
ACTO I
[O tecto da sala de espectáculos do Teatro é uma magnífica abóbada de cruzaria sexpartida que permite uma disposição da plateia, dos balcões, das frisas e dos camarotes com excelente perspectiva do palco. A sala, deslumbrante em talhas e cornucópias de ouro, está repleta de espectadores acomodando-se, envoltos num rumor de cumprimentos que logo se dispersa na troca de sorrisos e de olhares perscrutadores. As pancadas que homenageiam Moliere anunciam o subir do pano negro que escondia até então o palco: no centro, em diagonal e ligeiramente curvilínea há uma estrada em terra castanha ladeada por vegetação densa que se perde no fundo do cenário, representando um bosque; no lado direito há uma árvore centenária cujos ramos, fazendo arcádia sobre a estrada, servem de travessia aos esquilos e de poiso aos mochos; junto ao tronco da árvore, três crianças vestidas de bailarinas - coelhinhos brancos brincam despreocupadamente.
A Chapeuzinho Vermelho surge caminhando para a casa da vovozinha e leva no regaço um cestinho de doces. A tarde estava bonita e a temperatura era amena, do jeito que mais a agradava. Ela parecia caminhar displicentemente, mas, no fundo, estava atenta a todos os movimentos. Porém, só encontrou alguns esquilos entre as folhas e, desolada, resolveu sentar-se à sombra de uma árvore e comer uma das guloseimas, já que trazia, também no cestinho, muitos e muitos guardanapos, que a impediriam de ficar lambuzada de chantilly. Afinal, não havia, a princípio, motivo algum que justificasse tal lambuzo. (Ou havia?)]
(Na plateia…)
Mitti: – Olhem gente, é a Luna!
Silvania: – Menina, quanta coisa nessa cachola, hein?
Cibelle (acenando para o palco): – Ei, Luna, estou aqui! Tem lá um selinho no meu blog! Admiro você!
Mitti (acenando também): – Menina, faz uma doação de neurónio pra minha pessoa?
Félix: – É… E a Luna também faz blogs mágicos assim com textos encantados.
Doce Essência: – Miga! Tô de volta no msn… Rs
Erica Ferro: – Luna, tu és fantástica!
Miss Univérsio Próprio: – Você é demais, menina! Adoro, sabia?
Silvia Gonçalves: – As mulheres independentes estão na moda… e a homarada odeia!!. Rs…
Dani: – Luninha, quero que tu saibas: tenho maior orgulho de ter tua amizade, viu?
RM: – Ei Luna, não posso revelar a fonte, mas uma conhecida blogueira me falou, em off…
Udi: – E sabe de quem eu mais gosto? Da Chapeuzinho!..
Chapeuzinho vermelho (do palco para a plateia): - Shiuuu, migos, assistam calados! Rs…

[Uma melodia (Ouça aqui) se fez ouvir com o som de guitarras electricas que se misturam logo com o das baterias… As crianças bailarinas deram as mãos entre si e fazem agora, animadamente, rodinha de carrocel. Chapeuzinho Vermelho saboreou o doce de-mo-ra-da-men-te, demonstrando satisfação em devorá-lo, não só através dos olhos, que chegaram a fechar, mas também pelo “Hummmmmmmmmm” que soltou. Após isso, foi procurar o Lobo Mau por detrás dos arbustos da floresta, enquanto cantava:
Pack up;
I’m straight;
Enough;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say;
Oh say, say, say
Wait, they don’t love you like I love you; wait, they don’t love you like I love you;
Ma-a-a-a-a-a-a-a-a-aps;
Wait! They don’t love you like I love you.....
(Logo que a música terminou ouviu-se o roncar do motor de um veículo que se aproximava; Chapeuzinho Vermelho ainda lambia os dedos quando o motoboy parou ao lado dela...)
Motoboy: - Olá, honey só! Como te chamas, hein, baby?
Luna: - Cai fora, seu motoboy! Tenho um encontro com o Lobo Mau, não vem estorvar!.. Shôooo!
Motoboy:- Ué, não vais me dizeres nem o teu nome, nininha?
Luna:- Chamo-me Chapeuzinho Vermelho.
Motoboy: - Que nome mais lindo!... Mas tens a ponta do nariz lambuzada de chantilly, estiveste a comer guloseimas, honey?
Chapeuzinho Vermelho (limpando o nariz com as costas das mãos): - Estive. Que é que você tem a ver com isso, hein?
Motoboy: - Eu?... Well, “com isso” o quê, com o chantily?... Auuuuuuuu!
Chapeuzinho Vermelho (abrindo muito os olhos de surpresa e com interesse): - Que é que você falou?! “Auuuuuuuu!”?! Como você se chama, hein?
Motoboy: - Chamo-me Mr. Almost. E não falei “Auuuuuuuu!”, falei inglês: “Ah, you!"; você está escutando muito mal Chapeuzinho…
Chapeuzinho Vermelho: - Tô? Você acha, Mr. Almost?
Mr. Almost: - Tenho a certeza! Chegue aqui, preciso de observar as suas orelhinhas.
...Na plateia:
RM (acotovelando MR):- É o Portuga!
Marcos Rocha: - Grande Mr. Almost! Rs rs rs…
Avassaladora: - O bicho mau! O rato!
Amèlie (segredando para a Yaya): - O sacaninha!
Yaya: - Sim, qual deles, o dos puns-puns?
(Entretanto no palco, Mr. Almost examinava as orelhas da Chapeuzinho Vermelho…)
Mr. Almost: - Txiiii! É mais grave do que inicialmente eu supunha… Este problema pode causar surdez aguda!
Chapeuzinho Vermelho: - Quê?! Que têm as minhas orelhas?
Mr. Almost:- Estão muito secas por dentro. Você odeia o calor e o Verão, não é?
Chapeuzinho Vermelho:- Ai Jesus! Sim, odeio…
Mr. Almost:- Esse ódio é um instinto, uma reacção natural, um espírito de sobrevivência, Chapeuzinho! A situação é crítica, você precisa de humidade nas orelhas imediatamente.
Chapeuzinho Vermelho:- Você pode me ajudar, Mr. Almost? Me ajude!
Mr. Almost:- Está bem! Com a minha língua húmida vou banhar suas orelhas… Slup, slup, slup…
Chapeuzinho Vermelho:- Estou sentindo calor nas faces e sensação de frio nas costas e na barriga…
Mr. Almost:- É normal, minha linda: você está com o pescoço muito tenso. Não se preocupe, vou relaxar também o seu pescoço com a minha língua… Slup, slup, slup…
Chapeuzinho vermelho:- Ai, não está resultando. E se você me desse umas dentadinhas, Mr. Almost?
Mr. Almost:- Boa ideia, Chapeuzinho! Cráu, cráu, cráu!
Chapeuzinho Vermelho:- Uia! Tô perdendo as forças, me pegue ao seu colo, calmeirão!
Mr. Almost (pegando a Chapauzinho no colo):- Vou te deitar ali no bosque à sombra!
Chapeuzinho Vermelho:- Leve-me, sim! E deite-me num local bem escondidinho, Mr. Almost! Ai, aiiiiii… Depressa, por favor, o meu coração está ficando acelerado e tenho tremuras e ardências! E muita falta de ar!
Mr. Almost (embrenhando-se no bosque):- Txiiii! Respira fundo, respira fundo!... Você está precisando de respiração boca a boca!.. Ai, como você fica linda assim, com falta de ar...
Chapeuzinho Vermelho: - Desaperte a minha blusa, motoboy! Tô sufocando...
Mr. Almost (desapertando-lhe a blusa): - Grrrr! Caraca! Que lindos pulmões! E muito inchados do calor! Vou apertar e lamber para eles não incharem mais, tá?... Slup slup Slup!...
Chapeuzinho Vermelho: - Leva-me para um lugar refrescante! E vamos de moto para chegarmos mais rápido!
Mr. Almost (voltando para trás com a Chapeuzinho ao colo): - Sim, boa ideia! Vamos! Agarre-se em mim, com muita força para não cair.
Chapeuzinho Vermelho:- Yeah! Vambora, rápido! Aii...
Mr. Almost: - Não se preocupe, Chapeuzinho: haja o que houver você está comigo!
(A música dos Madredeus (veja e oiça aqui) ecoa no Teatro e o pano cai… Os espectadores apupam veementemente o acto I, fervilhando irados e horrorizados pelo desfecho.)
ACTO II

[O pano sobe lentamente… O cenário mantém-se, mas as crianças bailarinas sumiram; a luz é mais difusa do que antes, indicando que a noite está caindo. Vovozinha vinha caminhando pesarosa pela estrada em busca da Chapeuzinho Vermelho… Pensou que seria bom descansar ali, por alguns minutos e sentou-se na berma da estrada. Uma melodia (Oiça aqui)ecoa na sala do teatro… Mr. Pain aparece ao fundo, também caminhando pela estrada, e encontra a Vovozinha muito triste sentada na berma da estrada…]
Mr. Pain (levantando o chapéu):- Boa noite, minha senhora!
Vovozinha: – Boa noite, senhor.
Mr. Pain:- Sucedeu alguma coisa?
Vovozinha:- A minha neta Chapeuzinho Vermelho não me trouxe os bolinhos e desapareceu no bosque…
Mr. Pain: – Ah, você sabe como é a juventude de agora… despreocupada, mas os guris acabam sempre por se virar…
Vovozinha:- Sim, mas eu estou preocupada… Muito preocupada. Li num blog que ela tinha um encontro com o Lobo Mau.
Mr. Pain:- Com o Lobo Mau?! Ah, sim, entendo a sua preocupação…
Vovozinha:- Coitado do Lobo Mau. A chapeuzinho Vermelho é muito gulosa: ela vai comer o Lobo Mau até ele ficar tísico como um pau de virar tripas…
Mr. Pain:- Ah, sim? Surpreendente! E como ela conseguiria isso, han?
Vovozinha:- Bom… Ela costuma colocar chantilly na ponta do nariz para o Lobo Mau a localizar pelo cheiro doce; depois finge que escuta muito mal e pede-lhe ajuda. Quando o Lobo Mau a ajuda sente os cheiros de fêmea que ela tem em quantidades soberbas e, então, ela faz com que o Lobo Mau a leve ao colo para o meio do bosque… E aí… Cráu! Estupra-o, estropia-o, faz-lhe trinta por uma linha e ele vira um boneco articulado, um peluche nas mãos dela!
Mr. Pain:- Nossa Senhora! Que Deus tenha piedade de Mr. Almost, quero dizer, do Lobo Mau!
Vovozinha: – Não sei a quem aquela garota sai… No meu tempo eu não era assim. Comia um Lobo Mau, é claro, mas não no meio dos bosques. Era mais recatada…
Mr. Pain:- Estou certo que sim, madame.
Vovozinha:- Como é que você disse que se chamava mesmo?
Mr. Pain:- As minhas desculpas, madame, ainda não me apresentei: Monsieur Pain, um servo ao seu dispor.
Vovozinha:- Você me parece um sujeito muito respeitador. E é servil, um gentleman, como eu gosto. Ajuda-me a levantar?
Mr. Pain:- Com todo o prazer, madame!
(Mr. Pain ajuda a Vovozinha a levantar-se)
Vovozinha:- Acompanha-me a casa, cavalheiro?
Mr. Pain:- Com certeza! Tenho muito gosto em…
Vovozinha:- Por falar em gosto, tenho lá em casa um caldinho muito bom… Quer provar? Apesar da idade ainda faço uns caldinhos muito gostosos…
Mr. Pain:- Absolutamente! Sou um grande apreciador de caldinhos. E não duvido que panela usada apura muito os sabores…
Vovozinha:- Então me dê o braço, monsieur.
Mr. Pain:- E… E a Chapeuzinho Vermelho?
Vovozinha: – Deixe pra lá, esta juventude se vira sempre.
Mr. Pain: – Com certeza… É precisamente a minha ideia.
Vovozinha:- Gosto de cavalheiros com ideias; até porque eu também tenho as minhas…
Mr. Pain:- As experiências da vida, aquilo a que os romanos chamavam o “facere”, tornam as pessoas mais sábias, mais preparadas.
Vovozinha:- Reparo que temos muito em comum, monsieur. Façamos… Como os Romanos?… Hum… Que interessante! Você acha que sexo virtual é traição?
Mr. Pain:- Nunca pensei nisso a sério… Penso que as pessoas, se puderem, devem fazer o que mais lhes agrada. O sentimento de trair liga-se à consciência de cada um e é conforme à sua identidade moral. O sexo virtual pode, em certos casos, resultar em virtuosidade para o real, se for essa a expectativa dos praticantes: sentirem-se mais sedutores, mais desejados, mais admirados, e com isso, sentirem-se melhor consigo mesmos, realizados…
Vovozinha: – Muito bem. Como diria a minha neta, faremos uma paradinha e depois prosseguiremos… até casa…
(Mr. Pain e Vovozinha caminham juntos pela estrada, conversando até desaparecerem no fundo do cenário; o pano cai ao som de uma música dos tempos idos (Oiça aqui) . Os espectadores apupam e criticam a peça:
RM: – Rssss… Eu não disse que Mr. Pain era chegado numa balzaca?
Mitti: – Indecente esse Mr. Pain!
Déia: – Sim, aquela teoria do sexo virtual é absurda! É anti-psicológica! O meu grandão não faz!
MR (segredando à Avassaladora): – E, você… Faz um caldinho pra mim também? Rs rs rs…
(TO BE CONTINUED)
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