ser espremida. Mas todos ou quase todos os dias pratico boas acções para compensar uma ou outra menos conseguida. Por exemplo, há dias fui (como hei-de dizer educadamente?..) excessivamente irreverente para com a peixa-zarolha. Pronto, confesso! Consciente e arrependido disso logo pela manhã do dia seguinte fui a uma lagoa dar de comer aos peixes. Ah, como eles gostam de tostas! E digo-vos: os peixes têm um apetite voraz, são umas autênticas máquinas de comer! Haviam de vê-los engalfinhados na água a lutar pelos bocadinhos de pão que sobraram do meu pequeno-almoço! E que lindos, os peixinhos! Parece que ainda os estou a ver agora, que bichinhos tão queridos, Jesus do céu! Quando abrem as boquitas parece que dão beijinhos, já repararam? Gosto muito de peixinhos e, aliás, de toda a fauna que existe no mundo é dos peixes de quem eu mais gosto. A bem dizer, sou um apaixonado por peixes! Até amo as sardinhas, tão lindinhas, tão prateadas! Que bonitas que são! Umas gracinhas!..

Só por isso já se vê que, afinal, tenho um excelente carácter. Ah, ah!

Então, por que é que as pessoas se zangam tanto comigo, logo comigo, que sou um exemplo de tolerância, que promovo a pacificação, a amizade, a fraternidade, o carinho e o amor, e se faço tudo isso tão desinteressadamente? Se digo a uma alma que a como, ela amua-se porque a quero comer. Se digo que a não como, também se amua porque não a quero comer. Onde é que errei, afinal? Ok, ok, não dei café aos peixes. E daí?.. Como vivem na água, nunca têm sede. Razoável, não é?.. Vêem como sou bem-intencionado, vêem?..

Todas as pessoas que me conhecem são unânimes em dizer que sou boa pessoa. E, claro, todas as pessoas que eu conheço são boas pessoas. Já quanto aos peixes… Não, não vou repreendê-los nem chamar-lhes “safados” por se comerem uns aos outros! Vou louvá-los:

“Falando dos peixes, Aristóteles diz que só eles, entre todos os animais, se não domam nem domesticam. Dos animais terrestres o cão é tão doméstico, o cavalo tão sujeito, o boi tão serviçal, o bugio tão amigo ou tão lisonjeiro, e até os leões e os tigres com arte e benefícios se amansam. Dos animais do ar, afora aquelas aves que se criam e vivem connosco, o papagaio nos fala, o rouxinol nos canta, o açor nos ajuda e nos recreia; e até as grandes aves de rapina, encolhendo as unhas, reconhecem a mão de quem recebem o sustento. Os peixes, pelo contrário, lá se vivem nos seus mares e rios, lá se mergulham nos seus pegos, lá se escondem nas suas grutas, e não há nenhum tão grande que se fie do homem, nem tão pequeno que não fuja dele. Os autores comummente condenam esta condição dos peixes, e a deitam à pouca docilidade ou demasiada bruteza; mas eu sou de mui diferente opinião. Não condeno, antes louvo muito aos peixes este seu retiro, e me parece que, se não fora natureza, era grande prudência. Peixes! Quanto mais longe dos homens, tanto melhor; trato e familiaridade com eles, Deus vos livre!”                                                                                                    (Idem)

Reflectindo naquilo que aqui sucedeu com a  peixa-zarolha, começo a perceber a sua relutância e adversidade por eu ter dito que lhe comia as ovinhas! Realmente, isso não se faz! As ovinhas, não! E ela é uma peixinha pequenina e, por isso, tem muito medo de ser comida por um peixote grande. Além disso, as peixas-zarolhas por sua própria natureza são muito desconfiadas… Ui, se são! Esta, coitadinha, ficou assustada. Não entendeu que era tudo a brincar e achou que quanto mais longe dos homens, melhor! Mas… Pode voltar, peixinha-zarolha, a gente não te faz mal, anda, vem peixinha, vem…   

E para quem julgue que esta dedicatória tem muito sabonete, eu digo: que o sabão não mata, até lava os peixes…

Era Uma Vez o Post Mais Chato do Priorado…

Amadeus

Num comentário de hoje chamaram-me um nome pequeno que não gostei: “godfaker”. A sensação que tive é que, afinal, não acreditam nas histórias verdadeiras que acontecem no Priorado e que as questões aqui suscitadas são consideradas pouco mais do que ninharias; e a vontade que me deu foi a de exaltar-me de indignação, pegar na cana de pesca e vingar-me nos semelhantes da comentadora. Ainda não estou em mim! Juro-vos que até pensei em alterar o comentário, trocando o “a” da palavra por um “u” para, enfim, repor alguma verdade relativamente à minha pessoa. Mas não: sou um homem de espírito muito elevado!

«- “Say I’m sick.”»… Lembram-se de Mozart?

Considerar estas histórias como ninharias é não ver o que está em jogo. As ninharias são a textura das histórias: na minúcia residem verdades e é mais importante a miríade de acontecimentos discretos que as grandiosas sublevações. Ser capaz de ver coisas pequenas e discretas exige um talento especial, passível de ser adquirido através do cuidado e da atenção; a capacidade de ver o pequeno e o vulgar na sua completa particularidade traz à luz a textura do mundo, surpreendendo porque revela que as coisas pequenas podem ter grande significado, e que, afinal, quase nada é vulgar.

«“- What?”… Yes, you are sick!»

«- “Say I’m sick”, ao contrário.»

Se virmos a importância das pequenas coisas ficaremos mais aptos a julgar a importância do seu oposto. Nem que seja apenas por esta razão, as ninharias são interessantes, uma vez que exercitam o nosso sentido de perspectiva e nos ajudam a calibrar o material da experiência. “Para quem as pequenas coisas não existem, o grande não é grande”, disse um filósofo que não sei escrever o nome. Uma pessoa assim não tem o sentido da proporção, e isso é um defeito terrível, pois a capacidade de medir as coisas é essencial ao juízo e – consequentemente – à tarefa de viver bem e de enxergar mais que o cheiro das tostas e do café.

«- “Kcis m’i yas”. »

«- “Kiss my ass! Ahahahaha!” »

Era Uma Vez o Segundo Gol do Portuga…

Pior regressa

A conhecida expressão “errare humanum est” é uma expressão latina que significa “errar é próprio do homem”. Considero-a uma expressão muito interessante porquanto ela dá conta da imperfeição do ser humano e, como tal, o quanto este inadvertidamente se encontra sujeito a cometer erros. Porém, a aludida expressão chegou incompleta até aos nossos dias: inserta no seu escrito “Filípicas”, uma espécie de oração de protesto contra a tentativa de Marcus Antonius usurpar o cargo do recém-falecido Julius Caesar, a autoria da expressão é atribuída ao filósofo e político Cícero, mas quem tiver a curiosidade de ler o escrito no original descobrirá que a afirmação integral é “errare humanun est sed in errore perseverare diabolicum” que se traduz mais ou menos assim: “errar é próprio do homem, mas insistir no erro é próprio do diabo”.

Há dias escrevi um comentário no livro de actas do chalé sobre um prémio com que uma organização internacional deliberou agraciar o presidente brasileiro Inácio Lula da Silva. Referi: “O Prémio é da UNESCO e premeia a contribuição para a busca da paz”. RM, o dono do chalé, questionou a forma verbal “premeia” e, induzido de que estava a abarrotar de razão, continuou tão absoluto e vaidoso da sua certeza que, sem reparar ou ignorando (n)a ironia das minhas réplicas – nem mesmo quando lhe apresentei um exemplo jornalístico de que a forma verbal estava correcta -, zombou com o termo: “Bem, Portuga, entendo nada de jornalismo, mas que tem muito analfabeto sendo “premeiado” por aí afora, ah isto tem…”

Não, não vou dizer que o analfabeto é o RM e que até foi premiado com um “gol”. O que eu quero dizer e que saibam é que quem zombou todo este tempo fui eu do RM e não o RM de mim, e, sim, confesso: sou irónico, sarcástico e maquiavélico. Foi muito bom vê-lo deixar a forma humana à medida que persistia no erro até tornar-se no diabo: uma figurinha que é imaginariamente representada com um vestuário encarnado da marca “Prada” e com uns apêndices recurvados na cabeça.

O verbo “premiar” pertence ao tipo da primeira conjugação por ter o tema em “a”; o verbo “premer” pertence ao tipo da segunda conjugação por ter o tema em “e” e o verbo “premir” pertence ao tipo da terceira conjugação por ter o tema em “i”. O problema é que nem todos os verbos da primeira conjugação se conjugam de igual modo. Se a grande parte conjuga-se como o verbo “amar” ou “lavar”, outros há que se conjugam de modo diferente. Dentre estes verbos (haveria muitas outras formas de conjugação dentro do mesmo tipo de tema em “a”), interessa-nos alguns cujos radicais têm um “i”, como tem o substantivo “prémio” que é radical do verbo “premiar” . É o caso de “remédio”, radical do verbo “remediar”; o caso de ‘ódio”, radical do verbo “odiar”; “obséquio”, radical do verbo “obsequiar”; “médio”, radical do verbo “mediar”; “intermédio”, radical do verbo “intermediar”; “ânsia”, radical do verbo “ansiar”, etc. Pois bem: o verbo “premiar” conjuga-se de igual forma que o destes exemplos. Vejamos a conjugação do presente do indicativo nas três pessoas do singular:

Eu odeio / Eu remedeio / Eu obsequeio /  Eu anseio / Eu premeio;

Tu odeias / Tu remedeias / Tu obsequeias / Tu anseias / Tu premeias;

Ele odeia / Ele remedeia / Ele obsequeia / Ele anseia / Ele premeia.   

Gol! Gol! Gol!

E como é, como é, como é que fica o placard, RM ?

- Portuga: 2 – Roney: 1!

Ai, Roney, Roney… Um dia ainda me matas com o teu português!..

Ah!… É verdade: O Pior Homem do Mundo já chegou ao Priorado. Assessorado por dois funcionários prepara-se para recepcionar o primeiro-ministro português, José Sócrates, no seu escritório privativo. Querem assistir, secretamente?.. Ah?..

Era Uma Vez no Priorado…

Mr. Pain reading

Mr. Almost: – Mr. Pain?.. Mr. Pain?.. 

Mr. Pain: – Estou no banheiro! 

Mr. Almost: – Ainda?.. Fazendo o quê?..

Mr. Pain: – Lendo!

Mr. Almost: – Lendo o quê?

Mr. Pain: – A Gazeta Policial.

Mr. Almost: – Aquela que tem pin-up na capa?

Mr. Pain: – Aham!.. E na página central.

Mr. Almost: – Sai daí, pervertido!

Mr. Pain: – Aconteceu algum acontecimento que não tivesse ainda acontecido?

Mr. Almost: - Vários!

Mr. Pain: – Peço explicações!

Mr. Almost: – A Amèlie emburreceu!

Mr. Pain: - Mais!

Mr. Almost: – Fiz um ultimatum à Yaya!

Mr. Pain: Mais!

Mr. Almost: – O RM queixa-se que o Priorado demora a responder!

Mr. Pain: - Mais!

Mr. Almost: – E atribuí isso ao facto de sermos péssimos “debatedores”!..

Mr. Pain: – Mais!

Mr. Almost: – E que somos péssimos perdedores!

Mr. Pain: – Fez “qua qua qua”?…

Mr. Almost: – Fez.

Mr. Pain: – Ah, não liga! Quando ele faz de pato marreco, perdeu!

Mr. Almost: – Como assim?

Mr. Pain: – É como um tique. Mais!

Mr. Almost: – Mais?.. Hum!.. Deixa ver… E você já está aí há tempo demais!

Mr. Pain: – Mais!

Mr. Almost: – O Pior Homem está chegando de Marte!

Mr. Pain: - Tô indo, tô indo! Só porque a Amèlie emburreceu, viu?

Mr. Almost: – Mais!

Mr. Pain: – E porque temos muito carinho por ela!

Mr. Almost: – Mais!

Mr. Pain: – E não gostamos que a maltratem!

Mr. Almost: – Então, vá, despacha-te!

Mr. Pain: – Já tô secando o terno, ok?.. 

 

Era Uma Vez A Felicidade…

beira-rio

Hoje escrevi uma carta para uma pessoa amiga, no fim da qual lhe desejava as maiores felicidades. Só depois de a ter enviado é que me surpreendi, sentado num banco junto às árvores que adornam as margens de um rio, a pensar nas razões pelas quais se exprime, em última instância ou em jeito de despedida, votos de felicidades às pessoas amigas.

É certo que se interrogássemos acerca da felicidade todas as pessoas do mundo, a maioria das pessoas diria que a felicidade é o objectivo fulcral da vida, e muitas diriam mesmo que atingir a felicidade é tão importante que justifica todas as opções feitas para a alcançar.  

Será mesmo assim?…

Numa observação perspicaz de uma mente filosófica, foi afirmado que “a procura da felicidade constitui uma das principais fontes de infelicidade da vida”: Sim, procurar a felicidade origina angústia, inquietação, mal-estar, mágoa, tristeza, sensação de agonia, de medo, de frustração, de receio, sentimentos existenciais e morais inerentes à incerteza do destino, à ameaça do nada, e, nos casos mais agudos, a sentimentos de depressão, de desespero, ao pânico, a pensamentos suicidas, a iras súbitas, à loucura e à destruição, isto para não falar em certos sintomas físicos, como a constrição torácica e laríngea e o súbito aparecimento nas coxas de citações de Oscar Wilde.

Tudo isto aponta para a existência de valores mais elevados na vida que a felicidade. E na verdade, há argumentos persuasivos que evidenciam que a felicidade, especialmente no seu sentido moderno e sem substância de contentamento ou satisfação, é um objectivo de vida não apenas erróneo como também enganador.

Suponhamos que, por exemplo, um cientista inventou uma fórmula química da felicidade e a derramou em quantidade adequada nos reservatórios de água que dão de beber a todas as cidades e a todas as pessoas do mundo. Ao ingerirmos ou ao contactarmos com essa água, sentir-nos-íamos tão felizes que não nos aperceberíamos quando as crises financeiras dizimassem as organizações e o bem-estar das famílias, nem nos importaríamos com os cataclismos que sucedessem às ineficiências gerais da comunidades humanas, pois o químico manter-nos-ia a sorrir todo esse tempo, drogados de felicidade para toda a vida. Eis um modo de ilustrar que, para atingir a felicidade, nem todas as opções feitas são justificáveis. E para quem esteja a pensar que o exemplo oferecido é ficcional, pense nos exemplos práticos do “serial killer”, do violador ou do pedófilo que se sentem especialmente felizes a matar, a estuprar mulheres, a abusar sexualmente de criancinhas puras, e nenhum de nós – suponho – aprova tais meios ou tais opções para atingir a felicidade; Ou pense nas viagens a Miami, Paris e Londres, efectuadas por deputados e seus “familiares” (as aspas significam que, naturalmente, alguns deixaram a esposa em casa e levaram consigo a secretária loira do gabinete partidário) como opção de atingir a felicidade pessoal de passear e conhecer outras paradas e experimentar outras trepadas – tudo custeado pelo suor dos contribuintes brasileiros. E por falar em brasileiros, há os que não desistem nunca de o ser, como se esse facto fosse em si mesmo tão motivante que ultrapassasse a própria infelicidade, a mesma “moral dos escravos” que alimentava durante a vida as vítimas da escravatura para depois da morte, o que, como dizia Nietzsche, é mais um consolo que uma reparação.

O facto de estes exemplos tornarem a ideia de felicidade desagradável, induz-me a ideia de que o estado de felicidade – de contentamento, de satisfação – só por si, considerado em si mesmo, nos conduz a um estado negativo, a algo que subverte as coisas que mais valorizamos: o esforço e o desejo que nos dá o conhecimento e o progresso, a satisfação de melhorarmos e evoluirmos como pessoas um pouco a cada dia (e connosco o mundo também) e à ideia final de que a felicidade não é um objectivo, mas sim o efeito secundário do nosso esforço e do nosso desejo há pouco mencionados.

(…)

Mr. Almost tocou-me no ombro e dirigiu o olhar para a estrada que ladeava o rio a par das árvores que adornavam as margens do rio. Olhei na mesma direcção, e observei o Peugeot preto de Mr. Pain (que regressou ao Priorado, agora que terminou o seu romance tempestuoso com a Cantabile), aproximando-se lentamente na nossa direcção.

Quando partimos, não pensei mais na felicidade. Não pensei também no momento futuro do que pensará a pessoa amiga ao ler que lhe desejo felicidades e no sentido peculiar que esse desejo tem.

Era Uma Vez Uma Hospedaria…

hospedaria

Mr. Pain e Mr. Almost entraram no salão do Priorado, onde o Pior Homem do Mundo lia, confortavelmente deitado num sofá, “O Regresso” de Bernard Schlinck. Vinham com semblantes alvoraçados, de como quem traz uma notícia grave e de última hora… Estacaram os passos a meio da sala e deitaram as mãos para detrás das costas, como que inocentando-se de antemão do sucedido…

Pior Homem: – Digam lá, senhores…

Mr. Pain: – Nem sei como dizer, Pior Homem…

Mr. Amost: – Há um acontecimento recente… que… achamos…

Pior Homem: – Por favor, sejam objectivos e directos!

Almost: – Pior Homem, a Hospedaria fechou!

Pior Homem: – Fechou como, Almost?

Mr. Pain: – Fechou. Está encerrada ao público!

Pior Homem: – Encerrada ao público?

Mr. Pain: – Sim. Exactamente, encerrada ao público! Closed! Fermée!

Mr. Almost: - Encerrada ao público em geral!

Pior homem: – Em geral? Como assim em “geral”, Almost?

Mr. Almost: – Está aberta apenas a hóspedes convidados!…

Mr. Pain: – … E devidamente identificados!

Pior Homem: – Identificados?… Como assim?

Mr. Pain: – É necessário possuir uma senha, obviamente secreta, para lá entrar!

Pior Homem: – Já viram a caixa do correio?

Mr. Almost: – Já!

Pior Homem: – E…

Mr. Pain: – E nada! Não tem lá nada!

Mr. Almost: – A não ser prospectos publicitários e algumas contas para se mandar pagar.

Pior Homem: – A Amèlie não enviou a senha secreta ao Priorado?!

Mr. Pain: – Não.

Pior Homem: – Não fomos convidados?!…

Mr. Pain: – Não.

Mr. Almost: – Aliás, suspeito até que somos indesejados por lá?…

Pior Homem: – Indesejados?… Nós?… Por que razão seriamos indesejados lá?

Mr. Pain: – Excelente pergunta, Pior Homem. Talvez tenhamos feito alguma coisa de mal, não sei…

Mr. Almost: – O que é certo é como se a chileninha quisesse atingir com um soco o nosso ego!

Pior Homem: – Não acredito. Ela é uma senhora muito educada, jamais faria uma coisa dessas, assim tão violenta…

Mr. Pain (contendo o riso) : – Pois, pois… Creio que Mr. Almost pretendeu expressar-se em sentido figurado.

Pior Homem: – Deve ser mais uma brincadeira da Amèlie… Vocês sabem como ela é brincalhona, não é?…

Mr. Almost: – Desta vez, Pior Homem, receio que seja a sério. Repare, na porta da hospedaria diz: “Se é frequentador desta casa, identifique-se!”

Pior Homem: Com ponto de exclamação e tudo?

Mr. Almost: E tudo!

Mr. Pain: – E quem não souber se identificar através da senha, fica à porta.    

Pior Homem: Que coisa demoníaca! É como tropeçar numa velhinha sem pernas e tê-la que a pôr em pé!

Mr. Almost: - Aí é que está! Deve ter sido por causa das pernas…

Pior Homem: – Das pernas?…

Mr. Pain: – O Pior Homem era conhecedor que um tal Oscar Wilde escreveu um poema nas coxas dela?

Pior Homem: – Esse bandido?… Que atrevimento! Ele não estava preso?

Mr. Almost: – Sim, saiu da prisão há dias…

Pior Homem: – Mas ele não era homossexual?

Mr. Pain: – Disse bem, Pior Homem: “Era”! Devem-lhe ter dado tantas no fiofó lá no cárcere que saiu convertido, emendado.

Pior Homem: – Bem, é ponto assente nos meios judiciais que as prisões têm, além do fim de privar alguém da liberdade, essa finalidade de reabilitação, é verdade.  Contudo, escrever nas coxas das senhoras é uma perversão!  Acham que ela possa ter sido sequestrada lá dentro por esse bandido?

Mr. Almost: Acreditamos que não! Mantenho a tese do soco no nosso ego.

Mr. Pain: – Entendemos que o encerramento da Hospedaria foi levado a fim por puro desdém: Como se fosssemos arredados da elite que lá entra para nos sentirmos uns pobres desgraçados, “um soco no nosso ego”, como refere Mr. Almost.

Pior Homem: – O que as más companhias não fazem às pessoas boas…

Mr. Pain: – Lá boa era ela, sim… Mas tinha cá uns fígados…

Mr. Almost: – Seja comedido e respeitoso, Mr. Pain!

Mr. Pain: – Desculpem, foi por força de expressão, sem intenção de…

Pior Homem: – Liguem a rádio e deixem-me a sós, por favor. Vou meditar no assunto.

Mr. Pain ligou o rádio e puxou Mr. Almost pelo casaco em direcção à saída. O Pior Homem do mundo fechou os olhos e, enquanto a música tocava (oiça também aqui) , parecia ter adormecido…

Era Uma Vez Um Amor Para Carol…

woman-superiority

Há tempos uma amiga pediu-me que não lhe enviasse mais livros porque muita leitura a fazia demasiado sábia e inteligente, e isso a tornaria menos atractiva para a maior parte dos homens. Como eu costumo aceder aos pedidos bem justificados, deixei de lhe enviar livros: Ela tinha razão. Não era uma razão absoluta, entenda-se, mas era uma razão atendível, compreensível. Dei por mim muitas vezes a reflectir naquele pensamento que contém a ideia clara de que o homem comum se sente intimidado e fragilizado perante um ser feminino mais desenvolvido do que ele, e isso aplica-se não só ao nível do desenvolvimento intelectual, como também ao nível do desenvolvimento físico: da mesma forma que à maioria das pessoas as relações amorosas de homens de baixa estatura com mulheres mais altas causam ainda estranheza e até alguma jocosidade (há quem afirme que mulher com mais de 1.80 metros fica parecendo travesti) por tais relações não parecerem esteticamente naturais, também a maior desenvoltura e superioridade intelectual da mulher tem o perverso condão de tornar a relação improvável, pois o homem comum, ao sentir instintivamente o seu papel ancestral de dominância colocado em crise, se absterá de a abordar com o ímpeto ou a voluntariedade que se lhe espera. O máximo que o homem comum tolera é uma relação de igualdade e nunca uma relação em que se sinta num plano de inferioridade. Por sua vez, poucas mulheres aceitarão relacionar-se com homens que, ou por serem baixinhos ou por serem intelectualmente deficitários, não correspondem àquilo que esperavam de um amor do tipo “tampo na panela”.

Nas últimas décadas temos assistido nas sociedades ocidentais a uma ascendência quase meteórica do desempenho feminino em todos os quadrantes sociais, retirando aos homens os espaços e os lugares que – sim, muitas vezes imerecidamente – por tradição ou condição ocupavam. E, agravando, é certo que este estado de coisas tem a tendência nítida para continuar, bastando olhar para o número cada vez mais ínfimo de homens que, comparados ao das mulheres, terminam a sua formação académica e a sua especialização profissional.

Naturalmente esta inversão da preponderância dos papéis sociais acarreta distorções concretas nas relações interpessoais, e nomeadamente distúrbios no modo de formação das relações amorosas. Claro: Todos nós somos testemunhas de médicas, arquitectas, economistas, advogadas, empresárias e professoras, namorando e até casando com barman’s, camionistas, vendedores de bebidas, taxistas, pedreiros e jardineiros municipais, mas esses exemplos não correspondem às expectativas naturais das mulheres quando procuram um parceiro para uma relação estável e equilibrada. Para não ir mais longe e não sair sequer do espaço onde escrevo, tenho lido em blogues femininos asserções como “jamais aceitaria um homem que não soubesse escrever bem o português” ou ” jamais toleraria viver com um homem dependente economicamente de mim” ou “gosto de homens ambiciosos, audazes, com capacidades para serem bem sucedidos na vida“, possuindo todos estes “ous exemplificativos” o fulcro da actual angústia feminina e a razão que atribui à minha amiga que não queria receber mais livros.  

Serve isto para dizer que para uma mulher como a Carol, de cujo blogue e perfil se adivinha e depreende uma mulher intelectualmente assaz desenvolvida e instruída, há cada vez menos homens adequados a servirem de “testo da panela“, o “amor da vida“.

Afinal, o que nos dias de hoje constitui o “amor da vida”?       

Há mais ou menos um ano, num blogue que interrompi, escrevi um texto que respondia, ainda que ao de leve, a esta pergunta. Dizia eu, então, algo parecido com o que ora quase repito:

Não há um amor, há vários tipos de amor. E, apesar das aparências, os tipos de amor que têm mais importância para nós não são os que saltitam nos ecrãs de cinema ou os que preenchem as páginas dos romances. São, ao invés, os tipos de amor que nutrimos pela família e pelos verdadeiros amigos: estes são os amores que subsistem ao longo da maior parte das nossas vidas, fornecendo-nos o nosso sentido de auto-estima, a nossa estabilidade e a estrutura para outras relações.

Em contraste, o amor romântico consiste numa turbulência breve e episódica, geralmente ardentemente vivida, na nossa experiência emocional. A julgar pela atenção que lhe é concedida – na literatura, na poesia, nas canções, no cinema, no teatro, nas artes – é uma das mais vibrantes e profundas experiências da vida. Contudo, contém um paradoxo: esse tipo de amor contém um impacto tão arrebatador, tão contundente, tão incendiário das nossas entranhas, que se torna doloroso não só vivê-lo como de suportá-lo – e é por isso que normalmente tem uma vida curta e consequências por vezes tão devastadoras que se torna necessário, por vezes, longos períodos para convalescer.

Além disso, diz quem é mais ponderado, o amor romântico não é um bom meio para conhecer alguém – pelo argumento de Stendhal, de que envolvemos a pessoa amada em camadas de cristal e observamos uma visão em vez da pessoa durante todo o tempo que dura o arrebatamento, a atracção, a ilusão. Nesta perspectiva, trata-se de um estado delirante, cujo único ponto positivo é de ser breve, muito embora, no meu caso pessoal, o último estado delirante tenha durado mais de três anos – que agora me parece décadas -  e que já me valeu o parecer que nunca existiu.

Já os mais optimistas e modernistas pensam que o amor romântico é a única coisa que nos permite atravessar as várias camadas da pele que isolam convencionalmente as pessoas umas das outras, possibilitando a nudez absoluta, a verdadeira comunicação, aquela que se exprime pela linguagem da intimidade, sob a forma não só de palavras, mas sobretudo de prazeres e desejos. A teoria, sendo à partida boa, descamba em gente apaixonada que enche os motéis às sextas-feiras, os restaurantes no dia dos namorados, suja os bancos traseiros dos automóveis e faz blogues de conteúdo adulto, normalmente impingindo-nos a ideia da coincidência entre a profundidade da relação com a da penetração, a liberdade com a exposição, e o amor romântico com exercícios físicos quase olímpicos.

De tudo isto resulta a conclusão crucial de que o amor romântico é um fenómeno ainda pouco compreendido, com manifestações díspares, com a prevalência actual da ideia de que o amor é naturalmente temporário, colorido, episódico, efémero. Não é alheia a esta constatação o facto de nos tempos modernos se ter associado ao amor romântico características retiradas de outros tipos de amor, nos quais deixamos de reflectir.

Os Gregos tinham palavras diferentes para as diversas manifestações do amor. Falavam em “ágape“, para o amor altruísta (em latim, “caritas“, que se corrompeu ao longo dos séculos para “caridade”) que sentimos pelas crianças, pelos idosos, pelos desfavorecidos, pelos mais desventurados; Usavam o termo “ludus” (de onde derivou o termo “lúdico” com um sentido de diversão) para a afeição despreocupada dos amantes ocasionais; Diziam “pragma” para se referirem ao entendimento amoroso que existe entre um casal de longa data; Utilizavam “storge” para definir o amor entre amigos e colegas de ofício, a sólida amizade que une os companheiros, e, por fim, utilizavam o termo “mania“, que é a obsessão pelo amor sexual – a tirania do “eros“- , pelo amor erótico, pela paixão sexual, que, curiosamente,  era considerada um castigo dos deuses por ser antagónica da “ataraxia“, da paz de espírito. 

Ao estabelecerem estas distinções, os Gregos mostraram compreender melhor do que nós que as relações próximas são úteis para vários fins. Todos nós necessitamos de satisfações emocionais de vários tipos, mas sobretudo aquelas que derivam do companheirismo, do afecto, da amizade e da aprovação: os diversos amores do ideal grego, com excepção da “mania“, despertam um sentimento de auto-estima. A amizade, por exemplo, era considerada o mais forte laço emocional, ao passo que a mania, a paixão sexual, era vista como uma fraqueza (e é por isso que quando alguém se apaixona por outrem diz-se “estar de quatro por…”, “ou de beiço” (tristeza, choroso) por…”, e tantas outras expressões com sentido pejorativo e de baixa estima).

Bom, não pretendo fatigá-los mais com os amores do passado. Quero apenas recordar que são estes amores do passado que nos elucidam algo sobre os amores do presente: A certa altura dos últimos séculos, proliferou espontaneamente uma miscelânea de todos estes amores, fazendo nascer assim como numa espécie de economia emocional, um novo tipo de amor: a paixão, a amizade, o companheirismo, a parceria, os cuidados e a dádiva, que antes eram oferecidos distintamente em diferentes relações, surgiam agora numa única embalagem com a conveniente etiqueta de “sociedade conjugal“.     

Esta combinação moderna de romantismo e camaradagem, que assim se tornou no nosso ideal de amor, revelou-se um composto muito instável. O carácter obsessivo (a mania) do amor erótico tem a ver com ímpetos e actos físicos sexuais e o insucesso ou a insatisfação da relação sexual é uma fonte abundante de problemas que atingem de forma catastrófica a camaradagem, a amizade e o companheirismo, os elos mais fortes da relação, os selos que juntam a tampa à panela. Os índices do insucesso do amor romântico medem-se facilmente pelo número dos divórcios, pela quantidade de parcerias sexuais, pela crescente preferência pelas relações sexuais ocasionais, pelos romances de fim-de-semana, pelo avolumar da “lama” que cerca as nossas vidas.  

(…)

Com tudo isso, as oportunidades estreitam-se e “o amor da vida” torna-se paulatinamente num objecto cada vez mais difícil de conseguir, qual cavalo negro correndo veloz, mais que o vento… E, contudo, com um punhal que o fizesse refrear, ainda é possível ser-se feliz…

(Mr. Pain irrompe no gabinete do Pior Homem)

Mr. Pain: – Pior homem,  o jantar está servido!

Pior Homem: – Graças a Deus! Vamos a isso, então!

Mr. Pain: – Convidamos a Carol para jantar connosco.

Pior Homem: – Ah, sim…  Já chegou ao Priorado?

Mr. Pain:  – Sim, Mr. Almost encarregou-se de a recepcionar…

Pior Homem: – Mr. Almost?… Vamos depressa, vamos depressa…

Mr. Pain: – … Com vinho da Madeira e música de Coltrane…

Pior Homem: – Corre, homem! Sai-me da frente, sua anta!…

Mr. Pain: – Anta?

Pior homem: – Desculpe, foi uma força de expressão. Queria dizer que estou com pressa e você com muitos vagares.

Mr. Pain: – Com certeza, senhor… Se assim o diz…

Pior Homem: – Só quero evitar que Mr. Almost fale-lhe de Xico Sá… Ela não aprecia…

Mr. Pain: – Com certeza, senhor… Se assim é…

Pior Homem: – E deixe-se de ser cínico comigo, bem sabe que não gosto!

Mr. Pain: – Com… Sim, senhor!

Era Uma Vez Um Sarau No Priorado (I)…

Maias (Maias*)

(Junto à parede de um dos paralelogramos menores do salão nobre do Priorado há um palco improvisado. À esquerda, foi estrategicamente colocado um piano de cauda e na parte restante do mesmo vêem-se outros instrumentos musicais de menor dimensão, dispersos sobre as cadeiras ou encostados casualmente à parede. Ao centro da parede há uma tela dependurada que servirá para projectar imagens durante os eventos do sarau. A parte restante do salão foi preenchida com mesas redondas, onde se sentaram aleatoriamente os convidados à medida que haviam chegado e após terem sido recepcionados por Mr. Almost e Mr. Pain: O primeiro desejara as boas vindas e o segundo oferecera um pezinho de maias a cada um dos convidados. Também todo o salão se encontra decorado com essas giestas, resultando tudo num forte contraste entre os tons ocres do salão e o amarelo das flores. Funcionários do Priorado serviam aperitivos sólidos e líquidos e os convidados conversavam entre si.)  

Nicolau: – Já me cheira a um belo leitão assado do forno do Priorado…

Homem de Azul: – Meu amigo, eu tenho medo da gripe desses porcos.

Carol: – Foda-se a gripe suína, eu sou corinthiana. Mas isso não impede todo o resto, né?

Nicolau: – Tem toda razão. Deixemos a América Central por hora fora dos nossos planos, e nos concentremos em lugares realmente mais interessantes.

Amèlie: – Barcelona! Barcelona! Barcelona!

Patty: – Eu já tinha me convencido a nunca mais falar do Havaí aqui. Mas… Amèlie, você vai amar Barcelona!

RM: (com uma máscara anti-suína colocada na cara) – Esta pestilência medieval da influenza! Naturalmente, tomo todas as medidas profiláticas e de precaução contra o contágio…

Cora: – Se pegar, eu prefiro “influenza porcina” a “gripe suína”… eu, hein! Rs

MR: – O governo mexicano avisou que só aceita que a pandemia seja chamada de “gripe mexicana” se os vírus forem flagrados usando sombrero e tomando tequila.

Geraldo: – Que nome dariam vocês a uma gripe de whiskey, hein?…  eh eh eh…

Eliana: – Nada faz sentido. Pouse estes olhos perdidos sobre os objetos que desenham uma vida. Tudo que sou está escrito neste mapa de interrogações.

Capitu: – Sejamos intransigentes e olhemos à direção fictícia que a nossa cega seta mesquinha  é capaz de nos conduzir, mas não acertemos o alvo! Reneguemos o amor!

Mara:-  Acabou de cair a ficha sobre… Tô vendo problema não… Rsrs… Chega!  De agora em diante não falo mais a respeito! Só se insistirem muuuuuuuito… Rs.

Cora: - Não, dear. Meu fetiche não tem nada a ver com bombeiro e seu instrumento de trabalho…rs

(Mr. Pain irrompe no palco…)

Mr. Pain:-  Senhoras e senhoras, peço a vossa atenção e o vosso silêncio…

(Dezenas de olhos perscrutadores olham aquela figura curiosa vestida de negro estacada no palco e burburinho do salão acalma quase imediatamente… Mr. Pain prossegue:)

Mr. Pain: Vamos dar início ao nosso sarau. Assim como não sou homem para grandes orações religiosas também não sou para grandes orações gramaticais: Serei breve. O Priorado convidou hoje, especialmente para vocês, um artista musical de renome mundial: Chama-se Pedro Abrunhosa e intercalará as suas actuações com as demais com que nos presentearão outras personalidades do mundo das letras e da música, aqui presentes. O Priorado deseja-vos uma boa noite e espera que se divirtam…

(Alguns convidados batem palmas… e Mr. Pain prossegue:)

Mr. Pain: – Muito se tem falado de uma possível pestilência com origem do México atingir rapidamente todos os continentes, todas as cidades, todos os lugares. Alguns de vocês sentirão porventura receio, outros nem tanto. Julgo que o tema musical que o Pedro Abrunhosa vai interpretar dentro de momentos poderá ajudá-los a reflectir sobre uma possibilidade devastadora que, por agora, ainda só contém medos e fantasmas… Convosco, Pedro Abrunhosa!

(Pedro Abrunhosa sobe ao palco e ouvem-se aplausos. A sala escurece até à meia-luz, enquanto que no palco ilumina-se a tela na parede, atrás do piano que já solta os primeiros acordes.)

(* Nota:  As maias são giestas de flores amarelas que, tradicionalmente, são colocadas nas janelas e nas portas das casas nas aldeias do norte de Portugal, contendo a superstição de, desse modo, impedir a entrada e afugentar bruxas e fantasmas.) 

(TO BE CONTINUED)

Era Uma Vez Um Sarau no Priorado (II)…

maias-II

(Pedro Abrunhosa acabou de cantar e uma chuva de aplausos eclodiu no salão do Priorado. Quando ainda se escutavam as últimas palmas, mais espaçadas,  Mr. Pain subiu novamente ao palco…)

MR. Pain:  O Priorado servirá em breve aos convidados  um belo assado de leitão, com salada de alface e champanhe…

(Entretanto, nas mesas:)

Nicolau: – O meu nariz de cozinheiro é infalível, meus amigos!

Amèlie: – Nicolás! Para teu bem, espero que tenhas o mesmo faro para os números da mega-sena… Barcelona! Barcelona! Barcelona!

Cora: – Que lindo! Você amanheceu generosa e ainda mais afável…rs

Nicolau: – As coisas perderiam muito da sua graça não fosse as fotos. O curioso é que, actualmente, é impossível ver uma foto bonita em preto e branco sem lembrar…de quem ??

RM: – Do negão que vem dando um verdadeiro show de bola, até o momento. Gente civilizada é outra coisa!

Tetê: – Sim, e usa camisinha sempre!

Geraldo: – Como era de esperar, as caminhadas não estão me fazendo nenhum bem. Talvez do ponto de vista teórico de uma medicina fracassada seja excelente, mas a prática…. putz.

Carol: – Ah, eu estava planejando… Eu estava aqui para lhes dizer uma coisa, mas desencanei. Deu uma preguiiiiiçaaaaa….

Mr. Pain (no palco): – … Mas antes disso, vamos para o segundo e terceiro grandes momentos da noite. É com muito orgulho que vos anuncio uma escritora excepcional que vem ler só para nós um dos seus sempre belos e sempre enigmáticos textos. Sintam-se, pois, nobremente privilegiados por poderem escutar o fantástico lirismo de… Eliana Mara!

(Eliana Mara apresentou-se no palco sob uma tempestade de palmas, vivas e assobios, uns  apreciativos, outros provocadores, de alguns convidados masculinos. Sorrindo e olhando a audiência, faz com as mãos gestos a apelar ao silêncio… E com a voz segura e bem colocada que ela tem, proferiu:)

Eliana: – Obrigado, obrigado!… Quanto aos provocadores, se forem briguentos…  Peço-lhes que continuem a brigar no quintal.

(Risos e gargalhadas ecoaram pelo salão…)

Eliana: – O texto que entendi recitar para vocês chama-se “Rainha” e é dedicado a todas as senhoras, mesmo àquelas que, por infortúnio ou por destino próprio, ainda não encontraram o seu rei…

- Vários convidados:  Bravo! Muito bem!

(O salão remeteu-se suavemente ao silêncio… Um foco iluminou aquela figura sublime – impressionante de tão segura de si, estacada no centro do palco – realçando a excelente presença que a Eliana tem. E ouviu-se Eliana com voz de rainha recitar de modo irrepreensível:)     

Eliana Mara:“O rei tem uma cama divertida. Janelas amplas e vista para um jardim luxuoso. À mesa do rei, as iguarias finas preparadas para nosso deleite. Um dossel e tecidos finos, servas mudas e artefatos para higienes. Meu corpo foi entregue e também minha alma. Não tenho pai que me proteja ou mãe que me abençoe. Estou a serviço do rei nesta cama divertida. Lá fora, um frio que pode matar e uma guerra sangrenta. Na cama do rei, durmo até tarde e saboreio as sobras desta maçã reluzente.”

(O salão estremeceu ao som de tantos louvores: eram palmas, eram gritos de júbilo, eram assobios, eram “bis”, eram “vivas”, eram “mais, mais”, eram imensos “olés” com entoação mexicana, tudo com uma estridência de ferir os ouvidos mais duros. Eliana curvava-se em vénia, agradecendo…)

Geraldo: – Estou com grave infecção no ouvido e nunca ouvi nada de tão belo!

Nicolau: – Aquela parte das “iguarias finas preparadas para o nosso deleite” é gastronomicamente inesquecível!

Homem de Azul: Por falar nisso, o belo leitão, vem ou não vem?

RM: – Ôpa! Sou chegado numa maçãzinha reluzente… rss…

Cora: – Sincronia perfeita de sensações internas… Lindo de morrer!

MR: – Parece que ouvi por aqui uns vírus mexicanos… Deixa-me cá ver quem está tomando tequila…

Geraldo: – Patrulhadores sempre há em todo o lado. Eu cá, tudo muito simples, muito tranquilo. Meu espaço não foi idealizado para ser denuncista, “patrulhador” dos atos e ações dos outros.

Avassaladora: – Um texto avassalador! Vírus avassaladores! Um reinado avassalador!

Tetê: – Repararam no detalhe dos “artefatos para higienes”?… O rei usou camisinha!

Capitu: Queridos! Eu reparei em tudo e gostei particularmente do modo como ela disse:Meu corpo foi entregue e também minha alma”.

Carol:- Ah, eu fiquei mergulhada no processo de colocar esse Ipod aí do lado… e ainda assim… Achei adorável!

Amèlie: – Parecia uma cama de um hotel em Barcelona:”Janelas amplas e vista para um jardim luxuoso”! E a rainha disse: “Na cama do rei, durmo até tarde”: é mesmo a minha cara!

Mara: – Dormir até tarde também é a minha cara! E “um dossel e tecidos finos, servas mudas”… Rsss… também!

(Os acordes do piano fizeram-se ouviram de novo, interrompendo os comentários. Pedro Abrunhosa estava sentado e preparava-se para o terceiro momento da noite…)

(PS. As palavras escrita a vermelho contêm, obviamente, links.)

(TO BE CONTINUED… SUNDAY, OK?…)

Era Uma Vez Um Sarau no Priorado (III)…

 carol-e-nicolau

(O tema musical de Pedro Abrunhosa extinguiu-se com as palavras “perdes-te comigo, porque o mundo é um momento” e pelo som de um piano tocando notas melancólicas. Houve menos palmas do que na actuação anterior e, nas mesas, os convidados logo recomeçaram a conversar e o leitão começa a ser servido:)

Cora: – O genial Pedro Abrunhosa, que se define como cantautor, está muito bem, mas eu cá estou a sentir falta de uma música mais alegre, mais ao estilo “brasileirinho”.

Carol: – Incrível! Agora você me colocou numa saia justa!

Mara: – Por falar em saia justa: Estou vestida de acordo???  Rs

RM: – Rss. Ou melhor: quaquaqua…

Mara: – Vou ficar quietinha…. Tá alguém usando todas as minhas falas…

RM: - Rss. Ou melhor: quaquaqua…

Carol: - Mara, o texto de você é muito bom para não ser linkado.

RM: - Rss. Ou melhor: quaquaqua…

Tetê: - Nossa, nem acredito que você escreveu isso! Mas… Ele usou mesmo?…

Carol: – Corro o risco de ser repetitiva e pior, parecer puxa-saco.

Tetê: - Você falou “ e Pior”?

Carol: - I rest my case, hehehe.

Mara: – Amo isso tudo aqui! Rs

Carol: - Resposta completamente witty.

RM: - Rss. Ou melhor: quaquaqua…

Cora: – Aguardo o momento da apresentação da poeta Sávia Gabi, a nossa Capitu, que por certo será também vivamente aclamada. Soube que ela até compôs um lindo samba, musicado pelo RM…

RM: - Rss. Ou melhor: quaquaqua…

Nicolau: – Eu cá aguardo mesmo é mais uns nacos do belo leitão!

Homem de Azul: – É isso, amigo! Falou!

Amèlie: E eu: Barcelona! Barcelona! Barcelona!

Patty: - Olha, um amigo meu disse que vai me levar ao Havaí. Então, retiro oficialmente qualquer reivindicação aqui pra essa viagem.

Nicolau: - Acabei de ver os números sorteados: Nem Havaí nem Barcelona…

Amèlie: - Barcelona! Barcelona! Barcelona!

RM: – Rss. Ou melhor: quaquaqua…

Patty: – Encontrarei vocês no Born para tomar vinho e comer os tapas deliciosos do Sagardi. Sempre é bom.

RM: – Rss. Ou melhor: quaquaqua…

Patty: - Por que está rindo, caboclo?

RM: – Ora, porque há uma grande diferença entre comer uns tapas deliciosos do Sagardi e umas tapas deliciosas do Sagardi… Rss. Ou melhor: quaquaqua…

Carol: - Hahahaha…. Adorável indeed!

Mara: - Quero saber mais… rs…

Carol: - Quem contaminou O Nicolau com a febre gastronômica fui eu, então mereço os créditos.

Geraldo: – Essa coisa dos créditos me fizeram recordar que nas caminhadas chego até a sonhar com o uísque…eh eh eh…

Tetê: – Conta, conta antes!

Geraldo: – Como não ligo para orientações médicas, a caminhada aqui citada é resultado de uma ansiedade renitente, de um desconforto (que esfria a barriga e nos joga como se fôssemos um feto na cama) que nada aplaca. Verdade que doses cavalares de soporíferos talvez melhorassem bastante a coisa, mas, igualmente, não estaria resolvendo nada. Quando penetramos no universo escuro e denso do estupor, muito poucas atitudes nos permitem passar “para o lado de cá”. Aliás, essa é a questão que se coloca: o que é exatamente o lado de cá e o lado de lá…

Tetê: - Nossa! Você faz caminhadas sem camisinha?

Geraldo: – Uso um sobretudo de lona.

RM: – Rss. Ou melhor: quaquaqua…

Tetê: - Nem acredito que você escreveu isso!

Geraldo: - Bem, por motivos que não devo revelar nesse instante, continuarei esse assunto no meu caderno azul n° B- 9.

Tetê: – Ah, até domingo?…

Geraldo: – Sim, tem gente mesmo que pensa isso.  Muita gente que me disse exatamente isso. Porque o brasileiro, claudicante ferrenho, de visão de mundo ou percepção do que é legal ou com o eterno problema de cognição dividi-se em 3 categorias: Quem só lê Paulo Coelho (eu gosto do Paulo Coelho e o que dizem da literatura dele é apenas despeito), quem só lê clássicos ou famosos e… os comunistas viúvos de Stálin que buscam nos títulos latinos algum resquício de ideologia.

Carol: – Importante, mesmo nos saraus!!!

Cora:  - Sim, o sarau. (Levantando-se da mesa, grita):  Mr. Pain! O próximo número musical, sim?

Mr. Pain (Subindo ao palco): – Senhoras e senhoras! Peço a vossa atenção, por favor!.. Vai ter lugar o quarto grande momento da noite! Todos sabemos que a dança é uma forma de representação que conta histórias ao vivo. Cabem neste propósito as sempre lembradas palavras de Cedric Hardwice, o qual referiu, e passo a citar, que “os bons actores e os bons dançarinos são bons por causa das coisas que nos conseguem dizer sem falar”. Será, portanto, um momento mágico, um momento que nos falará de amor sem ser preciso conversar sobre ele, um momento que nos remete ao sonho do amor de tão artístico que é.

O bailado é também uma forma universal de criar instantaneamente pontes entre as pessoas. Quantos pares de pessoas no mundo não viverão hoje felizes juntos só porque, um dia, uma delas convidou a outra para dançar?…

Alguns convidados: - Aprovado!

Mr. Pain: – … É pois com enorme orgulho que anuncio que o Priorado obteve a grande honra de reunir neste salão a presença de dois grandes intérpretes do bailado: Nem mais nem menos, em exclusivo e  fazendo as pontes entre nós, os consagrados Nicolau Olivieri e Carol Vaz!

(Todos os convidados erguem-se de pé, aplaudindo e aclamando os dançarinos. Nas mesas ouvem-se alguns comentários…)

Homem de Azul: - (baixinho:) O Nicolau?! Quem diria! Quem diria! (… e gritando:) Bravo, Nicolau! Bravo, amigo!

Patty: – Nem sei se a carol vai dançar mais com o Nicolau se com a quantidade enorme de leitão e champanhe no estômago!

RM: – Rss. Ou melhor: quaquaqua…

Mara: – Amo isso tudo aqui! Rsss…

(Carol e Nicolau aguardam a música e, diante um do outro, preparam-se para dançar… A música começa…)

Mara: -  Mara-vilhosos!

Homem de Azul: – São como a pele e a carne!

RM: - Rss. Ou melhor: quaquaqua… Colossais!

Tetê: – Aquela camisinha fica tão bem no Nicolau!

Cora: – Aiai!… Aiai!…

Geraldo: – Em vez das caminhadas irei aperfeiçoar os meus passos de dança!

Amèlie: – Nicolás! Nicolás!… You konw, You know, indeed!

Patty: – Que saudades de um punhal! São divinos!

(No final, o Priorado não veio abaixo por um triz. Carol e Nicolau foram ovacionados mais de quinze minutos, sem exagerar! Foi preciso que os acordes do piano se fizessem escutar para que os convidados se acalmassem. Pedro Abrunhosa já cantava “Pontes Entre Nós” e ainda se ouviam aplausos.)

(TO BE CONTINUED…)

Era Uma Vez Um Sarau no Priorado (IV)

Priorado

Cora: - Continuo a sentir a falta de uma música mais alegre, mais ao estilo “brasileirinho”.

Carol: – Sinto que isto por aqui está cheio de artimanhas…

RM: – Rss… Ou melhor: ah, deixa pra lá…

Mara: – Vou ficar quietinha….

Carol: - Eu dançaria sozinha, porque sou solitária convicta.

Avassaladora: - Estava a pensar em declamar um poema avassalador, mas…

Carol: - Nicolau dançaria com Ana K ou com o Homem de Azul, compreendes?

Avassaladora: – Que dica!

Nicolau: - Estou me sentindo mal…

Tetê: - Mal?… Como assim?

Nicolau: - Agoniado!

Capitu: – Eu também estou doente!

MR: – A gripe mexicana! A pandemia!

RM: – Rss… Ou melhor: ah, deixa pra lá…

Nicolau: - Eu dançando com o Homem de Azul?… Eu, um homem casado…

RM: - Rss… Ou melhor: ah, deixa pra lá…

Homem de Azul:  - Sinceramente, agora que estou com a barriga cheia, tô achando esse sarau uma pura artimanha…

Patty: – Tenho um amigo que me vai levar ao Havaí: Que faço aqui, hein?!

Cora: – Nem há música brasileira…

RM: - Rss… Ou melhor: ah, deixa pra lá…

Tetê: - E esse tal de Geraldo, usando sobretudo e falando de Stálin e dizendo bem de Paulo Coelho…

RM: – E eu que estava lendo um artigo sobre o Ataulfo na “Folha de São Paulo”…

Mara: - Também tem tudo sobre ele na Wikipédia, sabia?…

RM: – É mesmo?… Rss… Ou melhor: ah, deixa pra lá…

Todos os convidados: Vamos embora?…

Todos os convidados: Vamos!

Amèlie: - Esperem por mim, esperem por mim!

Mr. Pain: (no palco) - Agora vamos apresentar o quinto momento da noite…

Homem de Azul: – É isso, amigo! O da despedida!

Mr. Pain : – … Um momento poético, verdadeiramente avassalador!

Avassaladora: – Eu, hein?… Tô de saída!

Carol: - Aliás, estamos todos!

Patty: - O Havaí me espera!…

Amèlie: - Barcelona! Barcelona! Barcelona!

RM: – Rss… Ou melhor: Deixa pra lá…

Mr. Pain: (no palco) – No caso de mudarem de ideias… Haverá um strip-tease masculino, um desempenho fantástico do RM… 

Patty: - Encontrarei vocês no Born para tomar vinho e comer os tapas deliciosos do Sagardi. Sempre é bom.

Carol: –  Eu sou solitária!

Mr. Pain (no palco) : - Ou caso queiram reconsiderar… Serviremos também arroz de pato…

Nicolau: - Já reconsideramos! Esse leitão era suspeito, hein, Mr. Pain?

Tetê: – Deve ter sido fecundado sem camisinha!

Geraldo: - Bem, por motivos que não devo revelar nesse instante, continuarei esse assunto no meu caderno azul n° B- 10.

Carol: – Importante, mesmo após os saraus!!!

Mr. Pain: – Abrunhosa, toca qualquer coisa, rápido!

Pedro Abrunhosa: – Não escutou a letra daquela música que falava de garrafas vazias e do  café a fechar? Não estou mais aqui, vou com eles!

(O Priorado rapidamente despojou-se de gente. O panorama do salão não é agradável: vêem-se as mesas vazias, guardanapos no chão, pratos sujos, copos tombados, cadeiras desalinhadas, um palco abandonado, uma festa mal sucedida. Mr. Pain, lívido, olha Mr. Almost, impávido, com uma interrogação no olhar…)

Mr. Almost: - Não devia ter enganado os convidados, Mr. Pain. Aquilo era uma dança de salão, não era bailado.

Mr. Pain: - Só quis engrandecer o momento… Achas que eles notaram?

Mr. Almost: – Claro. Estes brasucas são muito antenados!… Acharam que era uma artimanha do Priorado…

Mr. Pain: – São mesmo! Fica tudo entre nós, ok?… O Pior Homem do Mundo não precisa de conhecer os detalhes… De resto, esgotamos o stock de leitões e de champanhe, nada mau!

Mr. Almost: – Combinado… Um por todos, todos por um.

Mr. Pain: – Vou colocar uma música no gira-discos… Não tem saudades do som do vinil?

Mr. Almost: - Nunca tenho saudades de nada, coloque o que lhe agradar, Pain…

(Mr. Pain colocou um disco de vinil no velho gira-discos, apontou cuidadosamente a agulha e um tema musical do século passado fez-se ouvir no salão do Priorado…

Nesse mesmo instante, numa ala altaneira do Priorado, o Pior Homem do Mundo observava pela janela o parque automóvel do Priorado vazio e escutava uma melodia longínqua que, saída da bruma, o fazia lembrar de outros tempos e do vazio que sentia naquele momento…)

Era Uma Vez Um Amigo Assim Amigo de ser Amigo…

Geraldo

Vou colocar a questão assim: Hoje senti-me um homem aproximado àquilo que sou realmente. Reconheço que não é fácil fazer com que me entendam, que me percebam, que me reconheçam. A primeira pessoa a conseguir essa façanha, fê-lo quase instantaneamente: a mulher aranha e rainha das imagens. Não preciso sequer de conversar com ela para saber que ela é minha amiga e acredito que ela pensa de forma idêntica. A segunda pessoa foi, curiosa e por coincidência, a primeira pessoa que me conheceu ao vivo e a cores: a Eliana Mara. Todavia, há outros (muito raros) que, ainda que não me conheçam pessoalmente, por serem mais sensíveis, mais atentos ou mais inteligentes, conseguem descobrir-me e chegar até mim: e, com isso, em vez de pensarem num homem ácido e agreste, pensam num homem bom, interessado e divertido, e vêem o amigo que atravessa os mares, preocupado e interessado em puros sentimentos fraternais.

Quer acreditem quer não, sempre fui assim e sempre serei assim, porque a questão que coloquei desde o início, se repararem, era “assim”. E é assim que, também eu, descubro pessoas boas, sensíveis, inteligentes, amigas e divertidas, enquanto meio mundo as julga levianamente ácidas e agrestes, e as votam deliberadamente ao desdém e ao esquecimento só porque são mais autênticas e verdadeiras do que aquele meio mundo consegue ser.

Obrigado amigo, obrigado Geraldo!

Era Uma Vez Um Sarau no Priorado (V)

 vulto

(No Priorado havia agora uma atmosfera de penumbras e um misto de miséria e tragédia pairava no ar… Os cachorros haviam ladrado toda a madrugada, invadindo a neblina de latidos e uivos lancinantes e trazendo à noite uma inquietude inesperada.

Por fim, amanhecia e a alvorada descobrira melhor aquele vulto que permaneceu toda a noite imóvel, acocorado por detrás da janela da torre de menagem do Priorado: Era um homem com uma compleição física que bem pode adjectivar-se de robusta, nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, nem novo nem velho; vestia-se com um elegante terno negro, que encobrira com uma capa para se resguardar do frio orvalhado que a noite tivera. Não fosse a particularidade de possuir o rosto verde e os olhos de uma estranha cor que resultava da mescla raiada do verde e do vermelho, e bem assim de ser parco de movimentos que expressassem os seus pensamentos, dir-se-ia um homem normal, capaz de passar despercebido em qualquer lugar.

O alarido dos cachorros intensificou-se à 6.30 da manhã, quando duas dezenas de viaturas policiais cercaram o Priorado. O vulto negro ergueu-se. E não mais mexeu um único músculo: manteve o rosto impenetrável, o olhar imperscrutável e a imobilidade tota, assistindo serenamente ao espectáculo das luzes azuis helicoidais e aos silvos das sirenes, à saída do interior das viaturas dos atiradores especiais, à formação de uma equipa tipo de corpo de choque e à correria de policiais armados para se entrincheirarem em locais estratégicos em redor do Priorado. Eram comandados por dois homens: um de gabardine castanha e um outro de casaco de cabedal cor de mel. Estes, ordenavam:)

Um: - Fechem a área! Não é permitido que alguém saia ou entre no círculo protegido.

O Outro - Quero mais homens a sul e as traseiras controladas. Abatam os cachorros que invistam contra qualquer elemento policial.  

(Segundos depois os gonzos soaram no interior do Priorado e Mr. Pain encaminhou-se para abrir a porta principal do Priorado:)

Mr. Pain: Bom dia, Senhores…

Um: -Bom dia, Mr…

Mr. Pain:Mr. Pain, o mordomo do Priorado, ao vosso dispor, senhores. Se vêm para assistir ao sarau, lamento informá-los que, inesperadamente, terminou… como dizer… de forma precoce. É claro, se desejarem tomar uma taça de champanhe e um pratinho de arroz de pato, teríamos todo o prazer de…

O Outro: - Estamos de serviço, não podemos ingerir bebidas alcoólicas.

Mr. Pain: – Que pena, como dizer… por um lado; Por outro, folgo em saber que há gente dedicada ao trabalho, gente que produz… E com tanto desemprego que há por esse mundo fora, ainda para mais, como dizer… com essa crise económica…

Um: – Deixe-se de conversa fiada e vamos ao que interessa…

Mr. Pain: – Sim, com certeza, ao que interessa a quem? Se é para vender aspiradores…

O Outro: – Rsss… Temos cara de vendedores de aspiradores, Mr. Pain?

Mr. Pain: – Para ser franco, foi apenas um palpite. Mas digam lá a vossa graça…

Um: - Inspector Intendente da Instância de Investigação Criminal, Ricardo Soares.

O Outro: - Sub-Inspector Intendente da Instância de Investigação Criminal, Chorik!

Mr. Pain: - Muito prazer em conhecê-los! Realmente o Sr. Ricardo é mais alto que o Senhor Chorik, bate certo! Se quiserem fazer um intervalo no serviço e tomar uma bebida, disponham…

Ricardo: – Somos da polícia, Mr. Pain!

Mr. Pain: – Ah… São?… Eu bem que suspeitei quando os vi a chegar em vinte viaturas com luzinhas azuis e sirenes, e tantos passageiros carregados de armamento a esconderem-se por aí… Só não entendi por que estavam com tantos receios… Parecia que vinham invadir a Tchetenia… e afinal, como dizer… vêm apenas visitar o Priorado…

Chorik : - Tivemos de tomar certas cautelas para “visitar” o Priorado.

Mr. Pain: - Compreendo perfeitamente o seu ponto de vista Sr. sub-Inpector: andam por aí muitos ladrões à solta. E já que abordei o assunto da ladroagem, fecharam bem as viaturas?… Não foi ao Sr. Ricardo, perdão, ao senhor Inspector Intendente, a quem furtaram um jipe há uns tempos atrás?… Hoje em dia todos os cuidados são poucos, senhores Intendentes, nunca se sabe…

Ricardo: - Não se preocupe com as viaturas. O Senhor Pior Homem do Mundo está?

Mr. Pain: – O senhor quê?… Quem é esse, hein?… E “está?”… Onde?…

Chorik : - Quem é o dono do Priorado, Mr. Pain?

Mr. Pain: – Bem, não tenho ido muito aos registos conservatórios prediais. Desde que…

Ricardo: – Trazemos um mandado de busca. Quem está dentro do edifício?

Mr. Pain: – Ora, essa é fácil: Eu estou à porta, como podem observar; E lá dentro está Mr. Almost, uma pessoa também muito séria, como dizer… honesta… assim como eu. Os restantes funcionários já se retiraram para os seus lares e encontram-se, provavelmente, a descansar.

Ricardo: - Provavelmente?… Como assim?…

Mr. Pain: - Bem, sou uma pessoa discreta. Provavelmente uns descansam, outros…. Ah, vocês sabem, não é?… L’ amour… 

Chorik : - E o Pior Homem do Mundo?…

Mr. Pain: - Rsss… O Pior Homem do Mundo?… Sei lá?!… Nunca o vi mais gordo, nem mais alto, nem mais novo. Isso, Senhores Intendentes, deve ser alguma lenda. Vocês sabem como é a imaginação das pessoas… Inventam cada coisa!…

Ricardo: - E um tal Mr. Canastrão, conhece?…

Mr. Pain: - Ui, se conheço! Ui! Conheço mais de uma dúzia a contar por alto: o RM, um; o Ghost Writter, dois; o Roney Mau, três… o Snowbros, quatro; o Ciro Gomes, cinco; os juízes do Supremo Tribunal, vinte e cinco; os Deputados… Ouçam: conheço tantos que, como dizer…  até lhes perco a conta.

Chorik: - Cuidado com o que declara à polícia, Mr. Pain!

Ricardo: – Bom, pelo menos a respeito do Ciro Gomes, o homem está certo, Sub-Inspector. 

Mr. Pain: - Desejam mais alguma informação?

Ricardo: - Além de si, desejamos interrogar Mr. Almost e fazer uma rusga no Priorado.

Mr. Pain: - Com certeza! Vou providenciar… Aguardem só um instante, enquanto pego na minha agenda…

Chorik: – Agora!

Mr. Pain: - Agora, agorinha? Jesus, é preciso ter azar! Justamente “agora” que temos o Priorado muito desarrumado. Vamos causar-lhes má impressão! Como lhes disse houve aqui um sarau ontem à noite e…

Ricardo: - … E tem hoje muita gente em mau estado de saúde.

Mr. Pain: - Não me diga! Ocorreu algum acidente rodoviário com os convidados?

Chorik: - Isso é segredo de justiça, Mr. Pain!

Mr. Pain: – Ah! Muito bem! Nesse caso… como dizer… Façam o favor de entrar… Não se esqueçam de limparem os pés à entrada. Sou eu quem tem de… como dizer… limpar a sujeira que os outros fazem, entenderam?…

(A um sinal do Inspector Intendente Ricardo, vinte homens mascarados avançaram e entraram no Priorado. Os Inspectores e Mr. Pain, secundaram-nos… )

Mr. Almost estava na sala-de-estar do Priorado, descontraidamente sentado a visionar um vídeo engraçado, quando os Inspectores chegaram com ares severos …)

Mr. Pain: – Almost, temos uns senhores da polícia que querem… como dizer… falar…

Ricardo: - Interrogá-los, Mr. Pain, interrogá-los…

Mr. Almost: – Na verdade, já os esperava há mais de uma hora, senhores. Atrasaram-se com a neblina ou não conheciam bem o caminho?…

 (TO BE CONTINUED)

Era Uma Vez Um Debate Sobre Um Compromisso…

Alguns factos lineares explicam o carácter controverso dos debates pessoais. No início há normalmente posições conciliáveis que possibilitam o debate, o diálogo, a conversação, mesmo quando existem duas formas diametralmente opostas de abordar o mesmo problema: percebe-se um momento de convergência, de compromisso, a altura estratégica para uma aproximação, e não tem nada de estranho assistirmos a desfechos satisfatórios, a vermos tais debates terminarem com o convite à cessação de hostilidades, a um aperto de mão, a um abraço conciliatório, ou até, simbolicamente, a um convite expresso para desfrutar os fumos do cachimbo da paz.

Mas nem sempre os debates têm um desfecho assim. Quando o sentido do debate deixa, numa fase extrema e transpirada do processo, de ser tendencialmente convergente e, pelo radicalismo e inflexibilidade, se deixam agudizar-se as divergências, o problema deixa de ser o cerne do debate, para ser o objecto do problema: deste modo, quando surgem discussões e antagonismos levados ao extremo e cada um dos beligerantes se coloca em campos antípodas, a argumentação torna-se inócua e patética, a revelação de uma incapacidade de comunicação mútua torna-se evidente e a contrariedade sistemática no estabelecimento de compromissos mostra-se uma consequência absolutamente natural, podendo ser vista como intransigência ou como tenacidade, dependendo da extremidade do telescópio moral em que os intervenientes se colocam ou do ponto de equilíbrio do balancé em que sustentam as suas posições.

Tomemos o exemplo concreto de um cidadão português que criou certo blogue, no qual três personagens convivem entre si e com a blogosfera, criam histórias, vivem aventuras, ficcionam factos humorísticos, relações romanescas e artefactos dramáticos, mantendo o autor a sua identidade preservada, o seu nome em sigilo e o seu dia-a-dia numa esfera pessoal e íntima, só desvendando essa redoma individual em casos que ele venha a considerar aceitáveis ou justificáveis. Inúmeros exemplos poderiam aditar-se-lhe: é o caso da “Amèlie”, da “K.”, da “Outra que Não Sou Eu”, da Sarah K., e de tantos outros. 

Tomemos o exemplo oposto, o do cidadão brasileiro Roney Cássio da Cunha Maurício, mineiro, residente em Belo Horizonte, economista e professor, casado e pai de um adolescente, que criou certo blogue, onde o personagem é ele mesmo convivendo com a blogosfera, oferecendo os seus raciocínios, as suas expectativas, as suas posições particulares e convicções pessoais em relação aos mais diversos acontecimentos sociais, políticos e culturais, expondo com exuberância grande parte da sua redoma individual e privada. Também inúmeros exemplos poderiam aditar-se-lhe: é o caso do Nicolau Olivieri, do Ricardo Soares, do Chorik, da Eliana Mara, do Marcos Rocha, e de tantos outros.

Os exemplos apresentados são nomeações típicas de como a personalidade dos respectivos autores se posiciona e se apresenta no mundo virtual, de que fazem parte os blogues; e a proficiência moral de cada leitor ou visitante conduz à capacidade de discernir o que é o quê, quem é quem, a razão do porquê, e ao compromisso de respeitar a individualidade alheia para ver a sua respeitada.

Na minha perspectiva, todos e cada um, têm o direito de se apresentar como entendam, como indivíduo concreto ou como personagem, e jamais cometeria a deselegância de trair covardemente a perspectiva doutrem de estar e conviver na blogosfera – de dizer, por exemplo, que Amèlie se chama Valéria Coelho, que a K. é na realidade Catarina Pardal, que a “Outra” é uma viúva chamada Armanda Leão, que a Sarah K. é a publicitária baiana Joaquina Perdiz. Por conseguinte, se aos exemplos precedentes assiste o direito de serem a personagem que entenderam por bem, também a mim me assiste, por igual prerrogativa, ser O Pior Homem do Mundo, Mr. Pain, Mr. Almost, Mr. Canastrão ou qualquer outro que eu resolva vestir-lhe a pele.

Os riscos que se correm ao não se alcançar um compromisso em qualquer questão ou debate, grande ou pequeno, não precisam de ser referidos. Há um provérbio italiano que refere ser preferível perder a sela a perder o cavalo, o que constituí uma sábia consideração para marcar o limite do risco e do compromisso, que, na melhor das hipóteses, deverá ser satisfatório para ambas as partes, dando a possibilidade a cada uma de usufruir o prazer de acreditar que conseguiu o que pretendia, ao mesmo tempo que não foi privada de nada que seja justamente seu.

Já fiz o apelo a esse compromisso, e repito-o uma última vez.

Assim como no “blogroll” do dito senhor brasileiro a Amélie continua a ser Amèlie, a K. continua a ser a K. e a Gi continua a ser a Gi, ao cidadão português não ocorre outra coisa que não seja observar ali um propósito de desrespeito e de ofensa, bem patente no facto de, contra a sua vontade expressa, o seu blogue seja apresentado como o de Mr. Leitão; ou, o mesmo é dizer que não lhe ocorre outra coisa senão a ideia que o seu direito a ser o que quer estar a ser vilipendiado.

Pouco importa ao incidente se o nome que o blogueiro brasileiro me atribuiu corresponda ou não ao meu nome de cidadão, pela simples razão que não escrevo aqui nessa qualidade nem nesse intuito. Nesse aspecto, os meus personagens conservam a sela e o cavalo das suas aventuras, ao passo que o blogueiro de nome próprio corre o risco de perder o cavalo, passando a montar a sela atada à personagem do “porcalhão peçonhento” ou do “cagãozito de Minas”, quero dizer, do Roney Mau.

Era Uma Vez Uma Explicação…

Cercado de mar

(Não tenho escrito aqui nada e não sinto necessidade de fazê-lo, por algum cinismo. Se escrevo, escrevo imaginariamente, transformando verbos comuns em predicados sarcásticos de belas orações, tornando artigos definidos – singulares e plurais – em sujeitos surpreendentemente ressabiados, e conforme as ocasiões e a minha estrita conveniência, escrevo mentalmente advérbios, adjectivos, conjunções e locuções coordenativas, adversativas, conjuntivas, etc., e mais uma data infinita de panóplias gramaticais: mas tudo numa perspectiva circunspecta e lacónica. E é assim que mantenho saudável e estimulada a minha normal actividade cerebral.

Não tenho aqui escrito nada e acredito que achem isso deplorável. E é! Estão cheios de razão! Podem pensar à vontade: “Que filho da puta, que não escreve nada!”, “Que grande cabrão, este calado! ”… Pouco me importa o que pensem de mim, porque o que pensam de mim não muda o que eu sou. Aos que me julgam uma boa pessoa, tipo santinho de deitar no altar, tenho a dizer: obrigado, mas enganaram-se! Aos que me julgam um grande safado e canastrão, calo-me diante desse juízo e da minha radiografia: Sou o Pior Homem do Mundo, com tudo o que o meu nome tem de implícito! E de bom, a bem dizer, tenho só a alma e, na morfologia, um fulgor sexual que já está tão desenvolvido que ultrapassa as capacidades físicas da carne – coisas que só eu posso sentir e ninguém pode ver porque não tenho intenções de mostrar.

Ademais, não tenho escrito nada aqui, porque pensar em escrever orações interessantes com predicados engraçados não é o mesmo que as escrever realmente ou até, de as dizer. Por exemplo, se eu pensasse numa frase muito simples e simpática para vocês lerem, como “O sol já se pôs e, sob a ponte, ainda irradia as águas de calor!” teria um certo sentido e um único significado para mim – que a pensei – e mil interpretações para quem a ouvisse ou lesse, caso a dissesse ou escrevesse. Sentir-me-ia, daí, incompreendido!

Não tenho aqui escrito nada porque o momento é de contenção: evito exteriorizar o meu sarcasmo. Claro, o momento não é tão literal nem tão simples assim: Como simulacro de todo o homem moderno também finjo que carrego a herança genética em não mostrar nenhum sinal de fraqueza, só para que pensem que sou humano e que tenho DNA, aquele ácido desoxirribonucleico que dizem permitir demonstrar todo o código genético de certo indivíduo, ou seja, dissecá-lo vivo sem necessidade de o autopsiar.

Destarte, até os cientistas sabem que tal tarefa é impossível no que respeita a um milhão de segmentos do indivíduo que escapam à ciência. Se eu, o Pior Homem do Mundo, mostrasse as minhas emoções e os meus sentimentos, eles os catalogariam e pensariam que estariam a ganhar, pelo conhecimento, o controlo da situação, e que, um dia, me fariam ser um ser humano quanto eles. A verdade, porém, é que para obter o controlo da situação teriam de me impedir que eu me auto-controlasse: pois sou eu quem deliberada e continuamente reprograma o código genético da situação para que esta fique controlada. Sou, no momento e essencialmente, um observador furtivo e afoito, que tenta sofregamente dominar determinado objecto e para isso tenho de desligar-me de emoções e das grandes exposições. É por isso que não tenho escrito aqui.

Não tenho escrito aqui também porque a polícia continua o cerco ao Priorado, traçando um perímetro que não posso transpor e toda a lógica do meu espírito está voltada para a resolução desse problema. Mr. Pain e Mr. Almost ultrapassam-se para entreter, como sabem e podem, os inspectores intendentes que me procuram, mas é a mim que cabe a decisão de carregar no botão vermelho que implodirá todo o edifício.

Também não tenho escrito aqui nada porque quando ia comprar tabaco uma moça estava a coçar o olho esquerdo com os nós dos dedos da mão direita. E eu perguntei-lhe: “Foi um mosquito?” e ela respondeu “Foi?” e eu retorqui “Pode ter sido” e ela avançou ”Você acha?” e eu disse “É uma hipótese”e ela se espantou “Uma hipótese?” e eu asseverei “Em teoria é um mosquito, na prática preciso ver seu olho” e ela consentiu “Então, veja se meu olho tem mosquito” e eu olhei para dentro do olho e confirmei “É um mosquito muito grande no seu olho”. Fiz intenção de fugir, mas ela me segurou o braço e pediu “É capaz de tirar?” e eu disse “Sou capaz de tudo” e ela suplicou “Me tira o mosquito muito grande do meu olho?” e eu que não tinha como não socorrer uma moça com um mosquito grande no olho disse “Tiro” e ela abriu o olho e eu tirei o mosquito e disse-lhe que “os mosquitos grandes causam grandes infecções, tipo dengue” e ela questionou “É mesmo?”  e eu não disse nada mas fiz um gesto afirmativo com a cabeça e ela perguntou “Tem como evitar a infecção grande?” e eu aproximei o meu rosto do dela e disse-lhe “Só lambendo de imediato” e ela me começou a lamber de imediato e que podia eu fazer contra uma língua contra os meus lábios?…    

Não tenho, por isso, escrito nada. Se escrevo é apenas em pensamentos para mim próprio, escrevo interiormente como se não tivesse a capacidade verbal de dizer-vos “o sol já se pôs e, sob a ponte,  ainda irradia as águas de calor”. )

Era Uma Vez o Interrogatório de Mr. Pain…

Mr. Charlie Pain (Mr. Pain)

(Mr. Pain está sentado numa cadeira no centro da sala de visitas do Priorado. Os Inspectores Intendentes Ricardo Soares e Chorik estão diante dele, também sentados, e tomam notas nos respectivos cadernos…)

Chorik: – Nome completo?

Mr. Pain: – Charlie Dolorousos Pain.

Chorik: - Dolorousos Pain?! Rsss…

Mr. Pain: (gritando) – Qual é o seu problema?! Não gosta?! A minha mãe gostava e …

Chorik: – Calma, não se enerve, gostos são gostos.… Profissão?

Mr. Pain: - Actual?… Mordomo do Priorado.

Chorik: – Que outras profissões teve?

Mr. Pain: – Chauffeur, militar, ladrão, artista de circo e muitas outras coisas mais… Até fui torturador-mor.

Ricardo: – Chauffeur e até o quê?!…

Mr. Pain: – Torturador-mor. Era eu o cérebro que imaginava os incentivos que deviam ser aplicados aos que se portavam mal.

Ricardo: – Torturador como aqueles gringos em Guantánamo?

Mr. Pain: – Sim, claro. Pensou que eu fazia tortas, como a D. Tetê?…

Ricardo: – Afogou algum detido?

Mr. Pain: – Não, nunca. Na maior parte das vezes apenas puxava orelhas e apertava os narizes aos bandidos… Era suficiente. Claro, fiz umas simulações experimentais com água, muito inocentes… Afogá-los a sério era tarefa dos carrascos. E nas electrocussões eu nem me aproximava dos botões… Assistia e mais nada.

Chorik: - Não tem remorsos do que fazia?

Mr. Pain: – Remorsos?… Não entendi, que é isso?

Chorik: – Uma espécie de reprovação da consciência por um acto praticado…

Mr. Pain: – Graças a Deus, que não sofro disso! Mas tenho colesterol, e queda de cabelo, sabiam?… E ando aqui com uma dorzita num queixal há cerca de dois dias…  

Chorik: – Não somos médicos Mr. Pain, somos polícias!

Mr. Pain: – Que casualidade! Tive um tio polícia! Era um tipo porreiro, barrigudo e tão corrupto que só visto! Uma vez ele…

Ricardo: – Não queremos saber do seu tio polícia, Mr. Pain! Qual a sua idade?

Mr. Pain: – Quarenta e quatro anos, nove meses e…

Ricardo: – Chega. Não precisa de contar até aos minutos…

Mr. Pain: – Desculpe Sr. Intendente. Só quis ser objectivo e colaborante.

Ricardo: – É o que pretendemos de si, Mr. Pain. Por falar em ser colaborante, quer fazer alguma declaração, digamos, de livre vontade?

Mr. Pain: – Claro que sim! Em primeiro lugar, através de mim o Priorado exprime o seu incomensurável orgulho em ter cá a polícia, na pessoa de vossas excelências. Na verdade, sempre fomos admiradores da polícia em geral e da vossa intendência em particular. Pela vossa presença no Priorado experimentamos um sentimento de segurança, sentindo-nos seguros e a salvo dessa gatunagem que anda por aí fora à solta a roubar e a matar enquanto dezenas de polícias têm a nobre preocupação de guardar o Priorado com o brio e a competência que lhe é reconhecida. Naturalmente, o Priorado agradecerá os vossos preciosos préstimos condignamente, mas faz questão que os senhores se considerem verdadeiros hóspedes desde o primeiro instante. Se quiserem trazer as famílias e os cachorros, o Priorado estará ao vosso dispor para acomodar todos… de forma caprichada. Em segundo lugar…

Ricardo: – Páre com isso Mr. Pain! Estamos aqui numa missão de investigação, não estamos de férias!

Mr. Pain: – Que pena! Iam com certeza gostar de…

Chorik: – Vamos ao que interessa. Onde se encontra o Pior Homem do Mundo?

Mr. Pain: – Quem?… Importa-se de repetir?… Esta cera nos ouvidos…

Chorik: – Temos a certeza que ele está aqui!

Mr. Pain: – Ele quem?

Chorik: – O Pior Homem do Mundo!

Mr. Pain: – Verifico que a polícia sabe, o que é natural, mais do que eu. Já agora, também eu gostaria de saber quem é esse Homem do Mundo Pior…

Chorik: – Pior Homem do Mundo, é assim que é conhecido.

Mr. Pain: – Se têm conhecimento que ele se encontra aqui, qual é o vosso problema?

Chorik: – Não conseguimos encontrá-lo, esse é que é o problema!

Mr. Pain: – Que chatice! Sabem que ele se encontra aqui e não o encontram. Um dilema caracteristicamente policial, de facto. Se eu puder fazer alguma coisa para vos ajudar, é só pedirem-me…

Ricardo: – Deixe de ser cínico, Mr. Pain! Você esteve presente no Sarau?

Mr. Pain: - Sim, sim, fui eu o apresentador! Adorei! Nunca tinha feito nada assim, tive de improvisar…

Ricardo: – Esteve, portanto, no palco – um lugar privilegiado para observar a sala… Notou algo de estranho em algum convidado?

Mr. Pain: – Deixe-me pensar… Hum… O RM!

Ricardo: – O RM? Que observou no RM?

Mr. Pain: – Estava muito nervoso. E ria-se assim: “Rssss. Ou melhor: Quaquaqua!”

Ricardo: – Na sua experiente opinião a que se devia esse nervosismo?

Mr. Pain: – Ele estava a ser literalmente avassalado!

Chorik: – Pelo Pior Homem do Mundo?

Mr. Pain: (levantando-se indignado) – Justos céus! Isto é uma casa séria, vejam lá o que insinuam, hein? Se quiserem que eu colabore sejam educados! Pensam que isto é a da Joana ou quê?… Exigo respeito, muito respeitinho, senão temos o caldo entornado!

Chorik: – Calma, calma, não tivemos intenção…

Mr. Pain: – Não me interessa a intenção, mas o que pretendiam que ficasse subentendido na infame insinuação que fizeram. Já me estão a irritar! E não fiquem a olhar-me com ar de parvalhões, porque não gosto! Se tornarem a ser mal-educados, já sabem, sujeitam-se às consequências. Ide ser malcriados na vossa terra!

Ricardo: Mr. Pain, creio que nos interpretou mal e…

Mr. Pain: Eu o quê?! Interpretei mal o quê, hein? Querem dizer que sou burro, que interpreto mal o que ouço? É preciso ter lata! Ouçam bem, seus polícias de meia tijela… 

Chorik: – Calma, Mr. Pain… Há aqui um mal entendido…

Mr. Pain: – Mal entendido era o seu primo, seu imbecil! Mal entendido como, hã?.. Quer dizer que eu entendo mal e que…

Chorik: – Só quis dizer que…

Mr. Pain: – … Bem sei o que quis dizer ou pensa que sou alguma anta epistemológica?   

Ricardo: – Calma, calma, por favor! Estávamos a falar do RM e da Avassaladora… e Mr. Pain referiu que o RM estava a ser avassalado. 

Mr. Pain: – Literalmente!

Ricardo: – Que quer dizer com isso? 

Mr. Pain: - Que a Ava dirigia ao RM luxuriosos olhares convidativos, sorrisos insinuantes e bombardeava-o com beijos avassaladores!

Ricardo: – E ele, o RM, amarelou?

Mr. Pain: – Não, senhor, pior do que isso! Azulou! Ficou com a cara toda azul turquesa!

Ricardo: – Não me diga!

Mr. Pain: – Não digo?.. Que polícia é você?… Então não foi você quem perguntou?

Ricardo: – Sim, sim, era uma força de expressão… Como explica essa alteração na coloração da pele facial no RM?

Mr. Pain: – Na minha modesta explicação, tal reacção devia-se à presença de outra convidada. O Senhor RM, sentia-se incomodado, como que no meio de dois exércitos de um campo de batalha…

Chorik: - Pode nos informar quem era essa convidada?

Mr. Pain: - Obviamente! Era a canhoteira.

Ricardo: – Quem diabo é a canhoteira?

Mr. Pain: – “Quem diabo”?… “Quem diabo”?!… Se pensa que pode ofender os convidados do Priorado, está muito enganado, Intendente! Diabo é o Ciro Gomes! Ou pelo menos, é caloteiro! Muito diferente de canhoteiro!…

Ricardo: – Desculpe! Só pretendia conhecer o nome da canhoteira.

Mr. Pain: – É uma dama muito culta e muito inteligente. Chama-se Cora. Ainda há dias, e digo-o com vaidade, ofereceu-me um vídeo do Youtube chamado “I Try”. Querem ouvir?…

Ricardo: - Em outra altura teremos todo o gosto de ouvir! Que mais observou de estranho na noite do sarau?

Mr. Pain: – O MR tinha um ar longínquo, como se estivesse a pensar apaixonadamente em algo muito distante…

Chorik: – Muito distante? Longínquo?… Em que é que ele estaria a pensar, no seu entendimento Mr. Pain?

Mr. Pain: - Não tenho a certeza, claro! Embora ele falasse muito no México e em mexicanos, creio que os seus pensamentos estavam na Áustria!

Chorik: – Na Áustria? Porquê na Áustria?

Mr. Pain: – Descobriram lá uma vagina, perdão, uma escultura com xoxota datada de há 26 mil anos atrás!

Ricardo: – Realmente eram pensamentos longínquos! E o senhor MR gosta dessas coisas tão antigas?

Mr. Pain: No que respeita a esse assunto o senhor MR gosta de todas, incluindo as de vinte e seis anos. É um eminente xoxotólogo, reconhecido internacionalmente!

Chorik: – Não havia na sala um homem que falava num caderno com um número estranho?

Mr. Pain: – O Geraldo! Não se metam com o Geraldo, hein?..

Chorik: – Por que não?

Mr. Pain: – Porque eu não quero e ponto final!

Ricardo: – Pretende condicionar a acção policial, Mr. Pain?

Mr. Pain: – Só pretendo avisar-vos e quem vos avisa vosso amigo é! Tenho a certeza que o senhor Geraldo não vos quer ver nem pintados, portanto…

Ricardo: – Deixemos o senhor Geraldo! Que mais de estranho observou no sarau?

Mr. Pain: – Bem, achei na globalidade as conversas algo desconexas, algumas pessoas até pareciam não ter sentido naquilo que diziam…

Ricardo: – Como se as pessoas estivessem embriagadas ou drogadas?…

Mr. Pain: – Exactamente! Pareciam que falavam de coisas diferentes e, contudo, entendiam-se.

Chorik: – Concentremo-nos em Mr. Almost…

Mr. Pain: – Quer que feche os olhos para me concentrar melhor?

Ricardo: – Não seja impertinente, Mr. Pain. Como se comportou Mr. Almost durante o sarau?…

Mr. Pain: – Prometem que aquilo que eu disser fica entre nós?

Ricardo e Chorik: Prometemos!

Mr. Pain: – Juram pela alma dos vossos antepassados?

Ricardo e Chorik: – Juramos!

Mr. Pain: – Então batam com a mão direita aberta um no outro e digam cinco!

Ricardo e Chorik (batendo as mãos): – Cinco!

Mr. Pain: – Mr. Almost passou a noite com um olho no peixe e outro no gato!

Ricardo e Chorik: – Não entendemos!

Mr. Pain: – Que tansos que vocês me saíram! Mr. Almost passou a noite com um olho numa convidada e outro olho em outra!

Chorik: – Mr. Almost é vesgo?

Mr. Pain: – Quando é preciso!

Ricardo: – E que convidadas eram essas?

Mr. Pain: – Lamento, mas não posso depor sobre assuntos do foro privado de cada um. O Priorado sempre primou pela sua discrição…

Ricardo: – A polícia também, Mr. Pain. Temos até um código de conduta que garante sigilo absoluto…

Mr. Pain: – Não insista, Intendente. Serei uma múmia a esse respeito.

Chorik: – Lembramos que o senhor está a ser interrogado, Mr. Pain!

Mr. Pain: – E daí? Vão torturar-me, vão? Ahahahaha!…

Chorik: – Podemos detê-lo e conduzi-lo à prisão.

Mr. Pain: – Perdão! Há aqui um equívoco!

Ricardo: – Um equívoco?… Que equívoco?

Mr. Pain: – Vocês ainda não perceberam que são reféns do Priorado?

Ricardo: – Reféns?

Mr. Pain: – Sim, sim, reféns! Se tentarem sair serão eliminados!

Chorik: – Ai a minha rica mulher! Ai os meus ricos filhos!

Ricardo (Ligando o celular): Está a falar a sério? Alô Central… Alô Posto 2? Alô?!!!…

Mr. Pain: – Dois e dois?

Ricardo: – Quatro! Ninguém responde, fomos isolados!

Mr. Pain: – Os nossos homens já anularam o perímetro policial. Todos os policiais estão sob nosso controlo.

Ricardo: – Todos?

Mr. Pain: – Todos!

Chorik: – Ricardo, acho que ele está a falar sério.

Mr. Pain: Mr. Almost pretende interrogar os senhores Intendentes.

Ricardo e Chorik: Nós vamos ser interrogados?

Mr. Pain: – Sim, por Mr. Almost.

Ricardo: – Essa é boa!

Chorik: – A polícia a ser interrogada? Que vem a ser isto?!!

Mr. Pain: – É simples: a caça voltou-se contra o caçador.

Ricardo: - Isto não pode estar a acontecer! Ainda não acredito…

Mr. Pain: – Acredite se quiser. E advirto-os que o Pior Homem do Mundo esteve todo este tempo a escutar-vos. Temos microfones espalhados estrategicamente na sala.

Chorik: – O Pior Homem do Mundo?! Afinal ele sempre está aqui.

Ricardo: – E escutou tudo!

Mr. Pain: – Claro! E não está muito satisfeito com a vossa atitude…

Chorik: – É verdade que ele é verde?

Mr. Pain: É um marciano… E um bocadito maquiavélico…  Enquanto Mr. Almost não chega, tive a lembrança de proporcionar-vos um filme, através do qual poderão conhecer-me melhor e aproveitar o tempo de espera. Tomem apontamentos e se cuidem!

(Entretanto) Era Uma Vez Num Local Secreto…

Pior - 1

Olá, terráqueos!..  Tal como a polícia, andam à minha procura, não é?… 

Pior - 2

Please, esperem!… Gostaria de recebê-los com todas as etiquetas…

Pior - 3

E oferecer-vos de bom grado e para se divertirem o meu Priorado!

Pior - 4

Não têm muito receio de mim, pois não, suas antas apavoradas?…

Pior - 5

Rss… Julgavam que os receberia à marretada, seus medricas?…

Pior - 19

Mas que péssima ideia fazem de mim, hein, seus desconfiados?…

Pior - 6

Afinal, sou apenas um ser simples, delicado e bem comportado…

Pior - 7

Talvez com um acentuado pendor romântico por vezes exagerado…

Pior - 18

Mas isso é porque tenho uma personalidade igual à do perdigueiro…

Pior - 7

Sempre pronto à pegada, à caçada de sensações fortes e doces…

Pior - 8

Mas, apesar de farejar mil e um cheiros, no fundo procuro um só:

Pior - 9

O da gazela que perceba nos meus passos uma vida que dança.

Pior - 10

Enquanto não a encontrar… Continuarei alegremente procurando…

Pior - 11

Com o coração a rebentar pelas costuras grandes e bons sentimentos…

Pior - 12

E com outras coisas grandes de que ninguém deverá reclamar… Rsss…

Pior - 13

Claro, claro! Para isso tenho de ser criativo, interessante e divertido,

pior - 14

… E um tanto ousado e dramático quando a situação o exigir!

Pior - 15

Apesar de até aqui  não ter  logrado o objectivo de amar e ser amado…

Pior - 16

Ainda tenho alguns recursos bacanas de que me posso socorrer!

O pior - 19

Mas, intrinsecamente, sei que um dia terei de retirar a máscara.

So… Until!

Era Uma Vez o Interrogatório Aos Intendentes…

Mr. Almost  

(Os Inspectores Intendentes Ricardo Soares e Chorik estão agora sentados no centro da sala, onde antes Mr. Pain fora interrogado. Mr. Almost chega e observa sem uma palavra os inspectores. Serve-se de um martini, adiciona-lhe uma porção de vodka e junta duas pedras de gelo. Por fim, senta-se diante dos inspectores, ocupando agora a cadeira onde outrora estivera o Inspector Ricardo Soares. Mr. Pain assiste, com passividade).  

Mr. Almost: – Bom dia, senhores Inspectores.

(Ricardo e Chorik não correspondem ao cumprimento, mas fazem assentimento com a cabeça.) 

Mr. Almost: (agitando suavemente o copo) – São servidos ou continuam em serviço?

Chorik: - Estamos em serviço oficial, não podemos beber.

Mr. Almost: – Caso venham a mudar de ideias, serão servidos sem ser oficialmente.

Chorik: - Muito obrigado. Nesse caso, tomo uma caipirinha de sakê!

Ricardo:(com ar de reprovação) Não pode beber Sub-Inspector! Está em serviço!

Chorik: – Sou um refém, já não estou em serviço.

Ricardo: – Registarei a sua infracção Sub-Inspector Chorik!

Chorik: – Pode registar o que quiser: alegarei que a situação era de tensão extrema.

Mr. Almost: – Mr. Pain?… Queira fazer o obséquio de servir o Sub-Inspector.

Mr. Pain: - Com todo o prazer, Mr. Almost. Eu é que estou oficialmente ao serviço!

Mr. Almost:(adquirindo um ar mais sério e mais grave) – Senhores Inspectores: Gostaria que me explicassem o motivo intimamente relacionado àquele que acabamos de conversar: Por que razão vieram em serviço oficial ao Priorado?

Ricardo: – Isso é sigilo policial e não podemos revelar.

Mr. Almost: (acendendo um cigarro) – Muito bem. Importam-se que fume?..

Chorik: – Bem… Não, não…

Mr. Almost: (Expelindo fumo na sala) – Obrigado. O fumo do cigarro ajuda-me a recordar o sucedido. Recapitulemos então os acontecimentos: O Priorado promoveu e ofereceu um sarau músico-cultural a uns tantos convidados. Tudo decorria normalmente, até ao momento – súbito e de razões desconhecidas – em que os convidados deixaram inesperada e apressadamente o Priorado. Poucas horas depois assistimos à chegada do maior aparato policial que o Priorado jamais imaginou: Mais de vinte veículos com sirenes estridentes e luzes azuis helicoidais, um corpo completo de polícia de choque, uma equipa de atiradores especiais, meia dúzia de pastores alemães… Ao todo, mais de cinquenta elementos policiais que fecharam todas as saídas e entradas do Priorado, cercando-o num perímetro intransponível. Tudo o que gostariamos de entender é porque isso sucedeu.

Ricardo: – Como lhe referi, isso é sigilo policial.

Chorik: – O que nós gostariamos de entender é como o Priorado conseguiu anular as nossas  forças, os melhores elementos da elite policial, experientes e bem treinados, estrategicamente dispostos e…  

Mr. Almost: - Não foi o Priorado quem fez isso Sub-Inspector. Foi apenas um homem.

Chorik: – Impossível! Contrataram o Rambo?! Ahahahaha!…

Mr. Pain: – Senhor Chorik … O Pior Homem do Mundo!

Chorik: – O Pior Homem do Mundo?… Sozinho?… Pagaria dez reais para ver! Ahahahaha!…

Mr. Almost: – Mr. Pain, sirva outro sakê ao Sub-Inspector e faça-lhe a vontade.

Mr. Pain: – Com certeza, Mr. Almost…

(Mr. Pain serviu ao Sub-Inspector uma nova caipirinha de sakê. Calmamente, puxou uma tela da parede e ligou o projector…)

Mr. Pain: – O Priorado gravou as imagens das câmaras do exterior. Vejam! 

(Os Inspectores assistem às gravações…)

Chorik: – Por Buda! Se Deus é brasileiro, o Diabo é cuba-marciano! Como ele conseguiu aquilo?

Ricardo: – Aquele helicóptero que apareceu no ar não era nosso!

Mr. Pain: – Sim, claro que não era vosso. Era nosso. Foi utilizado para lançar, sobre o vosso perímetro policial, um composto químico que provoca histeria colectiva.

Mr. Almost: – Mas isso são águas passadas, senhores Inspectores. O que vos trouxe aqui?

Chorik: – Recebemos uma chamada telefónica na central, comunicando-nos que no sarau do Priorado aconteciam graves ocorrências que colocavam em risco a saúde pública.

Ricardo: – Cale-se, Chorik! Não pode violar o sigilo policial!

Mr. Almost: – O autor da chamada identificou-se, Inspector Chorik?

Chorik: – Não foi um autor, Mr. Almost. Foi uma autora: uma senhora!

Mr. Almost: – Por acaso essa senhora não tinha um sotaque próximo ao espanhol, assim qualquer coisa entre o espanhol do Peru e o espanhol do Chile?

Chorik: Precisamente, Mr. Almost! Como descobriu?…

Ricardo: – Sub-Inspector, entregue-me o seu distintivo, imediatamente!

Mr. Almost: – Inspector Ricardo, o senhor Chorik não está em serviço, de momento.

Chorik: – Exactamente! Não tenho de obedecer a ordens!

Mr. Almost: – Por conseguinte, foi em virtude dessa chamada que se precipitaram para aqui.

Chorik: – Sim. Eu também achei a missão precipitada e exagerada, mas o Inspector Ricardo entendeu que era necessária.

Mr. Almost: – Inspector Ricardo: O Priorado tem conhecimento que, recentemente, o senhor considerou os pedágios até Ribeirão Preto muito fora de preço…

Ricardo: - Um verdadeiro absurdo! É impensável que quem queira fazer um passeio…

Mr. Almost: – Consegue explicar por que razão uma pessoa que está a maior parte do tempo na zona sul do Rio de Janeiro, com quilómetros de passeio atlântico e de macio areal onde pode caminhar e passear gratuitamente; ou uma pessoa que, residindo oficialmente em São Paulo, tendo aí enormes espaços públicos e verdes como é exemplo o Parque do Ibirapuera ou o Jardim da Luz, gratuitos e adequados ao lazer, decide fazer uma viagem de mais de trezentos quilómetros até Ribeirão Preto, atravessando duas dezenas de pedágios que tem de pagar?

Ricardo: – Não tenho de lhe dar satisfações das coisas do meu foro íntimo e estritamente pessoal. Mas é do conhecimento público que fui visitar familiares.

Mr. Almost: – Claro que não tem. Na verdade, também não quero saber da sua vida pessoal. A questão que lhe queria colocar era se dormiu bem por lá…

Ricardo: – Ah, sim, muito bem, obrigado!

Mr. Almost: – Há uns tempos atrás havia em Ribeirão Preto uma hospedaria onde se repousava lindamente…

Ricardo: – E?…

Mr. Almost: – … E fechou subitamente portas.

Ricardo: – Com esta crise mundial não é de estranhar. Há imensos estabelecimentos que não conseguem resistir.

Mr. Almost: – Além disso, ao que parece, ninguém conhece o actual paradeiro da dona da hospedaria.

Chorik: – Não estará em Barcelona?

Mr. Almost: - Duvido. O “Nicolás” falhou os números da mega-sena…

Mr. Pain: – … Infelizmente.

Chorik: – Mr. Almost, se eu contar a verdade da nossa vinda aqui, o Priorado libertar-nos-á?

Mr. Almost: – Tem a minha palavra. Libertarei, inclusive, também todas as vossas forças policiais.

Chorik: – Perdido por dois, perdido por três. Servem-me mais um sakê?

Mr. Pain: (com uma taça de sakê na mão) – Já estava providenciado, Sub-Inspector! Aqui tem!

Ricardo: – Chorik, veja lá o que vai dizer! Advirto-o que…

Chorik: – Isto é que é eficiência! Obrigado, Mr. Pain!

Mr. Pain: – É um prazer servi-lo Sub-Inspector!

Chorik: – Mr. Almost: Após recebermos a chamada telefónica da referida senhora, contactamos os hospitais da zona e obtivemos informações da hospitalização de alguns dos vossos convidados. A Capitu teve de ser operada ao nariz! A Eliana Mara tinha vestígios de queimadelas nos braços e nas pernas! A “Outra” pegou gripe! O senhor Geraldo Iglesias começou a ler um best-seller, coisa que nunca tinha feito! A Amèlie nunca mais foi vista! O Marcos Rocha ficou tão baralhado das ideias que se dedicou durante alguns dias a estudar  “vaginálias” com mais de 26 mil anos! O senhor RM sentiu-se aborrecidíssimo, tanto que disse que nunca mais voltava aqui! A Avassaladora, além de se recusar a declamar um poema da sua autoria, referiu que vocês eram “meio-bravos” e que vos receava! A Tetê ainda hoje sofre com os pesadelos com as vossas confusões! A Carol confessou expressamente que contaminou o senhor Nicolau com febre gastronómica… Isto para não entrar em mais detalhes…

Mr. Almost: – Estou a entender…

Chorik: – Todo esse conjunto de factos concretos e irrefutáveis, criaram a forte convicção de que haveria aqui um foco de “influenza” da peste suína, tanto mais que o Priorado serviu um leitão assado aos convidados. Ora, onde há um leitão, pode haver dois, ou três, não é?

Mr. Pain: – Parece-me um raciocínio razoável do ponto de vista policial.

Chorik: – A função da polícia não é somente repressiva. Devo dizer que, em prol da verdadeira propriedade, é até fundamentalmente preventiva.

Mr. Almost: – Concordo plenamente!

Chorik: – Por isso, quando tomamos conhecimento que o Priorado se preparava para servir arroz de pato, pensamos logo que o Priorado iria propagar a gripe das aves aos seus convidados, potenciando uma pandemia de gripe suíno-avícola sem precedentes na história da humanidade…

Mr. Almost: – Vejo que a polícia nos tem em muito boa conta…

Chorik: – … E como o Inspector Intendente Ricardo é um homem muito cioso de tudo quanto respeita ao bem da humanidade, achou por bem agir imediatamente, prendendo o Pior Homem do Mundo, principal suspeito dos prováveis atentados, até que a situação se esclarecesse.

Mr. Almost: – Muito bem… Nas averiguações feitas, encontraram algum indício que sustentem as vossas suspeitas?

Chorik: – Na realidade, não. Neste momento, estamos convictos de que tudo não passou de um falso alarme desencadeado por um telefonema e uma mera coincidência de sucessivos e arreliadores acontecimentos fortuitos.

Mr. Almost: – Então, está tudo esclarecido?

Chorik: – Sem dúvida! Pretendemos tão-somente que permitam a nossa retirada.

Mr. Almost: – Façam o favor! Afinal, tudo não passou de um mal entendido…

Chorik: – Sim, sem dúvida. Apresentamos as nossas desculpas ao Priorado e bem assim ao senhor Pior Homem do Mundo.

Mr. Almost: – Considere-as aceites. Podem ir em paz. Boa noite, senhores.

(Ricardo Soares e Chorik abandonaram rapidamente o Priorado… Por detrás da janela da torre de menagem do Priorado, um homem com uma compleição física que bem pode adjectivar-se de robusta, nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, nem novo nem velho, vestido com um elegante terno negro, observava placidamente os Inspectores a reunirem os seus homens para a retirada. Não fosse a particularidade de possuir o rosto verde e os olhos de uma estranha cor que resultava da mescla raiada do verde e do vermelho, e bem assim de ser parco de movimentos que expressassem os seus pensamentos, dir-se-ia um homem normal, capaz de passar despercebido em qualquer lugar. Na sala do Priorado, Mr. Almost e Mr. Pain tomavam uns martinis “estupidamente gelados” enquanto escutavam música e conversavam pacatamente entre si:)

Mr. Almost: – É verdade que não sente remorsos, Mr. Pain?

Mr. Pain: – (imitando o depoimento) – Remorsos?… Não entendi, que é isso?…

Mr. Almost: – Rsssss!… “Uma espécie de reprovação da consciência por um acto praticado”…

Mr. Pain: – Ahahahaha!… Acha que eles acreditaram que o Pior Homem do Mundo é aquele “mostrengo” que lhes mostramos no vídeo alugado na videoteca aqui do lado?

Mr. Almost: – Acho que sim! Rsss…

Mr. Pain: – Agora aquela chileninha… Putz! Vou lhe contar, hein?…

Mr. Almost: – Deixe-a seguir o destino dela em paz, Mr. Pain! Era uma borboleta que não sabia se devia voar, se pousar as patitas no chão… Ela até gostava de si, sabia?…

Mr. Pain: – De mim?…

Mr. Almost: – Aham!… Disse-mo uma vez…

Mr. Pain: – Quando?

Mr. Almost: – Contarei para você outro dia. Agora, vou descansar…

Mr. Pain: – Boa noite, Almost!

Mr. Almost: – Verifique as portas, Pain.  Boa noite!

(Mr. Almost retirou-se… Mr. Pain continuou sentado, escutando música e falando consigo mesmo:)

Mr. Pain:“A borboleta pousada
                      ou é Deus
                      ou é nada.”  

                     Essas moças,  Adélia Prado e  Cora,  sabem das coisas!…  

Era Uma Vez Uma Infâmia e Duas Homenagens…

Saudades de um Punhal

Tinha prometido a mim mesmo que só voltaria a escrever quando alcançasse a marca recorde de trinta comentários num único post. Como o objectivo foi cumprido, eis-me aqui, respeitando a promessa.

(Aposto que acreditaram!… Rsss… Que gente mais inocente, Jesus dos Céus!…)

Adiante!  Têm chegado ao Priorado preciosas informações secretas que indicam que este inocente e pacato “recinto” é suspeito de conter material classificado como impróprio, razão pela qual o administrador da rede vem negando o acesso a muitos visitantes, até àqueles cuja pacatez e inocência, colocadas numa balança de precisão digital, não pesariam uma milésima de grama.

(Uma infâmia!…)

A declaração oficial do Priorado é a de que não conhecemos pessoalmente o tal “administrador da rede” que classificou o Priorado como um antro de impudências e de obscenidades, não sabemos se é uma instituição com ligações à União Mundial dos Pudicos e Castos, e desconhecemos qual é “o limite de frases ponderado” que não podemos ultrapassar. Se o administrador não gosta de ler longas frases bem construídas, é uma coisa: que não leia; Se tem de ler tudo para encontrar uma xoxota num palheiro e isso lhe dá muito trabalho, poderia ter avisado, que o Priorado, sempre atencioso e colaborante, arranjaria maneira de resolver-lhe o seu problema, por exemplo, colorindo tais palavras para ele as descobrir com facilidade.

(… Uma homenagem:)

Enquanto isso, por circunstâncias absolutamente coincidentes a Tetê está, e muito bem,  a abordar no seu Blogue o tema da depilação masculina. Mr. Almost, emissário do Priorado, já colaborou, transmitindo que os homens do Priorado se barbeiam quase diariamente, logo pela manhã, mantendo os seus rostos perfeitamente escanhoados e cheirosos. Naturalmente, não podemos deixar de concordar com a alusão da Tetê segundo a qual, em relação à depilação feminina promovida pelo RM, “Mr. Almost já despontava por lá, se dizendo expert no assunto!”.

Contudo,  também não podemos ficar indiferentes e insensíveis: chegou o momento oportuno de Mr. Almost fazer uma confissão: Os membros do Priorado são fortes adeptos da prática da depilação masculina – aquela em que eles fazem, com as suas próprias mãos masculinas e com todo o gosto, nos corpos femininos.  

(… E outra homenagem:)

O “administrador da rede” que nos desculpe o facto de termos colocado a imagem com que ilustramos este texto. Se acaso julga a mesma obscena  e que serviu o propósito de afrontar a pudica administração da rede, desde já desengane-se! Só pretendemos homenagear a Tetê e a depilação masculina (no sentido acima exposto) e, associando o útil ao agradável, homenagear também a Carol, porquanto, numa altura em que as julgávamos perdidas, finalmente alcançamos as razões por que ela sente “saudades de um punhal”.

(Comunicado final:) 

 - Sr. Administrador! Façamos um compromisso: O senhor “administrador de rede” fixa os olhos no punhal para não se sentir ofendido, enquanto nós fixaremos os olhos na espuma e “naquilo” que ela encobre. Sabe a que me refiro, não sabe?…

- (???…)

- Àquela palavrinha que não deve ser escrita aqui… Tá entendendo?…

(administrador soletrando baixinho):  X-x-t-?

- (com pancadinhas nas costas): Isso, véio!… Administrador esperto, hein?

- (!!!…)

- Sim, sim, não se preocupe… Faremos com amor e teremos muito cuidado! 

Era Uma Vez Esta Noite…

The Dance

Acabo de chegar a casa, umas duas e meia da manhã. Devia ir já para a cama, mas sinto vontade de vos dizer que ainda há no mundo coisas boas, tão boas que fazem com que nos sintamos de alguma forma especiais, coisas que nos enchem o coração de alegria, coisas que necessariamente nos envaidecem e nos orgulham:

Estava eu três horas atrás no restaurante com dois amigos, quando reparei que uma moça sentada com outras pessoas numa mesa adiante me olhava insistentemente. Olhei-a um par de vezes e em ambas as vezes cocei involuntariamente a orelha direita e mordi o lábio inferior, com a intenção de lhe dar a entender que estava a cogitar nela. Ela sorriu e de um modo quase imperceptível fez um sinal com o olhar para uma salinha vazia que serve de espera quando o restaurante está lotado. Levantei-me e dirigi-me para lá. Ela veio, com um copo de água na mão, ter comigo…

- Olá.

- Olá! - respondi.

- Lembras-te de mim?

(A pergunta foi feita à queima-roupa, de chofre e, como não a esperava, atingiu-me com impacto de bala. Conhecem aquela coisa que dizem que ao morrermos fazemos uma retrospectiva mental de toda a vida? Foi mais ou menos isso o que me sucedeu: Em fracções de segundo a minha mente revolveu o cérebro à procura da memória dela, percorrendo anos de relações de trabalho, amigos de familiares, amigos de amigos, festas, férias, etc., e não encontrou nada.)

- Não.

- A Sério que não te lembras de mim?

- A Sério.

- Eu lembro-me de você, muito bem.

- De onde?

- De Aveiro.

- Raramente vou a Aveiro…

- Há cerca de um ano atrás dançou comigo num bar lá.

- Eu?…

- Sim. Ninguém dança como você, sabia?.. Você é tão…

- Suspeito…

(Ela sorriu espontaneamente e continuou:)

- E ninguém diz coisas tão lindas enquanto dança como você diz…

(Desta vez sorri eu…)

- O que é que eu disse de tão especial?

- Ah… Disse tudo o que eu gostaria de ouvir naquele momento.

- Admito que o possa ter feito…. Mas, concretamente…

- Concretamente, entre muitas outras coisas, disse-me que já tinha dançado com muita gente, mas que com flores era aquela a primeira vez.

- (sorrindo) Eu disse isso?…

- Disse. E disse: “Sabe uma coisa, flor?… Depois de dançar com você, no futuro passearei mais em jardins; e todas as vezes que o fizer e olhar uma flor, lembrar-me-ei do dia em que dancei com você”.

- Ah, sim, no futuro. No presente, tenho andado muito ocupado…

- Compreendo. Entretanto vi você uma outra vez, mas estava acompanhado.

- Onde?!

- No Porto, jantando.

- Ah, sim, vou lá, por vezes… Que bom a gente se conhecer, não é?…

- Sim e não. A gente se conhece e se desconhece. Você nunca chegou a dizer-me o seu nome nem perguntou pelo meu.

- Não?! Que lapso!

- Você disse que “flor” era um nome bonito e que além de condizer comigo era suficiente.

- Não tenho como desmentir, flor. Mantenho o que lhe disse.

- Quer me ligar um desses dias, senhor ocupado?

- Quero, claro, quero muito.

(Ela retirou um cartão da malinha e enfiou-o no bolso da lapela)

- Obrigado! – Disse-lhe, beijando-lhe as faces.

- Esse seu cheiro…

- É o mesmo.

- Pois. Pois é…

- Vê como já me recordo, flor?…

- Vejo, agora! – Respondeu ela, sublinhando o “agora” e caminhando para a mesa,  rindo abertamente.

Era Uma Vez Uma Mulher Em Desalento…

Mulher triste

Não gosto de saber que há mulheres sós, sentindo-se amarguradas como se lhes faltasse um pedaço, como se uns quantos vilões lhes tivessem roubado algo; Não gosto de saber que sofrem com sentimentos de perda e de angústia, não gosto de as saber tristes; Não gosto de saber que existem mulheres que sentem a dor de se sentirem impotentes, não gosto de as saber frágeis, com as defesas despedaçadas. Não gosto de saber que existem mulheres com os sentimentos esparramados, soçobrados a um amor que lhes levou um pedaço e que ainda não lho trouxe de volta.

Gosto ainda menos de saber que os culpados são homens parecidos com gente, parecidos connosco que somos os homens.

Onde estão os homens que são gente? Onde estão os poetas que são homens? Onde estão os homens que amam e que não roubam os pedaços de alegria às mulheres?

Balada para los poetas Andaluces de hoy  (Rafael Alberti)
(
Dedicado com muito carinho à Avassaladora)
 

¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre, ¿pero donde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero donde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero donde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.

¿Es que ya Andalucia se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Qué en los mares y campos andaluces no hay nadie?

¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?

Cantad alto. Oireis que oyen otros oidos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabreis que palpita otra sangre.

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.

Era Uma Vez Um Anjo Chamado Carol…

Anjo

… Que partiu, deixando-nos a esperança na existência de um além, onde seja mais afortunada, mais amada e mais feliz do que foi nesta vida.

Vamos ter saudades tuas, Carol… Goodbye, menina linda!

Era Uma Vez Uma Lição Para Francisco…

Mr. Almost

(A notícia súbita da morte da Carol trouxe ao Priorado a experiência até aqui singular de uma tragédia inesperada. Quando morrem pessoas em acidentes, como sucedeu na sequência da queda do voo 447, há sempre a possibilidade de uma razão alheia ou desligada da identidade dos que morreram explicar a tragédia aos que ficam, ainda que a explicação se componha por factos de uma arbitrariedade terrível. No caso da Carol não existe essa possibilidade, pelo que a tragédia que ocorreu independentemente de qualquer falha humana ou mecânica parecer-nos-á para sempre não só injusta e cruel como também situada para lá de toda a compreensão. Em ambos os casos não há muita consolação para os que ficam; não há o tempo de preparação, ao contrário de uma doença vaticinada e prolongada; não há o encerramento de uma relação nem uma despedida conveniente. Fica demasiado por terminar e por dizer, há um apagão na narrativa. O que intensifica a tragédia da morte acidental e súbita é a indisponibilidade dos recursos cautelares apaziguadores da perda.

Desde que a notícia chegou ao Priorado até ao presente procuro avidamente por uma fonte de consolação, e uma das que encontrei é saber que os mortos não desejam que os vivos arrastem o seu pesar. Ao invés, desejam que eles aprendam que na morte, como na dor, há sempre uma promessa de conforto e de regresso à felicidade.

Outra forma de consolo é a visão naturalista de que morrer é um facto tão natural como nascer e como viver. Nada há na morte, como facto natural, que a torne boa ou má. O que torna a morte uma fatalidade para quem morre e uma mágoa para quem fica vivo, é apenas aquilo que a morte priva a quem morre e aos que lhe sobrevivem.

Há, pois, a questão fundamental de descobrir a melhor maneira de lidar com a morte dos que nos são queridos. Choramos a perda de um elemento que conferia sentido ao nosso mundo e há um processo inevitável de cicatrização – de refazer o nosso universo – a ser suportado, processo esse a que a esmagadora maioria das civilizações chama o “luto”.

É muito fácil acordar de um sonho para a vida real: é algo tão trivial que acontece connosco praticamente todas as noites, a meio do sono. O que é difícil e raro, é acordar da vida real para um sonho: é algo que acontece somente aos que, não compreendendo a vida real como ela é, enlouquecem, e com isso, acordam para um sonho e adormecem para  a vida real…)

(O Pior Homem do Mundo abeirou-se e pousou a mão no meu ombro, acordando-me os pensamentos; de seguida, caminhou em direcção à janela; abriu-a e, apontando para o céu, disse com uma voz quase triunfal:)

 - Mr. Almost, um dia também nós haveremos de chegar lá!

- Saberemos voar, Pior?

- Aprenderemos como os pássaros fizeram.

- Mas os pássaros voam porque têm asas…

- Não, Almost. Os pássaros têm asas porque, um dia, quiseram voar.

- E os anjos, também?

- Sim. Os anjos são os pássaros da eternidade.

- Todos nós seremos anjos, quereremos voar e seremos eternos?

- Precisamente. Seremos perfeitos.

(Olhei para o céu: nunca o tinha visto tão deslumbrante como naquele instante; nunca tinha reparado como ele é tão imenso e tão firme que até, provavelmente, é por isso que lhe chamam “firmamento”; nunca tinha pensado como ele é e como ele tem realmente – como a morte – algo que escapa à nossa compreensão de seres imperfeitos…

Recordei-me do texto do Ruben Alves que a Cora gentilmente deixou ao visitar o Priorado, o qual, por sua vez, me havia feito recordar do livro “Fernão Capelo Gaivota” e de um vídeo onde um velho anjo chamado Fernão ajudava um anjo jovem chamado Francisco a voar cada vez mais rápido, cada vez mais longe, cada vez mais alto, conduzindo-o para perto de Deus e para uma vida eterna junto Dele. Então, definitivamente, compreendi o destino da Carol e sorri pela primeira vez desde há alguns dias…)  

- Entendi, Pior. Obrigado. Acho que aprendi!

- Não me agradeça, Almost. Agradeça à Carol e a todos os que nos ajudaram a aprender, perante a nossa falta de preparação.

- Obrigado, Carol. Obrigado, amigos… Um dia, também passarei a outros o que nestes dias me ensinaram…

Era Uma Vez A Farsa dos Cães Danados…

ACTO I

ferro forjado

(No pátio frontal ao principal edifício do complexo do Priorado e voltados para a entrada da muralha que o circunda, os cachorros estão alinhados em formação militar, dormindo com as orelhas pousadas na cabeça, os focinhos pousados sobre as patas dianteiras e as caudas pousadas no chão.

Subitamente, a meio da formação, um deles levanta uma orelha; Outro, mais adiante levanta outra; Um terceiro cachorro levanta as duas orelhas; Um quarto, abre os olhos; Um quinto, ergue a cauda. Um sexto, levanta a cabeça. Um sétimo, rosna. Um oitavo, ergue-se e fica de pé. Os restantes se levantam, com o olhar fito no largo e pesado portão de ferro forjado de duas abas onde se destaca em cada uma as siglas PHM.

Um rosto redondo e vermelhão, semi-oculto pela barba grisalha e pelos recortes do ferro forjado, espreita para o pátio do Priorado. Os cachorros olham-no, estáticos, com uma atenção canina e sem um piscar de olho. Por fim o homem acciona a argola que faz soar os gonzos no interior do Priorado:  “Goooooong!… Gooooong!“    

Mr. Pain surge quase imediatamente, encaminhando-se lentamente para o portão:)

Mr. Pain: – Quem está lá?…

Uma voz:(roufenha) – Ei, amigo, pode me ajudar?

Dois cachorros:Grrrrr! Grrrrr!… 

Mr. Pain: (olhando a reacção dos cachorros) – Ajudar em quê?

Uma voz: – Abra o portão, por favor. Deu-me uma crise.

Mr. Pain: – Essa da crise já é velha. Não tem lido o blogue do RM?

Uma voz: – Aquele serrano cara pálida e meio cafajeste lá do chalé?…

Mr. Pain: – Exactamente, esse mesmo!

Uma voz: – Sim, de vez em quando visito aquele pirralho. Por favor, preciso de ir ao banheiro. Estou com diarreia.

Três cachorros:Grrrrr! Grrrrr!…

Mr. Pain: – Verborreica ou intestinal?

Uma voz:  (roufenha e aflitiva) – Pelo amor de Deus, me deixe ir ao banheiro: intestinal.

Mr. Pain:(abrindo o portão): Macacos me mordam se você não é o presidente Lula!

Quatro Cachorros:Grrrr! Grrrr! Grrrr! Grrrr!…

Lula: – Sou, sim… Não chame a imprensa, por favor, muito menos a do Plano Geral! E afaste de mim esses quatro cachorros: já se vê que são da oposição!

Quatro cachorros da oposição:Auauau! Auauau! Auauau! Auauau!…

Mr. Pain: (para os cachorros) – Calma, brigadeiros! É o Sr. Presidente!

Quatro cachorros: - Uauaua? Uauaua? Uauaua? Uauaua?…

Mr. Pain: – Senhor Presidente, os brigadeiros querem saber se você não vem pegar em nada!

Lula: – Juro por Deus! Não vou mexer em nada, a única coisa que pretendo é aliviar o intestino.

Quatro cachorros da oposição:Tsc! Tsc! Tsc! Tsc!…

Mr. Pain: – Promete deixar o banheiro limpo?

Lula: – Sim, sim, quer dizer, não, não.

Mr. Pain: – Como assim, “sim” e “não”?

Lula: – Não venho “limpar” o banheiro, pretendo somente defecar nele.

Quatro Cachorros da oposição:Tsc! Tsc! Tsc! Tsc!…

Mr. Pain: - Estou a entender… Não vai roubar a saboneteira, vai só usar o banheiro, não é Sr. Presidente?

Lula: – Nem mais nem menos!

Mr. Pain: – Sr. Presidente: O Priorado é uma instituição democrática que leva a democracia muito a sério.  Lamento informá-lo que, sozinho, eu não devo tomar uma decisão sobre a sua pretensão.

Lula: – Pelo amor a Deus! Isto é uma situação de urgência, uma situação humanitária.

Mr. Pain: – Compreendo o seu ponto de vista. Mas regras são regras. E aqui no Priorado nem o Presidente passa por cima dos princípios democratas! Vamos ter de votar…

Lula: - Mr. Pain, eu só quero defecar, purgar fezes!

Mr. Pain: – Mesmo assim! Não podemos abrir excepções! E aliás, nem sabemos aquilo que o Sr. Presidente tem ingerido por esse mundo fora: temos de pensar na quantidade de bactérias potencialmente perigosas e na contaminação ambiental, designadamente na degradação da qualidade do ar.

Lula: – As minhas fezes não cheiram mal!  

Mr. Pain: – Respeitamos a sua opinião, Sr. Presidente. Democraticamente falando, o senhor terá também de respeitar a nossa.

Oito Cachorros : (aplaudindo Mr. Pain)Auauauauauauauau!…

Lula: – Vão votar para decidirem se posso defecar ou não? Mas isto é o cúmulo!

Mr. Pain: – É democracia, Sr. Presidente! Temos quatro cachorros petistas e quatro cachorros da oposição. Vamos ouvir  o porta-voz de cada facção e depois votaremos.

Lula: – Mas sejam breves, sim?… Não sei quanto tempo vou aguentar suster a diarreia.

Mr. Pain: – A democracia requer debate e reflexão, Sr. Presidente.  É um erro tomar decisões precipitadas. Daí, convido o porta-voz petista a sintetizar o ponto de vista da sua facção.

(Um cachorro destaca-se dos demais e sobe para um dos bancos do pátio. Faz uma tossezinha a indicar que se presta a  iniciar o discurso em representação da sua facção:)

Cachorro porta-voz petista: – Camaradas! Companheiros!… Cada um de nós não deve ignorar como defecar faz bem à saúde. Não é verdade que, cada um de nós, ao defecar, não sente de imediato uma sensação de alívio e de bem-estar? Se a excreção faz bem é porque actua sobre o sistema nervoso. Ora, nós não temos só um sistema nervoso, mas dois! Um comanda o que se relaciona com a actividade: é o sistema “simpático”. Mantém o corpo em funcionamento, acelera os batimentos cardíacos, a secreção de adrenalina e um monte de outras coisas. O outro descontrai o corpo: é o sistema “parassimpático”. Diminui os batimentos cardíacos e a tensão arterial, etc. Quando nos enervamos, o simpático actua; quando nos sentimos bem depois de termos acalmado, é graças ao parassimpático. Os dois sistemas nervosos estão sempre em oposição…

Três cachorros petistas e o Lula : (apoiando) – Aua aua aua aua aua aua!…

Cachorro porta-voz petista: (levantando as patas e apelando ao silêncio) Daí a defecação. O relaxamento do esfíncter anal exige uma certa descontracção, desencadeando o sistema parassimpático. Como ele se opõe ao sistema simpático, este último fica fora de serviço. Segue-se uma redução do ritmo cardíaco, uma lentidão do coração e uma redução da tensão arterial. É isso que faz bem.  As vantagens de proporcionar ao Senhor Presidente o prazer de defecar são, portanto, gritantes: Uma vez aliviado, o seu ritmo cardíaco baixará, a sua tensão arterial baixará, e será invadido por uma onda de bem-estar – e tudo isso fará com que o nosso Presidente governe o país com mais tranquilidade, com mais ponderação, com mais calma e mais sabedoria. Votem “sim”! Votem “sim”! Votem “sim”!

Três cachorros petistas e o Lula : (apoiando)Aua aua aua aua aua aua!…

Mr. Pain: - Muito bem! Daremos agora voz à oposição…

(Um cachorro destaca-se dos demais e sobe para um dos bancos do lado oposto do pátio. Faz também uma tossezinha, indicando que se presta a iniciar a defesa da sua facção:)

Cachorro porta-voz da oposição: - Democratas! Compatriotas! Fomos subitamente arrancados à nossa tranquilidade, vimo-nos brutalmente interrompidos do nosso merecido descanso, vimo-nos impedidos de recuperar as nossas forças! E porquê?… Porquê democratas?… Porquê?… Eu digo-vos: Porque, simplesmente, apeteceu defecar ao Presidente! Só esse facto demonstra o seu egoísmo e a sua falta de respeito e de solidariedade pelos outros, a violação de umas quantas mais elementares regras da democracia! Mas não é só a democracia que aqui está em causa. O que está também aqui em causa é o nosso direito ao repouso, à tranquilidade e ao lazer. A nossa sesta é um direito histórico, adquirido pelo esforço, pelo suor, pelas lágrimas e até pelo sangue dos nossos antepassados, que durante séculos lutaram por este direito, hoje património inalienável da humanidade! E nós, democratas, não podemos trair num minuto aquilo que durou séculos a conseguir! Nunca o permitiremos sem dar luta a uma afronta como esta! Ainda que não seja por nós, seja por aqueles que sacrificadamente nos legaram o direito ao nosso bem-estar. Sim, é verdade: Temos tanto direito ao bem-estar como o Presidente, porquanto em democracia somos todos iguais perante a lei! Todos iguais!

Três cachorros da oposição e Mr. Pain: (apoiando)  - Aua aua aua aua aua!…

Cachorro porta-voz da oposição: (levantando as patas, apelando ao silêncio)O que pretende, afinal, o senhor Presidente?… Pretende o seu prazer, ignorando o dos demais. E para isso não tem pejo de vir ao Priorado corromper com os seus fedores o ar que respiramos, conspurcar a qualidade do ar com os cheiros nauseabundos das suas fezes presidenciais! Este presidente, além de corrupto e conspurcado, não respeita o ambiente e muito menos o nosso sentido mais delicado de que tanto nos orgulhamos de possuir: o olfacto, aquilo que temos de mais precioso e que nos é mais querido. Não podemos permitir que isso aconteça! Só a simples ideia do Presidente pretender defecar no Priorado já é um despeito incomensurável pelos nossos valores e pelos nossos ideais! Não queria de terminar a minha intervenção sem dizer duas coisas: uma é o alerta para o perigo que a defecação presidencial pode causar através de uma contaminação bacteriana sem precedentes no Priorado, veiculada por germes aeróbicos, coliformes fecais, estreptococos fecais e clostrídios de sulfato redutores, prejudicais à nossa saúde e que colocam em sério risco a nossa qualidade de vida, daí, no nosso bem-estar. Outra é: Votem “Não”! Votem “Não!”

Três cachorros da oposição e Mr. Pain: (apoiando)  – Aua aua aua aua aua!…

Mr. Pain:Ouvidos os argumentos de ambas as facções,  vamos votar! Quem vota “sim”, que levante o membro direito e diga “sim”.

Quatro cachorros petistas e o Lula : (com as patas direitas a mão do Lula levantadas) SIIIM!

Mr. Pain: (já com o braço levantado): – Quem vota “não”, que levante o membro direito e diga “não”.

Quatro cachorros da oposição e Mr. Pain: - NÃÃAO!

(Todos se entreolharam, pensativos… Mr. Pain foi o primeiro a reagir:)

Mr. Pain: – Verifica-se um empate técnico de cinco votos a favor e cinco votos contra. Temos de proceder a uma segunda volta para sabermos se o senhor Presidente pode defecar ou não.  

(O rosto de Lula ficou mais vermelho do que nunca. Cerrou os maxilares, crispou os músculos das faces até ficar com os olhos fechados, colocou as mãos no ventre… Gotas de suor nasciam por debaixo do couro cabeludo e escorriam-lhe pela testa. Um cheirete repugnante começou a fazer-se sentir com muita intensidade, nas calças do Presidente uma mancha suspeita e crescente tornou-se cada vez mais evidente, as janelas do Priorado foram apressadamente fechadas, os cachorros dispersaram-se rapidamente para as traseiras do edifício e Mr. Pain, atónito, olhando a expressão de desalento do Presidente e ralhou:)

Mr. Pain: – Isso não se faz senhor Presidente! Que feio, abandonar as fezes em público! Vou alertar a imprensa! O RM e o MR vão saber disto!

(Nesse mesmo instante, no interior do Priorado, alguém fazia justiça aos excrementos, visionando uma canção intitulada “Don’t leave me this way”:)

Era Uma Vez a Farsa dos Cães Danados (II)…

ACTO II

Mr. Pain e Cora

(Foi Mr. Almost quem alertou a imprensa, tendo a atenção de apenas contactar jornais e televisões simpatizantes dos petistas: em vez de jornalistas, acorreram ao Priorado ambulâncias e escoltas policiais, que rapidamente se encarregaram de conduzir o Presidente Lula a um hospital cujo administrador era primo direito de um Comissariado do Brasil na ONU que fora investido no cargo por nomeação directa do Secretariado Geral do PT.

Em razão disso, o conteúdo das manchetes que abriu os telejornais nacionais e que ocupou as primeiras páginas dos jornais era praticamente unânime. Na TV da directoria de Ricardo Soares, o apresentador referiu que ”O Presidente Lula sofreu doença súbita e se encontra internado nos cuidados intensivos com prognóstico reservado e sem visitas”; no principal título do Jornal da Ana Paula Pedrosa, lia-se “Lula hospitalizado de urgência por doença súbita, citando a jornalista no corpo da notícia uma fonte próxima do presidente segundo a qual a doença teria origem no cansaço de se defender dos detractores oposicionistas e na falta do quarto período de férias presidenciais”; no Jornal da Ka, por debaixo da foto da Ka, lia-se: “Lula hospitalizado, país correndo o risco de ficar órfão!”; no Jornal da Denise do Egito lia-se por debaixo do papinho que o “Presidente Lula sofre doença súbita”, a que se seguia vários conselhos do corpo redactorial dirigidos ao presidente, notando que este deveria praticar ioga para limpar as mente de doenças súbitas e que o uso de cuecas confortáveis também ajuda a prevenir contratempos e imprevistos embaraçosos; no Jornal do Plano Geral, Marcos Rocha, constrangido (mas não tanto que o fizesse esquecer as fotos e as acrobacias da inquebrável Tiffany Brookes) com a súbita notícia da doença do Presidente, escreve que “apesar das críticas que sofre por parte dos jornalistas que têm o rabo preso com o governo”, Lula está resistindo à crise de saúde com a preciosa colaboração dos “responsáveis por esse competente trabalho que o PT realiza de exportar suas ideias e seu modelo de chegada ao poder e de governar. E adianta: “Sou um crítico ferrenho do que está acontecendo no Brasil no governo Lula, mas seria desonesto da minha parte não reconhecer que o “lulismo” (ou devo escrever “lulopetelhismo”? rs rs rs) oferece um modelo que pela primeira vez está sendo exportado para um outro país…”, concluindo que “é a primeira vez que um partido político brasileiro passa a ter uma influência efectiva no plano internacional”. Na “Rádio Nicovieri”, o comentarista Nicolau, começando pelo começo, cumprimentava alegremente os ouvintes, e noticiava “o sonho que se realiza”: o “cafona” foi internado de urgência… “espero que vocês gostem”.   

Após a publicação das manchetes e das Breaking News das rádios e das televisões, logo acorreram ao hospital onde Lula se encontra internado um aglomerado de repórteres, ansiosos pelo desenvolvimento do estado de saúde do Presidente… O departamento de relações públicas do hospital decidiu, por isso, encarregar um dos médicos que assistiram o presidente para atender os profissionais da imprensa. Mr. Pain, sentado num dos sofás da sala do Priorado, assistia aos noticiários televisivos:)

Repórter 1:Senhores telespectadores, dentro de momentos o chefe dos clínicos do hospital que assistiu o Presidente Lula procederá a uma breve conferência de imprensa! Não saiam dos seus lugares, já que se aguarda a sua chegada a qualquer instante!

(Na tv, é lançado um comercial, sobre a oferta de um crédito bancário de 1.000,00 reais a quem tiver 100.000,00 reais em depósito fixo a cinco anos…)

Repórter 2: – Caro telespectador, assista em directo e ao vivo às primeiras declarações sobre o estado de saúde do Presidente Lula! Prevê-se que as declarações à imprensa possam ter lugar dentro de instantes! Se estiver no boteco assistindo, assista no boteco; se estiver em casa, fique em casa! Fique aí, onde está!

(…É lançado um comercial, sobre a oferta de uma peúga na compra de três pares…)

Repórter 3: – Em directo de Portugal! Estamos neste preciso momento a escassos metros da unidade hospitalar onde o Presidente Lula se encontra e onde, já de seguida, ocorrerá um atendimento à imprensa! Não perca, seja o primeiro a saber!

(…É lançado um comercial, sobre a oferta de um celular de determinada operadora a quem se fidelizar durante vinte e cinco anos…)

(Mr. Pain levanta-se do sofá e corre para a janela; Com dois dedos na boca, produz um longo assobio, chamando os cachorros da oposição:)

Mr. Pain: (à janela, gritando) – Cora?.. Roney?… Mara?.. Ava?… Venham depressa!

(Os cachorros anti-petistas vieram prontamente, correndo com as caudas a abanar. Sentaram-se todos no sofá…)

Mr. Pain: – Assistam às notícias! O Presidente foi hospitalizado!

Ava: – Que traste!

Roney: – Hospitalizado?.. Por causa de uma cagada?.. Au ua ua!

Mara: – Roney, você é sempre óptimo nos seus comentários!

Cora: – Eu sabia que isso ia dar merda! Eu falei!.. Quando o Presidente tem uma dor de barriga…

Mr. Pain: – Não tenho dúvidas de que se trata de uma manobra política dos petistas para encobrir as porcarias que o Presidente faz.

Roney: – E devem querer encobrir também alguns ministros, não?

Mr. Pain: – Os ministros também tiveram dor de barriga?

Cora: (subindo para o colo de Mr. Pain) – Dor de barriga não dá uma só…

Mr. Pain: (afagando a pelugem loira na barriga da cachorra Cora) – Você está ficando muito atrevida, sabia?

Cora: (retirando a mão de Mr. Pain da barriga) – Lindinho… Faz assim: Feche a mãozinha. Agora, erga o dedinho mindinho, o indicador e o polegar, apenas.

Mr. Pain: – Espevitou, loirinha!.. Vou ficar de olho em você!

Cora: – Pronto! – “Eu te amo”!

Roney: – Ufa!

Cora: - Pois é, é como digo, não faz afagos no Roney por motivos obvios…Humpf!

Roney: – Acredita que eu não tinha reparado? Podexá que vou dar uns cascudos nele, a fim de “endireitá-lo”… rss

Cora: – Do contra, claro!

Roney: – Mr. Pain, cê tem o que pra “negoceiar”?

Cora: – …É falta de educação, Roney!

Mr. Pain: – Cora, a pergunta não era para você, pois não?

Roney: – Mas claro que podemos pensar num “contrato de gaveta”… O que o caboclo ofereceu mesmo? Rss

Cora: – …E essa agora! Curiosidade matou o gato, sabia? Hum!

Roney: – Mas, cá pra nós: tô cagando (rss)!

Cora: – Meodeos… que português mais bem informado!!!

Roney:- Mineirin, Cora, Mineirim!

Ava: – Mr. Pain, percebo que vc se fecha em copas com o Roney e deixa as cadelitas do priorado a ver navios…rs

Mr. Pain: – Navios, aviões, corvetas, helicópteros, há muita gente e muitos meios empenhados no resgaste dos corpos do voo 447.  Uma desgraça!

Ava: – Ainda bem que temos o Tapadinhas, onde podemos admirar belas embarcações…rsrsrs

Mr. Pain: (fazendo festinhas na barriga da Cora e distraíndo a atenção dos restantes cachorros da oposição) – Atenção, cachorrinhos, olhos na TV! Vai começar a conferência de imprensa no hospital!

(Na TV, vêem-se as imagens de um clínico acercando-se da portaria do hospital…)

Médico: – Boa Tarde! Estou à disposição dos senhores representativos da imprensa para esclarecer o estado de saúde do Presidente Lula. Peço-vos que sejam breves e que respeitem a privacidade do doente.  

Repórter 1: – Qual é o actual estado de saúde do Presidente Lula?

Médico: - O actual estado de saúde do Presidente Lula é estacionário, encontrando-se na sala de observações com prognóstico ainda reservado.

Repórter 2: – Que tipo de doença acometeu subitamente o presidente?

Médico: – O presidente sofreu uma pestilência aguda com origem desconhecida, que lhe provocou um derrame descontrolado de fluidos, encontrando-se os nossos laboratórios a proceder aturadamente às análises necessárias para chegarmos a uma conclusão precisa.

Repórter 3: – O presidente corre risco de vida? Que intervenções foram efectuadas até ao momento?

Médico: – O Presidente não corre, em princípio, risco de perder a vida. Até ao momento apenas perdeu fluidos, mas o corpo clínico procedeu à limpeza de toda a zona afectada e ministrou medicação específica para compensar a perda de líquidos e, consequentemente, a desidratação.

Repórter 4: – Foi necessário remover tecidos ao Presidente?

Médico: – Com certeza. O Presidente chegou ao hospital com diversos tecidos em muito mau estado, os quais foram imediatamente removidos a fim de serem convenientemente limpos.

Repórter 5: – Os cirurgiões esperam reimplantar os tecidos removidos?

Médico: – Não será bem assim. Hoje em dia, existem outras técnicas mais avançadas que permitirão a recolocação dos tecidos no lugar que anteriormente ocupavam.

Repórter 6: – O Presidente está consciente?

Médico: – Sim. Mas encontra-se, naturalmente, muito abalado e em estado de choque.

Repórter 7: - O cheiro nauseabundo que circunda o exterior do hospital está relacionado com a doença do Presidente?

Médico: – Desde a chegada do Sr. Presidente tenho permanecido no interior do hospital, pelo que ignoro o cheiro exterior. Além disso, usamos permanentemente máscaras no interior do hospital…

Mr. Pain: – Que safados, esses portugas!

Roney: – Eu sempre desconfiei de portugas!

Ava: – É um pessoal muito estranho, nem aparecem para um cafezinho com pão de queijo… coisas de mineiro…rs

Cora: (meia dengosa) – Mr. Pain, desliga essa maldita TV e coloca uma musiquinha pra mim?

Mr. Pain: – Vou colocar uma que você gosta!

(Mr. Pain levantou-se e colocou uma musiquinha…)

Cora: – Sinta-se beijado!

Era Uma Vez o Dia dos Não Namorados…

Campo

Estaremos ausentes por algum tempo, alguns dias apenas…

Mr. Almost, Mr. Pain e o Pior Homem do Mundo têm em mãos uma missão inadiável: acordar com o canto dos pássaros nas árvores, vestir uns jeans coçados e uma shirt desbotada, sujar as botas na terra, caminhar ao acaso pelos campos e curtinhas, subir cômoros e saltar ribeiros, abrir trilhos pisando as ervas, observar as plantas e as flores, comer framboesas colhidas no momento, sentar nas pedras do chão, ver as nuvens passar, sacudir as formigas que caminham pelas pernas, tropeçar nos socalcos, cuspir para o lado, mergulhar os pés no regato, comer costeletas com as mãos e sopas em malgas velhas, assistir ao pôr-do-sol, se o houver, redescobrir objectos da infância, ler, adormecer com o gato aos pés da cama…

Entretanto, celebrar-se-á no Brasil o dia dos namorados. Sabemos que será um dia muito feliz para quem namora e, ao invés, um dia tristonho para quem não namora. Alegramo-nos com os primeiros e solidarizamo-nos com os últimos, desejando a estes que, reflectindo primeiro nas razões porque caminham sós, descubram depois o trilho por onde o amor passa.  

Era Uma Vez Um Apelo…

Cachorras Quentes

Desapareceram do Priorado duas cachorras loiras e quentes pertencentes ao elenco da farsa dos cães danados. Dão-se pelos nomes de Amèlie e Cora, mas também respondem muito bem pelos nomes “D. Onça” e “Jolene”. Inicialmente pensamos que tivessem fugido… Porém, da análise psicológica ao perfil de cada uma, resulta inequívoco que seriam incapazes de se evadirem, tamanha é a inocência e a fidelidade  das cachorrinhas em causa.  Cresce, portanto, a sustentabilidade da tese que indicia haverem sido aliciadas por um cachorrão guitarrista, conhecido no basfond musical como o RM da viola danada.

Roney da viola

PS. – As últimas notícias de fonte credível que chegaram ao Priorado, documentam a audível possibilidade de terem trocado de nome (facto muito comum nas cachorras referidas) e de se dedicarem actualmente ao teatro. Há alvíssaras para quem as encontrar. Obrigado!

Digam lá se não são umas criaturas amorosas e inocentes, digam!..

Era Uma Vez Uma Noite de Instantes Geniais…

godfather

Não foi um simples e mero acaso. A sequência feliz dos excepcionais acontecimentos ontem ocorridos no Priorado deve-se à genialidade do Pior Homem do Mundo. Sim, sou um pequeno génio, meus caros! Um ser muito perto da perfeição, uma gaivota! E já era até tempo do Priorado ter seis ou sete selos a brindar as suas paredes com homenagens, em reconhecimento do seu enorme contributo para o bem, para a paz, para a fraternidade, para a amizade e para o amor.

A situação não estava nada fácil: havia duas mulheres amarguradas pela vida, sofridas pela vida, desiludidas pela vida, descontentes com a vida, angustiadas pela vida, perdidas na vida. Eram duas mulheres muito tristes e a tristeza estava a minar-lhes o coração; eram duas mulheres à beira de um ataque de nervos (gracias, Almodóvar) e os nervos estavam a comer-lhes o cérebro, a razão e o discernimento; eram duas mulheres com uma carência de amor tão gritante que chegava a ser doloroso ouvir os gritos e a carência afectiva estava a causar-lhes uma espécie de patetice esclerótica. Portanto, a situação era muito grave e melindrosa: estavam praticamente em estado crítico, prontas a serem ligadas às máquinas que sustentam artificialmente a vida. Não, não, não! Não estou a falar dos descartáveis, mas já que falei, deixo à vossa consideração os restantes raciocínios e as naturais conclusões…

Todavia, praticamente de uma hora para a outra, por obra e mérito do Pior Homem do Mundo, foi possível inverter todas essas patologias sem intervenção clínica – tendencialmente dispendiosa – nem acompanhamento psiquiátrico – normalmente longo e dispendioso:

Hoje são duas mulheres muito felizes, alegres, amando-se mutuamente, abraçando-se, beijando-se e admirando-se como nunca. A bem dizer, renasceram para uma vida nova. Até já riem como adolescentes inexperientes das pilas pequenas dos homens grandes quando antes, mais condescendentes,  consideravam que independentemente do seu tamanho qualquer pila era melhor do que nenhuma! O Marcos rocha solidarizou-se com a causa. Eu, que não sou fã, pensei na “Alotta Fagina” porque, desde Einstein, todas as coisas são grandes ou pequenas quando consideradas relativamente a outras pequenas e grandes! E ainda há quem não acredite e diga que não existe magia!.. Bom, para não querer contrariar ninguém frontalmente, discordo lateralmente! Contudo, a fim de não ferir susceptibilidades (onde é que já li isto?), digamos simplesmente que em vez de magia se tratou de um milagre feito pelo Pior Homem do Mundo, esse extraterrestre genial que da infelicidade e do desalento fez nascer uma amizade tão apertada, tão ímpar, tão canina, que só vista! Convenhamos: foi um parto difícil, uma relação nascida a fórceps. Certamente, também por isso terá mais-valia e um sabor especial…

Uma nota final: Pelo feito, ao Pior Homem do Mundo caber-lhe-ia bem o cognome de “o padrinho”. Trata-se, sem dúvida, de um benfeitor otário, ou não é verdade que foi ele quem aproximou aqueles dois seres com hemorragias na essência humana e os uniu numa amizade visceral, como as unhas e a carne?..

E sabem que mais? Abençoou as criaturas, sem que tivessem de vir beijar-lhe as mãos!    

Era Uma Vez o Regresso de Cora…

Cora regressou!

Se o vosso ecrã fosse uma verdadeira janela através da qual pudessem observar o Priorado, esfregariam os olhos para terem a certeza que não era uma visão as cenas que se vos deparariam. A vossa primeira impressão seria que Mr. Almost, o Pior Homem do Mundo e Eu haviam enlouquecido ou que estariam aos pulos no meio de jardim a executarem uma estranha dança que chamasse a chuva e a gritar de contentamento pelas respostas dos deuses.

Mas não! Bastaria olhar para Mr. Pain para concluírem que não estamos loucos, e que, enquanto se assam as sardinhas com pimentos do São João,  apenas festejamos com exuberância e alegria o regresso da Cora, a cachorrinha a que Mr. Pain se afeiçoou.

Imaginem lá vocês que a afeição chegou a tal ponto que Mr. Pain amarrou a ponta de uma corda à volta do pescoço da cachorrinha e, para não se perder doravante dela, amarrou a outra ponta ao seu próprio pulso. E não lhe ralhou, nem a censurou. Sentou-se, deitou-a sobre as pernas, enquanto lhe ia dizendo carinhosamente:

- Minha cachorrinha linda! Tinhas saudades do colinho, não era sua danada?.. Queres festinhas na barriguita, não é, sua safadinha?.. Sabia que fiz uma casa nova para você, sabia não, cachorrinha?..

Cora não lhe respondia. Mas quem lhe olhasse o focinho, facilmente descobrir-lhe-ia uma expressão de satisfação – quase um sorriso -, que se misturava com a interrogação que tinha nas orelhas: perguntava a si mesma, em linguagem canina, por que razão Mr. Almost, O Pior Homem e Eu, continuavam a pular de alegria, por que motivos o cachorro Roney havia deixado crescer o bigode, e por que motivos as outras cachorras a olhavam como se fosse uma Avis Rara…

- Ficaste admirada com o bigode do Roney, não foi, cachorrinha?.. Então não sabias que o Roney muda de visual como os nenéns mudam de fraldinhas, não?.. Anda, vem ver a tua casotinha nova e escutar uma musiquinha comigo … 

casotinha

Era Uma Vez… Thinking About Amèlie’s Life…

Amèlie

Todos nós ainda temos bem presente o impacto da notícia que a morte de Carol nos causou: atingiu-nos como um raio fulminante, como um choque súbito, e deixou um rasto de dor e de saudade. E essa tragédia é algo que todos os dias continua a surpreender as nossas cogitações e as torna tristes.

Brincar é um modo de esquecer coisas sérias, sobretudo as tristes. Brincamos para alegrar os outros e para alegrarmo-nos a nós mesmos. Na prática, é essa a substância do Priorado. Claro: por vezes vamos longe demais com as brincadeiras que levamos a fim, ora caindo no exagero, ora não calculando com ponderação as consequências e os resultados das brincadeiras. Brincar é bom, mas pode ser perigoso e até contraproducente.

Contudo, não devemos apenas tentar esquecer os factos tristes da vida, mas também, partindo deles, obter o proveito da experiência sofrida: uma das lições que a morte da Carol nos trouxe foi a de que por vezes temos parar de brincar para pensarmos em coisas sérias, designadamente pensarmos na vida das pessoas com quem, ainda que virtualmente, nos relacionamos. Há pessoas mais abertas, que exteriorizam facilmente os seus problemas e as suas angústias, e outras há que, interiorizando as suas preocupações, tornam-se enigmáticas, tão enigmáticas que se torna muito difícil interpretar o que sentem, o que sofrem e os problemas que as atingem.

Serviu este intróito para vos comunicar que os membros do Priorado estão muito apreensivos em relação à Amèlie. Há em nós um pressentimento estranho de receio, um temor de uma notícia má, uma sensação intuitiva de alerta, resultante não tanto pelo seu súbito desaparecimento, mas sobretudo pelo teor do seu último post:

«VOLVER

Retomou a terapia. Olhava e percebia o semblante perplexo do interlocutor, mesmo depois de tantos segredos.

Mas aquele, o último, era muito, muito óbvio.

By Amèlie às 11:32 AM

Da série: diálogos circunspectos” »

Analisemos o título: Somos remetidos para uma obra de Pedro Almodóvar. Vejamos algumas sinopses dessa obra:

1. – “…O filme não é fantasioso, não é escrachado nem melodramático. Além das mulheres, o filme é sobre a morte e como ela pode ser natural para muitos povos, como se morrer não passasse de um ato civil, uma necessidade orgânica, mas não definitiva, divisória ou fatal.”

2. – “…Volver é uma história de sobrevivência. Todos os personagens estão lutando para sobreviver.”

3.- “…Segundo as próprias palavras de Almodóvar, Volver fala sobre três gerações de mulheres que sobrevivem ao vento, ao fogo, à loucura, à superstição e, inclusive, à morte. Tudo isso acontece com base na bondade, mentiras e numa vitalidade sem limites (…).Volver, é um filme sobre a cultura da morte.”

4. – “…Uma comédia dramática que se situa num terreno bem familiar para Almodóvar, o universo feminino e as suas complexidades.

5. – “…Uma história tão complexa quanto simples, tão comovente quanto terrível.”

Reflictamos agora nas palavras da Amèlie:

“Retomou a terapia. Olhava e percebia o semblante perplexo do interlocutor, mesmo depois de tantos segredos.

Mas aquele, o último, era muito, muito óbvio.”

Retomou a terapia”, transporta-nos para a ideia de uma doença que voltou (volver) e para a necessidade de tratamento medicamentoso;

Olhava e percebia o semblante perplexo do interlocutor, mesmo depois de tantos segredos”, faz lembrar o momento de uma consulta médica em que o médico (o interlocutor) interpreta em silêncio o resultado de análises clínicas ou de exames médicos, enquanto o doente, apreensivo e ansioso, observa atentamente as reacções faciais do médico, tentando adivinhar o que ele está interpretando através da leitura científica dos exames, não é?.. E Amèlie diz que: “Olhava e percebia o semblante perplexo”, ou seja, o doente percebia a preocupação do médico, “mesmo depois de tantos segredos”, isto é, mesmo depois de várias consultas em que o médico não revelou as suas suspeitas, adiou o seu diagnóstico, relegou para depois dos exames a revelação da doença. “Mas aquele, o último, era muito óbvio.”, concluiu a Amèlie, ou seja, aquele segredo, aquele silêncio do médico, aquela perplexidade com que ele olhava os exames, tornava óbvio que o último segredo – o diagnóstico final, a revelação da doença –  não era agradável.

Diálogos circunspectos” são diálogos íntimos, de preocupação, de retraimento, um modo de dizer-nos que são assuntos privados, particulares, tão íntimos e tão pessoais que não deseja comentários, que não deseja debater com ninguém a sua angústia ou o seu sofrimento. E, por isso, não foram admitidos comentários no post em causa.

Nos últimos contactos que mantivemos com Amèlie, ouvíamos-lhe uma tosse seca, estranha, sobretudo porque Amèlie tossia em estado de repouso, por exemplo, enquanto escrevia no teclado. O seu último post, a sua atitude posterior de lá até aqui – de não postar, de não comentar em qualquer blogue, o estranho silêncio dos seus amigos – o Fred, a Yaya, a Cinthia, o Nelson –, todo esses factos e retraimentos, confirmam na globalidade os nossos receios de que Amèlie esteja, de facto, muito doente. E é isso o que, aqui no Priorado, nós pensamos e o que muito nos preocupa.  A sério.

Once Upon A Time I Will Be back…

marte

… Muitos golpes derrubam o mais alto e o mais forte dos carvalhos. Bye!

 

Era Uma Vez O Diário de Bordo…

O Pior: - Contact, please! Alô, Mars?

Marte: – Positive. Please, communicate your position!

O Pior: – Edge report: Monday, 22 of June 2009, 21.35,47 seconds, Earth hour. Speed: 38 million km by Earth minute. Equipment: All functional. Automatic pilot on. Steady temperature. Ship it does not have visible problems.

Marte: – Right! Flight in agreement as the foreseen one.

O Pior: – I ask for authorization to contact with the Priorado.

Marte: – Permission allowed. Martian waves only can be used. Satellic communications are forbidden.

O Pior: – Received. Thanks!

nave marciana

Pior: – Priorado? Priorado?.. Responda!

Mr. Pain: – Viva, Pior! Como vai?

Pior: – Bem, obrigado. Novidades?

Mr. Pain: – Uia! Muitas!

Pior: – Das cachorras?..

Mr. Pain: – Sim, sim e não só!

Pior: - Vá lá, desembucha, homem!

Mr. Pain: – Nem sei por onde começar…

Pior: – É simples: Começa pelo princípio!

Mr. Pain: – A Cora disse “nãnaninãna” e não se conforma com a sua partida…

Pior: – Disse “nãnaninãna”?.. Hum! Quer um final feliz, certo?

Mr. Pain: – Exactamente. E, além disso, quer o seu email.

Pior: – Hum! Mas ela nunca quis que eu soubesse o dela…

Mr. Pain: – Sim, é verdade. Comentei precisamente isso com Mr. Almost.

Pior: – E o que é que ele disse?

Mr. Pain: – O Almost?.. Bem… Disse que é próprio.

Pior: – Próprio de quê?

Mr. Pain: - Das cachorras! Disse assim: “É sempre a mesma coisa, ao princípio nunca querem nada, depois, com o andar da carruagem, passam a querer!”

Pior: – Mr. Almost é uma águia, um expert em cachorras!

Mr. Pain: - Hã?!

Pior: – Sem querer desconsiderar o meu fiel mordomo Mr. Pain, claro! E que mais novidades tem?

Mr. Pain: -  A Ju envia-lhe beijinhos. A Tetê e o Nicolau também querem o seu email!

Pior: – Ok, retribua os beijinhos à Ju, em dobro. Quanto ao email pode fornecer: ppleitao43@yahoo.com.br

Mr. Pain: – Anotado! Entretanto, o RM quer saber se a guria da musiquinha é careca. Que lhe digo, hein?..

Pior: – Diz que não! Manda a ele uma mensagem… Tá anotando?…

Mr. Pain: – Sim, sim…

Pior: – “Careca é a tua prima, ponto. A guria é apenas depilada, ponto e vírgula, da cabeça aos pés, exclamação.”

Mr. Pain: – Anotei. Enviarei a mensagem… Ué, mas como você sabe isso, Pior?

Pior: – Possuo visão com raios X marcianos, esqueceu?

Mr. Pain: – Ah sim, claro!

Pior: - E da chileninha?.. Há novidades?..

Mr. Pain: – Nem dela nem da sombra dela! Que cachorra, né?..

Pior: – Olha o respeito, mordomo!

Mr. Pain: – Sem ofensa, claro! Só falei porque…

Pior: – Well, ela tem um décimo sentido, sabe?… E é canino!

Mr. Pain: – Você acha que ela já descobriu que você viajou por causa da operação “Tatu”?

Pior: – Evidente! Posso enganar meio mundo, mas a ela é muito mais difícil.

Mr. Pain: - Então ela vai continuar achando você um canastrão, certo?

Pior: – Pois vai… Ninguém lhe tira aquela ideia da cabeça…

Mr. Pain: – Gostaria de o ter acompanhado a Marte, Pior!

Pior: – Não pode ser! Não é permitido. Em Marte vigora um sistema político muito fechado a outros planetas. É uma espécie de regime chinês do tempo do Mau Ti Zé Pun.

Mr. Pain: - Mao Tse Tung, quer o senhor dizer…

Pior: – Isso! Além disso você não iria gostar do clima nem da paisagem. O meu povo vive três mil quilómetros abaixo da superfície. Não há céu, nem vento, nem nuvens, nem sol…

Mr. Pain: – Têm água?..

Pior: – Água?.. Água é o que menos falta! No subsolo temos rios, lagoas, piscinas, banheiras de hidromassagem, tudo!

Mr. Pain: – E peixes, têm?

Pior: – Se temos! Zarolhos, zarelhos, ceguetas, peixes de todas as espécies! Só não temos aves. A última perdiz foi extinta há milhares de anos…

Mr. Pain: – Então não há também cachorras perdigueiras, pois não?

Pior: – Bem, a sociedade de Marte é quase perfeita, mas nem tanto: perdigueiras, tem em toda a parte. É uma pestinha universal! Perdigueiras e onças! Aliás, sabe de onde vem a palavra “Martini”? De Marte, obviamente! É o que mais lá há: martinis!

Mr. Pain: – Por falar em martinis… Sabia que Mr. Almost anda a becvsonhasvoxjq?

Pior: – Anda a quê?… Contact! Mr. Pain! Contact!

Mr. Pain: – kstnmnbadsolenl…

Pior: – Estou passando por uma tempestade de poeiras cósmicas…

Mr. Pain: – Chbhcehanta das cahorgas…   

Pior: - Negativo! Mensagem não recebida! Tentaremos contacto mais tarde.

Mr. Pain: – Senslajnmpitjsmnas.

Pior: – Sem pijamas?.. Grrr!…

Era Uma Vez a Noite de São João…

Noite de São João

A noite de São João é festejada com exuberância e ruidosamente nas ruas da cidade do Porto, e, em proporções dimensionadas às cidades ou localidades vizinhas, quase em toda  a zona metropololitana envolvente. Como todas as festas populares, a da noite de São João tem algo de grotesco, de rudeza, de irracionalidade, que raia a insanidade e a histeria colectiva, atributos que não apreciamos especialmente. A ideia de passar a noite à marretada com martelos de plástico sonoros, de atirar alhos-porros para cima dos outros, de passear com um vaso de manjericos na mão pelo meio da multidão entusiástica em palavrões e embriagada pelo fervor dos disparates, parece-nos insípida e frívola, e não nos é particularmente simpática.

De resto já celebramos a santidade do dia comendo sardinhas assadas com pimentos, boroa e vinho verde tinto. Estamos satisfeitos, por agora.

Com a ausência do Pior Homem do Mundo, o serão no Priorado acaba, pois, por ser marcado pelo sossego e pela tranquilidade. Escutamos umas melodias, folheamos uns livros, comentamos os assuntos do dia e conversamos sobre assuntos diversos. Por exemplo, neste preciso momento, acabamos de comentar a agradável curiosidade do facto de que as quatro últimas visitas femininas ao Priorado terem sido sensacionais: a Ju, a Cora, a Amèlie e a Capitu! Sentimo-nos naturalmente muito honrados! E como conversa puxa conversa, acabamos por conversar não só delas, mas também das que não vieram e dos amigos em geral… Por fim, sem mais nada que dizer, remetemo-nos ao silêncio das nossas cogitações… Até que:        

Mr. Pain: – Que tédio…

Mr. Almost: – Na verdade, estas festas populares são uma chatice…

Mr. Pain: – Vamos jogar às cartas?

Mr. Almost: – Para quê?.. Ganho sempre!

Mr. Pain: – E um xadrez, hein?

Mr. Almost: - Também ganho sempre…

Mr. Pain: – Ou umas damas…

Mr. Almost: – Hum… Essa palavra soa-me bem…

Mr. Pain: – Há por aí um tabuleiro… Vou pegar…

Mr. Almost: – Espere! Não se precipite. Há damas e damas… e pegar e pegar!

Mr. Pain: – Como assim?

Mr. Almost: Todo o mundo foi para as festas, certo?..

Mr. Pain: – Sim, claro! Quase todo o mundo…

Mr. Almost: … E estão se divertindo à maneira deles, não é?

Mr. Pain: – Sim, claro!

Mr. Almost: – Nesse caso, também devemos divertir-nos à nossa maneira…

Mr. Pain: – Sim, claro!

Mr. Almost: – Anda daí, vamos!

Mr. Pain: – Sim, claro!.. Vamos onde?

Mr. Almost: – Visitar umas damas!

Mr. Pain: – Sim, claro! Que boa ideia!

Mr. Almost: – E pegá-las!

Mr. Pain: – Sim, claro! Tiraste-me as palavras da boca, Almost…

Mr. Almost: – Como diz o povo,  a ocasião…

Mr. Pain: – O povo é um poço de sabedoria, Almost!

Mr. Almost: – Vai buscar o saco.

Mr. Pain: – O saco? Que saco?.. O Louis Vuitton?

Mr. Almost: – O saco Louis Vuitton?.. Rsss… E depois eu é que não enxergo um palmo à frente dos olhos!..

Mr. Pain: – Ah!.. Entendi agora! O saco para trazer as damas!

Mr. Almost: – Sim, claro!

Mr. Pain: – E a corda para amarrá-las, também?

Mr. Almost: – Sim, claro!

Mr. Pain: – Tu corres a apanhá-las e eu seguro o saco, como habitualmente, não é?

Mr. Almost: – Sim, claro!

E lá íamos… Mas uma voz disse-nos que éramos capazes de fazer mais…  E fizemos: ficamos a olhar o mar e os balões de São João subirem os céus até as luzes das festas se apagarem…

Era Uma Vez Michael Jackson…

Era Uma Vez Um Paradoxo Subtil…

Cama

Na minha vida cometi vários milhões de pecados. De alguns deles, provavelmente arrependi-me – já não me lembro; de outros, pensei vagamente arrepender-me, mas não me pareceu valer a pena: esqueci-os, com excepção de uns quantos recentes e de uns outros dispersos, mais antigos, que guardo para arrepender-me no futuro. Sou canibal de partes de um todo e enterro deliberadamente as ossadas aproveitáveis a fim de, um dia, me saciar de recordações não arrependidas: cartas que não abro, convites que não aceito, emails que não leio. 

Na minha vida pratiquei milhões de boas acções. Lembro-me de todas e de cinco ou seis delas com uma nitidez perfeita. Arrependo-me destas cinco ou seis sempre que penso nelas. Arrependo-me sempre como da primeira vez, com a mesma antiga forma furiosa, nunca atenuada, inalterável. Em relação às restantes, sou um ser amoroso porque não as lembro com nitidez suficiente para arrepender-me; e em relação a estas de que me arrependo, sou um ser contraditório.

Mas nunca cometi nenhum pecado que tenha permanecido em mim com o fervor e a sinceridade inalteráveis com que me arrependi contraditoriamente destas cinco ou seis  gratas e amorosas acções.  

E digo: – “Desculpe não lhe responder hoje. Praticamente, estou letárgico.”

Uma voz diz: – “Não se afogue, que nada é para já!”.

E digo: – “Tem de vir atrás e aprender a confiar no cálculo que eu fiz”.

Uma voz diz: -“Fácil, fácil”…

E digo: -“Você é quem tem a corda ao pescoço”.

Uma voz diz: -“Estou cá quase sem fôlego…”

E digo: “Cinco ou seis…”

Marte não tem marcianas. Não tem sequer nada comparável a uma abelha-rainha, preparada para parir marcianos. Marte é um planeta de homens clonados onde acorrem venusianas pululando de colmeias do interior das naves, com algumas das quais  eu e outros cometemos milhões de pecados e milhões de boas acções: lembro-me de todas e de cinco ou seis com uma nitidez perfeita, que guardo pecaminosamente para me arrepender no futuro, sempre que pensar nelas.

Era Uma Vez… Curiosidades do Mundo Animal, by Mr. Pain

Leões

A Índia tem uma carta dos direitos da vaca. Em países considerados mais civilizados e evoluidos, a vaca não viu ainda reconhecidos os seus direitos.  Que fique o facto registado e à consignação do legislador.

O sexo dos cavalos pode ser identificado pelos dentes: os machos têm 40 dentes e as fêmeas 36. Contudo, por razões óbvias, ninguém se dá ao trabalho de contar os dentes dos equídeos para determinar-lhes o sexo, mas apenas para determinar-lhes a idade. Trinta e seis, Cora?..

Alguns leões copulam mais de cinquenta vezes por dia. Nas montanhas mineiras do Brasil não existem leões.

A Austrália, com o tamanho de um continente, não tem macacos. No Estado de Minas Gerais, além de existir um vilarejo chamado Macacos, com pousadas e chalés, há milhares de macacos nas montanhas e até nos chalés.

O orgasmo do porco dura meia hora. O do Roney Maurício não vai além de três a quatros segundos.

A onça é o maior mamífero carnívoro do Brasil, e necessita de pelo menos 2 kg de alimento por dia, o que determina a ocupação de um território de 25 a 80 km² por indivíduo a fim de possibilitar capturar uma grande variedade de presas. A onça selecciona naturalmente as presas mais fáceis de serem abatidas, em geral indivíduos inexperientes, doentes ou mais velhos, o que pode resultar como benefício para a própria população de presas. Se exagerar no alimento pode tornar-se igual a uma musa de Botero.

A maioria dos raticidas tem um gosto extremamente amargo para o homem, para o cão e para o gato, a fim de evitar ingestões por acidente. Calcula-se que o sabor da cicuta seja, por isso, doce e agradável, mas quem a provou não contou a experiência e não foi só por ter a língua presa, não…

Só as fêmeas grávidas do urso polar hibernam. Será que a Mara Fortuna está grávida e namora com um urso polar?

As cabras não têm dentes da frente no maxilar superior. As mulheres têm. Cuidado, homens!

A preguiça tem o cérebro do tamanho de uma azeitona. Também conheço pessoas com o cérebro assim, mas, por causa da educação que tenho, não digo quem são.

É possível fazer uma vaca subir umas escadas, mas impossível fazê-la descê-las. Por isso é que os hotéis com mais de um andar já têm elevadores.

Li que os veados dormem cinco minutos por dia. Eu li, hein?.. Nunca convivi com esses animais para poder saber se é verdade. Nem quero.

Os olhos de um hamster podem cair se o bicho for pendurado de cabeça para baixo. Os do Marcos Rocha caiem sempre quando as gatas do dia despem as calcinhas, lá para “a parte de baixo da página central”.

Quando duas zebras param ao lado uma da outra, colocam-se de forma a ficarem com a cabeça voltada para a bunda da parceira do lado. Dá a impressão que estão zangadas, mas a verdade é que trata-se de uma estratégia para vigiar a aproximação dos predadores. A Amèlie e a Yaya também causam a impressão de que andam sempre zangadas. Será?.. Rsss…

O polvo tem os testículos na cabeça. Daí, quando o animal tem dores de cabeça, devem ser dores terríveis! E deve pensar muito em sexo, mas não tanto como aqueles que todos os dias visitam o blogue da “Helô”.

Por sua vez, o camarão tem o coração na cabeça. Creio não ser muito vantajoso ter o coração tão perto da boca, não é Tetê?..

As escamas de peixe são um dos ingredientes que confere brilho aos batons. Eu bem que desconfiava daquele travo a peixe após os beijos!

O leão-marinho controla haréns de até cem fêmeas. Não existem leões-marinhos nas montanhas de Minas Gerais, mas há macacos.

O polvo consegue transportar uma dezena de caranguejos para a sua toca, levando-os debaixo dos braços, na pele que liga os tentáculos. O Nicolau consegue levar o dobro ou até o triplo para casa dentro de um vulgar saco de plástico.

O peixe de água salgada tem espinhas mais grossas do que o de água doce. Portanto, a fêmea do peixe zarolho, que vive no rio, tem espinhas finas, e deve ser muito gostosa de comer.

As raias-manta não possuem uretra, pelo que urinam pelos poros. Que nojo! Não como mais raia!

É errada a constatação científica segundo a qual nos últimos quatro mil anos, nenhuma espécie animal foi domesticada. Só nos últimos vinte anos, eu constatei a existência de centenas de homens que foram domesticados após o casamento pelas respectivas mulheres. Concorda, Roney?..

Os perus domésticos não voam. Os selvagens conseguem voar por curtas distâncias a 90 km por hora e são também velozes no solo, correndo a 40 km por hora. Pronto! Está explicada a razão porque as mulheres domesticam os maridos: para que não tenham muitas capacidades de escaparem. Fiquei curioso por saber o tempo que o Nicolau demorará a percorrer os 21 km da meia maratona!

Para quem tiver uma família numerosa como o Chorik e, em breve, o Nicolau, aqui fica uma preciosa informação de culinária: Pode-se fazer onze doses e meia de omeleta com um único ovo de avestruz. 

À atenção das senhoras aves: o cisne é a única ave com pénis.

Se muitos homens desejariam ter o orgasmo do porco, muitas mulheres adorariam ser como a fêmea do condor: põe um só ovo de dois em dois anos, e, portanto, sofre TPM apenas de dois em dois anos.

A galinha que mais tempo se manteve no ar em voo, aterrou passados 13 segundos. Parece pouco, mas tentem lá fazer o mesmo sem se atirarem da janela do 18º. andar!

As avestruzes defendem-se ao pontapé. A Avassaladora também, mas só na gramática.

As iguanas têm dois pénis, mas acredito que os homens continuariam a preferir ter apenas um, com o orgasmo do porco.

A teia de aranha é o material natural mais resistente do mundo. Os especialistas em teias de aranha que estudaram a resistência do material com que estas são feitas, concluíram que um fio da grossura de um lápis poderia parar um Boeing 747 em pleno voo. Pôxa Casti, você é poderosa, hein?..  

Era Uma Vez… Uma História Verídica, Amarela e Verde, com Quatro Pessoas, Várias Piadas e Dois Pontinhos Vermelhos.

amarelo e verde

Era infalível e exacto como uma lei matemática: durante o jantar Gustavo sempre contava à mesa uma piada sobre portugueses…

“O português estava dirigindo em uma estrada, quando viu uma placa que dizia: ‘Curva Perigosa à Esquerda’. Ele não teve dúvidas: virou à direita!” 

… E de seguida, Gustavo perdia-se a rir:  – “Auahauhauah”

O velho Januário escutava e não comentava. Olhava Ana, a mulher, quando levava a colher da sopa à boca e trocava com ela um olhar triste.

No ano de 1944 Januário Barbosa, português, aprendiz de carpinteiro, tinha 18 anos de idade quando casou com Ana Emília Andrade, de 18 anos, portuguesa, do lar, filha de agricultores humildes. Em dote de casamento o casal recebeu um jovem boi, quatro pares de lençóis de linho, uma toalha de mesa bordada e mais alguns panos rendados. A féria de Januário não chegava para viverem e para levarem a vida em frente arrendaram uma casa e quintal, onde criavam novidades, galinhas e coelhos.

“Conversa entre o empregado e o chefe, ambos portugueses:

  - Chefe, nossos arquivos estão super lotados, posso jogar fora os que tem mais de 10 anos?
- Sim, mas antes tire uma cópia de todos.” 
 

O jovem casal não possuía terras próprias, mas amanhava três leiras de terra com latadas, arrendadas, onde cultivava milho, batatas, feijão, trigo e vindimava as latadas. Das parcas colheitas que obtinha do amanho, uma parte era vendida no mercado e o produto da venda pagava a renda da casa; quatro carros de bois de batatas, cinquenta alqueires de milho, cinco de feijão e dez almudes de vinho, pagavam a renda anual das leiras; o que sobrava servia para as necessidades da sua alimentação.

“O português vê uma máquina de Coca-Cola e fica maravilhado. Coloca uma fichinha e cai uma latinha. Coloca duas fichinhas e caem duas latinhas. Coloca dez fichas e caem dez latinhas. Então ele vai ao caixa e pede 50 fichas. Diz então o caixa:

 - Desse jeito o Sr. vai acabar com as minhas fichas.

 - Não adianta, eu não paro enquanto estiver ganhando.” 

Em 1945 terminou 2ª. Guerra Mundial e com ela a promessa de tempos melhores. Porém, em 1946, Januário Barbosa foi recrutado e chamado a cumprir serviço militar em Angola. Ana Emília passou a dirigir e a fazer sozinha todo o trabalho do campo. Em 1948 Januário voltou e Ana Emília contou-lhe que os fiscais do Governo haviam confiscado anualmente vinte por cento das colheitas de todos os produtores agrícolas para guarnição dos exércitos espalhados nas províncias ultramarinas na Índia e em S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Guiné, Macau, Cabo Verde e Timor-Leste. A miséria anunciava-se: após o pagamento das rendas, vinte por cento das colheitas era o que sobrava para a sobrevivência do casal. Toda a Europa encontrava-se devastada pela guerra e as oportunidades de trabalho de carpintaria escasseavam. O suor do trabalho não daria para viver.

 “- Manuel, você gosta de mulher com muito seio?

- Não, pra mim dois já tá bom.” 

Em 1950 Januário e Ana venderam o boi, entregaram a casa e as terras e com mais algum dinheiro emprestado, compraram duas passagens e desembarcaram de navio no Rio de Janeiro. Três dias depois de chegarem, Januário foi à igreja confessar-se e, com o padre, conseguiu combinar o seu primeiro trabalho como carpinteiro: fazer bancos novos para a igreja e recuperar as talhas do altar. O trabalho foi tão apreciado que novos trabalhos se seguiram. Pagou o empréstimo para a viagem e montou carpintaria; adquiriu maquinismos, contratou aprendizes, prosperou no negócio. Deixou o alto do morro onde vivia e desceu para viver nas Laranjeiras; Das Laranjeiras comprou casa na praia do Flamengo.

 “Manuel está tomando banho e grita para Maria:

- Ô Maria, me traz um shampoo.

E Maria lhe entrega o shampoo. Logo em seguida, grita novamente:

- Ô Maria, me traz outro shampoo.

- Mas eu já te dei um agorinha mesmo, homem!

- É que aqui está dizendo que é para cabelos secos e eu já molhei os meus.” 

Ana costurava vestuário para senhoras a partir de modelos de revistas de moda e também ganhava dinheiro; aos poucos foram construindo um pequeno império: compraram um primeiro prédio que arrendaram ao comércio e serviços, Januário lançou uma empresa de construção civil e construiu prédios que vendeu ou arrendou, e, ao fim de muitos anos, o casal comprou uma vivenda na sua terra natal, onde iam todos os anos passar um mês de férias.

“Maria vai ao ginecologista reclamando que não consegue engravidar.

- Por favor, tire a roupa e deite-se naquela maca – diz o médico, preparando-se para examiná-la. E ela indecisa:

- Mas, doutor! Eu queria tanto que o filho fosse do meu Manuel!” 

Do casal haviam nascido dois filhos: Elisa e Gustavo. Elisa cursou línguas modernas e casou com Matias, professor de ciências no secundário. Januário ofereceu ao casal um apartamento no Jardim Botânico; Elisa descobriu que não podia ter filhos, deixou de visitar os pais, fazia vida só com o marido e os amigos, e optou pela nacionalidade brasileira. Gustavo nunca levou os estudos a sério, nunca mostrou interesse em trabalhar e nunca casou: andava de farra em farra, saltava de namorada em namorada e vivia de uma mesada generosa dos pais que sempre ultrapassava.

 “O Manuel foi, na segunda-feira, a uma loja de sapatos. Escolheu, escolheu e acabou se decidindo por um par de sapatos de cromo alemão. O vendedor entregou o sapato, mas foi logo advertindo-o:

- Sr., estes sapatos costumam apertar os pés nos primeiros cinco dias.

- Não tem problema. Eu só vou usá-los no domingo que vem.” 

Desde que Januário e Ana compraram vivenda em Portugal, Elisa e Gustavo não acompanharam mais os pais em férias, preferindo ficar no Rio. Desculpavam-se com dizeres do tipo “- Lá na vossa terrinha é uma pasmaceira, não tem gatas nem nada para a gente se divertir”; “ Tenho compromissos aqui, vou lá fazer o quê, comer bacalhau com couves?”; Sou brasileiro, Portuga não tem nada a ver comigo.”; “Bah, sem assunto, vão vocês!” …

Manoel Joaquim dos Santos, nascido em Trás-os-Montes, no extremo bem extremo Leste de Portugal, ganhou seu primeiro lápis de colocar na orelha, quando tinha 2 anos. Aos 15 anos, já no primário, ganhou sua primeira caneta-tinteiro de orelha.  Aos 32 anos, descobriu que caneta também servia para escrever. Hoje, já informatizado, está com orelha de abano, por causa do peso do mouse…”

No ano de 2002, com setenta e seis anos, Januário vendeu a empresa de construções e encerrou a carpintaria. O casal vendeu os prédios, reservou o usufruto vitalício de algumas rendas e recheou a sua conta conjunta num banco de Portugal. Deixou de trabalhar e passou a viver dos rendimentos.

“Vocês sabem porque sociedade entre portugueses sempre dá certo?.. Porque um rouba do outro e deposita na conta conjunta!”

No dia 7 de Março de ano de 2003 Elisa telefonou à filha, convidando-a e a Matias para um jantar em sua casa, porquanto queriam ter uma conversa com eles. Elisa desculpou-se, referiu que tinha um compromisso, que ficaria para outro dia, que ligaria na próxima semana.

“O português passava em frente a um chaveiro quando viu uma placa: ‘Trocam-se segredos’. Parou abruptamente, entrou na loja, olhou para os lados e cochichou para o balconista:

- Eu sou gay, e você?” 

No dia 18 de Abril de 2003, antes de jantar, Januário chamou Gustavo à sala e pediu que se sentasse. Gustavo escutou Januário dizer-lhe que planeava regressar a Portugal por uma temporada ao mesmo tempo que enviava mensagens pelo celular, combinando com amigos a farra dessa noite. Comentou “tá bom, velho, vocês vão, eu fico cá; agora preciso trocar de roupa, vou pegar um amigo logo após o jantar.”

“- Sabem como é restaurante por quilo de português?..  O cliente é pesado na entrada e na saída.”

No dia 25 de Abril de 2003,  Januário perguntou a Gustavo se na tarde do dia seguinte poderia levar os pais ao aeroporto.  Gustavo resmungou:“- Ué, tem de ser amanhã?” ;“A que horas?”; “Pôxa, velho, me desperdiçou o dia”.

“O Português foi pro Japão e comprou um par de óculos cheio de tecnologia que mostrava todas as mulheres peladas.   Manuel coloca os óculos e começa a ver todas as mulheres peladas; Ele se encanta:  Põe os óculos, peladas! Tira os óculos, vestidas! Que maravilha! Ai Jesus! E assim foi Manoel para Portugal, louco para mostrar a novidade para a  mulher, Maria.   No avião, se sente o máximo vendo as aeromoças todas peladas.   Quando chega em casa, já coloca os óculos para pegar Maria pelada.  Abre a porta e vê Maria e o Compadre no sofá pelados. Tira os óculos, pelados!   Põe os óculos, pelados!   Tira, pelados!  Põe, pelados!   E Manuel diz: – ‘Puta que pariu! Essa merda já quebrou!”

 No dia 26 de Abril, pelas 18 horas, Gustavo transportou Januário e Emília ao Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. No trajecto, Gustavo contou uma última anedota:

“- Vocês sabem quantos portugueses são necessários para afundar um submarino?..  Dois. Um bate na porta, o outro abre!”

Gustavo riu desalmadamente um último “Auahauahauah” e Januário, pela primeira vez na vida, sorriu de piada sobre português. Após o check in, Januário pediu a Emília que entrasse para a área reservada dos passageiros que logo de seguida iria ter com ela. Emília abraçou Gustavo e se foi. Januário abraçou Gustavo também, e disse-lhe:

 - “Engraçado, Gustavo, sabe que eu sempre pensei que submarino não tinha portas, mas sim escotilhas?.. Mas sejam portas sejam escotilhas não é importante, filho. O que é importante é que eu e sua mãe somos dois portugueses que sempre trabalhamos muito e você é um brasileiro que nunca fez nada. Você sempre se envergonhou de seus pais e sempre os envergonhou; sempre xingou seus pais com anedotas imbecis; sempre falou mal do país de seus pais; sempre feriu nosso coração. Sua irmã nunca quis saber de nós, pois sempre pensou só nela. Por tudo isso, eu e sua mãe, vendemos tudo o que tínhamos aqui, inclusive a casa onde você mora que deverá deixar devoluta este ao final deste mês. Não voltaremos mais; viveremos os últimos restos dos dias no nosso país. Você tem quarenta anos, filho, e é brasileiro. Nunca trabalhou na vida e quando se ama um país não basta se gostar dele: é preciso contribuir para que ele progrida, para que ele cresça. Eu amo muito o Brasil e já contribui muito para com ele. O Brasil me deu um emprego e uma oportunidade para trabalhar: eu agradeci primeiramente com o meu trabalho; depois retribuí a oportunidade, criando centenas de empregos para centenas de famílias brasileiras. E continuo ainda retribuindo, pois, deixo ao Brasil os valores e a formação que transmiti aos milhares de operários a quem empreguei; deixo-lhe, inclusive, os meus filhos, Gustavo e Elisa, para que eles continuem contribuindo… com mais trabalho. E deixo-o com o coração grato, pois foi aqui que vivi a maior parte da minha vida e tudo o que tenho a dizer é bem deste país e desta gente.

Vai trabalhar, Gustavo: tens a chave de um automóvel no bolso e quatro dias para arrumar um emprego e uma casa -  tens muito mais do que eu e sua mãe tínhamos quando aqui chegamos, há mais de cinquenta anos atrás. Aproveite o que tem, se vira agora mesmo, para a direita ou para a esquerda, e não desperdice mais seu dia.”

Januário adentrou no aeroporto sem olhar para trás: procurava Ana Emília mais adiante para trocar com ela um olhar feliz.

Era Uma Vez Um Atentado Frustrado…

Mr. Almost cupido

Na madrugada de sexta-feira para sábado, ‘a coisa’ nem começou mal: uns beliscões nos braços durante o êxtase sexual são algo de normal e de compreensível, porque as mulheres tendem a agarrar-se a qualquer coisa que seja firme e sólida e esta tinha os meus braços, um de cada lado. As unhazitas da guria cravadas nas costas?.. Deixa para lá, vá que não vá, tolera-se: é sangue quente, excitado, ardor felino, sexo selvagem. Ainda estamos no deambular do século XXI, é aceitável certa porção de selvajaria. De resto, a guria até parecia mansinha, falava baixinho, sorria muito e era tão afectiva!.. Só mais tarde, lá para as 15 horas de domingo, é que a guria começou a ficar brava e ‘a coisa’ tornou-se séria: descobri que aquele bichinho inofensivo tinha contratado um guri meio angélico, assim tipo sócia do Marcos Rocha, para me alvejar no coração! Ainda não sei bem como consegui, mas escapei por um triz! Claro, sofri imensas mazelas porque o ataque foi cerrado e a fuga atribulada: além dos beliscões e dos arranhões, estou cheio de nódoas negras dos chupões, tenho a minha rica libido no nível zero, o lábio inferior todo mordido, o queixo numa lástima das dentadinhas, e já nem falo das assaduras e esfoladelas naqueles bocaditos pessoais que todos os homens prezam muito, porque, conforme a experiência adquirida, curarão por si mesmos dentro de dois ou três dias e porque essas chagas fazem parte do risco de se ser um agente secreto muito envolvido nas missões que  abraça.

Mr. Almost ferido

Àqueles que foram atingidos pelas setinhas envenenadas que me eram dirigidas, apresento desculpas. Juro que não fiz de propósito, eu é que sou ágil e estou bem treinado para esquivar-me a projécteis envenenados, e, eu sei, vocês não contavam com setas perdidas. Processem o guri, se quiserem, que eu tenho tudo filmado! Tudinho!..

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